Samuel Straioto
Goiânia – Goiás acompanha o movimento nacional de recuperação da cobertura vacinal infantil iniciado em 2022, após o impacto da pandemia de covid-19. Apesar da recuperação, das 13 vacinas de rotina destinadas a crianças menores de 5 anos, apenas duas atingiram as metas no país em 2024: a BCG (96,2%) e a primeira dose da Tríplice Viral (95,6%). As outras 11 permanecem abaixo do esperado, com média nacional de 87,6%.
No Estado, a realidade se repete, com unidades básicas de saúde de Goiânia e do interior trabalhando estratégias de busca ativa e ampliação de horários para melhorar o acesso da população. Os dados constam em estudo divulgado nesta semana, pela Confederação Nacional de Municípios (CNM), que analisou as coberturas vacinais entre 2010 e 2024 com base no Sistema de Informação do Programa Nacional de Imunizações (SI-PNI).
O levantamento mostra que a queda começou em 2016, antes da pandemia. A recuperação iniciada em 2022 tem sido gradual, com o protagonismo dos municípios aparecendo como fator determinante. Em Goiás, profissionais de saúde e gestores locais relatam avanços nas estratégias de imunização, ao mesmo tempo em que enfrentam obstáculos relacionados ao abastecimento e à logística de distribuição das doses.
Desafio anterior à pandemia
A redução nas taxas de imunização não é consequência exclusiva da covid-19. O estudo da CNM identifica 2016 como o ano em que as coberturas começaram a cair de forma sustentada no Brasil.
Entre 2020 e 2021, o cenário se agravou com as restrições sanitárias e o receio da população em procurar as unidades de saúde. A partir de 2022, observa-se uma recuperação, mas ainda insuficiente para retomar os patamares históricos que fizeram do país referência mundial em imunização.
Em Goiás, o período da pandemia também impactou as coberturas, com famílias adiando a vacinação dos filhos e unidades de saúde reorganizando seus fluxos de atendimento.
Vacinação aumentou após a pandemia (Foto: Agência Saúde DF)
Vacinas que preocupam
Algumas vacinas apresentam déficit prolongado no país. A imunização contra poliomielite não alcança a meta de 95% desde 2016. A vacina contra Hepatite B está abaixo do recomendado desde 2014.
Pentavalente, Pneumocócica, Rotavírus, Meningocócica C, Febre Amarela, Hepatite A, DTP e Varicela também seguem aquém dos índices estabelecidos.
O sarampo exemplifica os riscos da baixa cobertura. Considerado eliminado no Brasil em 2016, o vírus voltou a circular em 2018, período que coincidiu com a queda nas taxas de vacinação. Em Goiás, a atenção se mantém para evitar novos surtos.
O cotidiano nas unidades de Goiânia
Taís Mendonça, 29 anos, técnica em enfermagem e moradora do Parque Atheneu, em Goiânia, conhece bem a rotina de vacinação da filha de 2 anos. A caderneta de vacinação da menina está sempre atualizada, reflexo de um cuidado que ela considera fundamental.
“A gente sabe que é importante manter a caderneta em dia. Não só pela nossa filha, mas pelas outras crianças também. É uma responsabilidade coletiva, sabe? Quando uma criança está protegida, ela ajuda a proteger outras que ainda não podem se vacinar”, diz.
Taís conta que, nas conversas com outras mães na sala de espera da UBS do bairro, percebe diferentes níveis de conhecimento sobre as vacinas. “Tem gente muito informada, que pergunta tudo, quer entender cada dose. Mas tem mãe que vai porque o posto chamou, sem saber direito pra que serve. Acho que a informação faz toda a diferença”, observa.
Vacinação ainda carece de melhora de índices para diversas doenças (Foto: Sandro Araújo – Agência Brasília)
Proteção coletiva
Juliana Tavares é pediatra e atende há 12 anos em clínicas e hospitais de Goiânia. Ela explica que a vacinação funciona como uma rede de proteção coletiva.
“Quando a maior parte das crianças está imunizada, criamos uma barreira que dificulta a circulação de vírus e bactérias. Isso protege não apenas quem foi vacinado, mas também bebês muito pequenos, pessoas com imunidade comprometida e aqueles que, por alguma razão médica, não podem receber determinada vacina”, detalha.
A médica observa que, nos últimos anos, tem acompanhado o reaparecimento de algumas doenças que estavam menos frequentes nos consultórios goianos. “São casos pontuais de coqueluche em bebês, surtos de diarreia por rotavírus. Coisas que a gente não via com tanta frequência e que voltaram a aparecer. Isso nos lembra da importância de manter as coberturas elevadas”, complementa.
Juliana acredita que a retomada depende de um trabalho conjunto. “É fundamental que as famílias entendam que cada vacina tem seu propósito. E que os gestores garantam o abastecimento regular. Quando esses dois pontos se encontram, a cobertura melhora”, afirma.
Múltiplos desafios
Marcelo Bittencourt é sanitarista e consultor em políticas de saúde pública. Ele atua em projetos no estado de Goiás e contextualiza os desafios enfrentados pelos municípios goianos e brasileiros.
“A vacinação infantil envolve múltiplos fatores. Não é só ter a vacina na geladeira. Você precisa de infraestrutura adequada nas unidades, equipes capacitadas, logística de distribuição eficiente e, principalmente, comunicação efetiva com a população. Quando um desses elementos falha, toda a cadeia é comprometida”, enumera.
O sanitarista destaca que a desinformação é um obstáculo relevante. “A gente vê, principalmente nas redes sociais, informações falsas sobre vacinas circulando livremente. Isso gera hesitação nas famílias. O trabalho de esclarecimento precisa ser constante e baseado em evidências”, diz.
Em Goiás, gestores locais têm buscado soluções para superar obstáculos. Há experiências de busca ativa em bairros periféricos de Goiânia e em cidades do interior, com agentes de saúde visitando famílias, e também de ampliação de horários de atendimento, facilitando o acesso de pais que trabalham.
Estratégias que funcionam no estado
O estudo da CNM reforça o protagonismo municipal. Em 2024, 74,3% dos municípios brasileiros alcançaram a meta da BCG, o melhor resultado da série histórica analisada. Em Goiás, cidades de diferentes portes têm apresentado resultados positivos quando conseguem manter o abastecimento regular.
Estratégias como integração entre saúde e educação, com vacinação em escolas e creches, uso mais eficiente dos sistemas de informação para monitorar coberturas e campanhas de esclarecimento têm se mostrado eficazes no estado.
Taís Mendonça reconhece esse esforço. “Às vezes a gente reclama da demora, da fila, mas quando para pra pensar, vê que tem muita gente se esforçando pra que tudo funcione. As meninas da UBS sempre tentam ajudar, orientam a gente”, reflete.
Ela reforça a importância do esclarecimento. “Tem mãe que pergunta: ‘Mas pra que serve essa?’, ‘É obrigatória?’. Acho que quanto mais a gente entende o porquê de cada vacina, mais fácil fica fazer questão de manter tudo em dia. Informação clara faz toda a diferença”, observa.
Esforço de autoridades é para aumentar a cobertura vacinal (Foto: Sandro Araújo -Agência Brasília)
Caminhos para a retomada
A CNM propõe medidas para consolidar a recuperação das coberturas vacinais. Entre as recomendações estão a garantia de abastecimento contínuo e previsível de imunizantes, a modernização do Sistema de Informação do PNI e o fortalecimento do financiamento federal destinado à vigilância em saúde nos municípios. A entidade também defende a realização de campanhas permanentes de comunicação que esclareçam dúvidas e reforcem a importância da vacinação.
Juliana Tavares, a pediatra, acredita que o momento pede atenção continuada em Goiás. “Estamos vendo avanços reais, com coberturas melhorando em algumas vacinas e municípios se organizando melhor. Mas ainda há um caminho importante pela frente. A gente não pode relaxar agora”, pondera.
Marcelo Bittencourt, o sanitarista, complementa. “A recuperação que observamos desde 2022 é importante, mas frágil. Precisamos consolidar esses ganhos com políticas sustentáveis. Investimento contínuo, comunicação eficaz e compromisso de todas as esferas de governo. Sem isso, corremos o risco de retroceder”, alerta.
Compromisso compartilhado
A caderneta de vacinação de uma criança representa um compromisso compartilhado entre profissionais de saúde, gestores e famílias. Cada dose aplicada fortalece a proteção coletiva e ajuda a prevenir doenças que podem ser evitadas.
Em Goiás, esse compromisso vem sendo renovado dia após dia, em centenas de unidades básicas de saúde espalhadas pela capital e pelo interior, onde pais e mães chegam dispostos a fazer sua parte na construção de uma infância mais segura.
Os dados da CNM mostram que a recuperação está em curso no país, mas precisa ser sustentada com atenção, recursos e diálogo constante com a sociedade. Para o estado, o desafio é manter a mobilização local e garantir que cada criança goiana tenha acesso às vacinas que salvam vidas. Proteger as crianças de hoje é investir no futuro de todos.