Cientistas descobriram que águas-vivas e anêmonas-do-mar — animais que não possuem cérebro centralizado — exibem padrões comportamentais próximos ao que chamamos de sono humano, ampliando nossa compreensão sobre as origens evolutivas do descanso biológico. A pesquisa, publicada na revista Nature Communications, indica que esse tipo de estado pode estar presente desde os primórdios da evolução animal, muito antes de surgirem cérebros complexos.

O estudo analisou duas espécies distintas: a água-viva Cassiopea andromeda e a anêmona-estrela Nematostella vectensis. Embora esses animais não tenham cérebro, eles têm nervos distribuídos por todo o corpo que lhes permitem reagir ao ambiente, capturar alimento e coordenar movimentos básicos. Estes sistemas nervosos difusos, típicos de cnidários, são um dos primeiros tipos de redes neurais na evolução animal.

Águas-vivas dorminhocas

Os pesquisadores observaram que ambos os animais apresentaram períodos regulares de repouso que lembram o sono humano: eles se tornaram menos ativos, responderam mais lentamente a estímulos e exibiram uma redução considerável nos padrões de movimento associados à vigília. Nas águas-vivas, os períodos de descanso ocorreram principalmente à noite, com cochilos curtos ao longo do dia; já as anêmonas dormiram por cerca de um terço do dia, com maior descanso durante o período diurno.

Uma descoberta especialmente significativa foi que a privação desse estado de repouso levou a um aumento de danos ao DNA em células nervosas dos animais, algo que também acontece em humanos quando se fica acordado por muito tempo. Tanto a água-viva quanto a anêmona compensaram a falta de descanso dormindo mais nos períodos subsequentes — um fenômeno conhecido como “rebote de sono”. Essa resposta sugere que o descanso não é apenas um estado inativo, mas um processo biologicamente ativo que ajuda a reduzir danos celulares associados ao gasto de energia durante a vigília.

Os autores do estudo defendem que o sono pode ter evoluído originalmente como uma forma de manutenção e proteção das células nervosas, desempenhando um papel crucial mesmo antes da emergência de cérebros complexos. Essa hipótese contrasta com explicações que ligam o sono exclusivamente à consolidação de memória ou aprendizagem, funções mais associadas a sistemas nervosos avançados


Felipe Sales Gomes

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e nerd desde o berço, sou dono de uma mente inquieta que sempre tem mais perguntas que respostas. Vez ou outra, você pode ler textos meus sobre curiosidades históricas, música, ciência e cultura pop.