Ciência

Pensamos no sono como uma forma de restaurar o cérebro: um momento para processar memórias, limpar as células de toxinas e prepararmo-nos para um novo dia. Mas até os animais que não têm cérebro precisam de dormir, o que vem alterar a ideia da função do sono.

Não têm cérebro mas dormem como os humanos: alforrecas ajudam a explicar para que serve o sono

TatianaMironenko

As alforrecas e as anémonas-do-mar dormem cerca de um terço do dia, tal como os humanos, apesar de não terem cérebro. Um estudo publicado na Nature conclui que o sono surgiu muito antes dos cérebros complexos e que a sua função principal é proteger os neurónios dos danos no ADN causados pela vigília.

As alforrecas e as anémonas-do-mar não têm cérebro, mas têm neurónios. Mesmo assim, entram num estado de sono com características muito semelhantes às observadas nos humanos, incluindo períodos de inatividade e maior dificuldade em acordar quando são perturbadas.

Esta descoberta desafia a ideia de que o sono existe apenas para restaurar o cérebro. Pelo contrário, sugere que dormir é uma necessidade mais básica, comum até a animais com sistemas nervosos muito simples.

O sono surgiu muito cedo na evolução

Um estudo da Universidade Bar-Ilan, em Israel, publicado na revista Nature, indica que uma das funções essenciais do sono surgiu há centenas de milhões de anos, entre os primeiros animais com neurónios.

Ao estudar alforrecas e anémonas-do-mar, os investigadores concluíram que o sono está associado à proteção dos neurónios contra danos no ADN e contra o stress celular. Esta função terá surgido muito antes da evolução de cérebros complexos.

Quanto tempo dormem e em que altura do dia

A equipa analisou os padrões de sono das alforrecas Cassiopea andromeda, em laboratório e no seu ambiente natural, e das anémonas-do-mar Nematostella vectensis, em laboratório.

Ambos os organismos dormem cerca de um terço do dia, uma proporção semelhante à dos humanos. As alforrecas dormem sobretudo durante a noite, com pequenas pausas ao meio-dia. As anémonas-do-mar dormem principalmente durante o dia.

Nas alforrecas, o sono é regulado pelas alterações da luz e pelo impulso homeostático do sono, o mecanismo interno que aumenta a necessidade de dormir quanto mais tempo se está acordado.

Nas anémonas-do-mar, o sono é regulado tanto pelo relógio circadiano interno como pelo impulso homeostático, um sistema semelhante ao que existe em muitos animais com cérebros mais desenvolvidos.

Danos no ADN dos neurónios

Os investigadores observaram que, em ambas as espécies, a vigília prolongada e a privação de sono estão associadas a um aumento dos danos no ADN dos neurónios.

Quando os organismos foram expostos a fatores externos de stress que aumentam os danos no ADN, passaram a dormir mais, como forma de compensação.

Dormir permite limitar esses danos e proteger neurónios que não se regeneram facilmente.

O estudo propõe que o sono evoluiu como uma solução adaptativa para reduzir o custo celular da vigília. Estar acordado implica entrada sensorial constante, maior atividade neuronal, aumento do metabolismo celular e mais movimento, processos que geram stress e danos nas células nervosas.

Um modelo para estudar a origem do sono

Os neurónios terão surgido em animais muito antigos, semelhantes às atuais alforrecas e anémonas-do-mar, pertencentes ao filo dos cnidários.

Por isso, defendem os autores, estes organismos podem servir como modelos importantes para estudar a origem e a evolução do sono e para perceber porque é que dormir continua a ser uma necessidade fundamental em praticamente todos os animais.