Idosos gostaram da arte e resolveram pintar a parede em São Carlos. Crédito: Wilson Aiello/EPTV
João Cunha 09/01/2026 20:03 5 min
Dançar, tocar instrumentos, pintar, cantar ou até jogar videogame pode ser mais do que lazer. Um estudo internacional publicado na revista científica Nature Communications aponta que atividades criativas ajudam o cérebro a envelhecer de forma mais lenta e saudável.
A pesquisa analisou dados cerebrais de mais de 1.400 participantes, distribuídos em 13 países, e identificou diferenças significativas entre pessoas que mantêm práticas criativas regulares e aquelas que não cultivam esse tipo de hábito.
Os resultados mostram que indivíduos criativos apresentam cérebros biologicamente mais jovens do que sua idade cronológica. O trabalho contou com a participação do neurologista Renato Anghinah, professor da Universidade de São Paulo (USP).
Criatividade e envelhecimento cerebral
Segundo Anghinah, o estudo não indica um “rejuvenescimento” do cérebro, mas sim um processo de envelhecimento mais lento. “O cérebro dessas pessoas mantém a capacidade de resposta e de criação por mais tempo”, explica o pesquisador.
Leitura e jogos ajudam a estimular a memória dos idosos. Crédito: Robert Kneschke | ShutterStock / Portal EdiCase
Para chegar a essa conclusão, os cientistas utilizaram modelos computacionais chamados brain clocks (“relógios cerebrais”), capazes de estimar a idade biológica do cérebro a partir de imagens e padrões neurais.
A comparação envolveu dançarinos, músicos, artistas visuais, jogadores de videogame e um grupo de controle formado por pessoas que não praticavam atividades criativas. A diferença entre os grupos foi consistente em todos os países analisados.
O que os dados revelaram
Os participantes engajados regularmente em práticas criativas apresentaram conexões neurais mais eficientes e cérebros considerados mais jovens pelos modelos computacionais. Já o grupo de não praticantes mostrou o padrão esperado de envelhecimento cerebral.
Um terceiro grupo, formado por aprendizes que haviam iniciado recentemente alguma atividade criativa, apresentou resultados intermediários. Isso indica que os benefícios começam a surgir mesmo após poucas semanas de prática.
Entre todas as atividades avaliadas, a dança — especialmente o tango — apresentou os efeitos mais expressivos. Em alguns casos, o cérebro dos dançarinos parecia até sete anos mais jovem do que a idade real.
Por que a dança se destaca
De acordo com Anghinah, a dança ativa diversas áreas cerebrais simultaneamente. “Ela exige coordenação motora, planejamento, resposta rápida, música e improviso. Isso faz o cérebro criar mais conexões e manter essas redes ativas”, afirma.
Essa combinação de estímulos físicos, cognitivos e emocionais torna a dança uma das atividades mais completas para a saúde cerebral, segundo os autores do estudo.
Os pesquisadores ressaltam, porém, que não existe uma única prática ideal. O fator mais importante é o envolvimento constante em atividades que desafiem o cérebro de forma prazerosa.
Criatividade como política de saúde
O estudo também reforça a ideia de que a criatividade deve ser encarada como um fator de saúde pública. Para Anghinah, artes e atividades criativas precisam ter o mesmo peso que exercícios físicos e alimentação adequada.
Ele defende que escolas públicas e privadas mantenham disciplinas como música, teatro e artes visuais como componentes centrais do currículo, e não como atividades secundárias.
Mesmo quem começa tarde pode se beneficiar. O estudo mostra que iniciar uma atividade criativa após os 50 ou 60 anos ainda gera ganhos mensuráveis, graças à neuroplasticidade, que permanece ativa ao longo da vida.
Um novo olhar sobre o envelhecimento
Os autores acreditam que, no futuro, a criatividade poderá ser prescrita como ferramenta preventiva contra o declínio cognitivo. “O envelhecimento cerebral é resultado de vários fatores, e agora sabemos que a criatividade é um protetor importante”, resume Anghinah.
O próprio pesquisador conta que voltou a cantar e a retomar antigos hobbies após participar do estudo. “Até o pesquisador sai transformado”, brinca, reforçando que nunca é tarde para exercitar a mente de forma criativa.
Referências da notícia
G1. Atividades criativas ajudam o cérebro a envelhecer mais lentamente, mostra estudo internacional. 2025
