Rejeitado uma e outra vez na juventude, desistiu de jogar. Só quando desistiu é que conseguiu convencer o futebol de que tinha talento para qualquer coisa. E mesmo aí, com uma oportunidade nas mãos, teve de andar pela sexta divisão a provar que não pertencia ali. Deixaram-no jogar um pouco acima – o quarto escalão. Hoje, está na Premier League.
Esta é a história de Antoine Semenyo, jogador contratado pelo Manchester City há poucos dias. Neste sábado, na estreia, marcou e assistiu no 10-1 da equipa de Guardiola ao Exeter, da quarta divisão – a tal onde Semenyo também andou.
A história deste jogador mostra que Semenyo disse “sim” quando o futebol lhe disse “não. E foi obrigado a atravessar paredes, apesar de ter tido muitas portas à frente.
Pôde ir fazer testes ao Arsenal, ao Tottenham, ao Fulham e ao Millwall, mas falhou. E foi quando também recebeu o “não” do Crystal Palace que desistiu. Aos 15 anos, Semenyo decidiu aceitar que o futebol não era para ele.
Largou os bons sonos, os treinos nocturnos, a alimentação regrada e as alvoradas rigorosas, para ter um ano de real juventude, com idas à escola, passeios com os colegas e uma vida de adolescente normal. Até que o tio o convenceu a uma última tentativa numa escola de futebol em Swindon.
“Eu não jogava há um ano, por isso estava um pouco acima do peso, fora de forma e não sabia bem o que ia fazer, mas acabei por ir e foi assim que a minha história começou. O teste correu muito bem. Acho que marquei em todos os jogos que fizemos”, contou, citado pelo site da Premier League.
72 milhões de euros
Semenyo desistiu dos testes em clubes de primeira linha e encontrou ali um contexto onde foi desejado. No Verão, marcou golos em torneios contra clubes renomados e logo apareceram vários, entre eles… o Palace.
Semenyo não quis o clube que o tinha rejeitado e preferiu o Bristol – que o enviou, depois, para o Bath City, da sexta divisão. E foi um banho de realidade. Lá, diz que jogou “contra jogadores que têm muito mais experiência e só querem te dar uma porrada”.
Depois, o Newport County, do quarto escalão. Talvez seja altura de recordar que estamos a falar de um jogador que vale, hoje, 72 milhões de euros e está a poucos dias de se estrear na Liga dos Campeões. Mas atalhemos.
Com tantas portas grandes à frente, Semenyo teve sempre de atravessar paredes – e diz que foi isso que lhe incutiu a necessidade de dar sempre um extra de trabalho em relação aos demais.
O jogador conta que analisa todos os seus jogos de forma rigorosa. Recebe os vídeos e assiste sozinho, tirando notas. E diz que já mais do que uma vez fez, no jogo seguinte, coisas que tinha anotado no seu caderno – deu um exemplo de um golo ao segundo poste marcado ao Everton, depois de não ter aparecido nessa zona frente ao Newcastle, desperdiçando possíveis oportunidades. “Só conseguia pensar no que tinha escrito no caderno”, conta.
Um pouco de tudo
O City não está a contratar o jogador que andou pela sexta divisão, mas sim o que se destacou pelo Bristol e, depois, pelo Bournemouth. Semenyo confirma a tentativa mais recente de Guardiola de ter jogadores mais físicos no ataque. O extremo ganês é muito forte fisicamente, muito potente e oferece intensidade e capacidade física diferentes de outros colegas do sector – Bernardo é a comparação mais evidente.
Semenyo pode actuar em qualquer das alas – conta que o pai o obrigava a chutar com os dois pés – e tem, na última Liga inglesa, um valor distribuído quase a metade entre remates de pé direito e pé esquerdo.
E a versatilidade, aliada ao perfil ambidestro, é extensível também à posição 9. Esse é até o objectivo do jogador a longo prazo: “Sinto-me confortável a jogar na esquerda, na direita ou no meio. No entanto, na minha cabeça, o objectivo é ser um número 9. Talvez nos próximos anos, quando tiver acumulado mais experiência, acabe por fazer essa transição, mas não estou muito preocupado com isso. Se terminar a minha carreira a jogar em qualquer uma das alas não me vou queixar”.
Além da capacidade de desequilíbrio, Semenyo tem também bastante golo, virtude menos presente em jogadores como Bernardo, Savinho ou Doku. O valor de carreira de golos marcados supera o de golos esperados, dado que atesta a capacidade de finalização.
E tem sido também, até a nível dos cinco principais campeonatos, um dos jogadores com mais posses de bola ganhas no terço ofensivo do campo – algo que poderá também oferecer a Guardiola a nível de pressão alta.
Em suma, tem um pouco de tudo. Mas tem, sobretudo, coisas diferentes dos outros alas de Guardiola.