“A minha mãe tem um cancro generalizado na zona abdominal. Faz quimioterapia, vive com dores, tem bolsa de urina e saco para as fezes. Foi tratada como se fosse apenas mais um corpo à espera”, lamentou o filho.

Na quinta-feira, as dores alertaram o filho. “Liguei para o 112, disseram que iam enviar uma ambulância. Vinte minutos depois voltaram a ligar para dizer que não havia ambulâncias disponíveis e que teríamos de aguardar por tempo indeterminado”.

O passo seguinte foi doloroso. “Não tivemos alternativa. Colocamos a minha mãe no carro para a levar às urgências. Avisei que estava a chegar com uma doente grave, antecipando o problema que é chegar à entrada das urgências com um carro particular. Disseram-me apenas para falar com a polícia à entrada”.

Ultrapassado o obstáculo do transporte, mais um problema em Coimbra. “Chegámos com a minha mãe deitada no banco de trás do carro, porque não conseguia sentar-se. Não havia macas. Disseram-nos para usar uma cadeira de rodas. Ela não aguentava. Pedi uma maca. Disseram-me que teria de ser eu a ir buscar. Não havia”.

A decisão de a manter no chão foi inevitável. “Só quando perceberam que aquela imagem estava a ser registada é que alguém começou a agir”. Finalmente, foi socorrida. “Foi-lhe administrada morfina, duas vezes. Recebeu soro. Foram feitos exames. Os meios existiam. O que faltou foi humanidade.”, escreveu.

“Vivemos um momento em que a falta de organização empurra famílias para decisões impossíveis e transforma hospitais em locais de sobrevivência emocional. Esta carta não é contra profissionais de saúde. É contra um sistema que permite que uma doente oncológica terminal fique no chão. Ontem foi a minha mãe. Amanhã pode ser qualquer um de nós”, concluiu.

Já o Hospital de Coimbra negou que a doente oncológica tenha estado deitada no chão. Segundo a instituição, a doente foi inicialmente colocada numa cadeira de rodas após avaliação de um enfermeiro e entrou acompanhada por familiares, tendo um destes decidido posteriormente estender uma manta no chão e deitar a doente com intenção de registar imagens. A ULS sublinhou que interveio de imediato quando alertada e garantiu que não permite, nem permitiria, que utentes permaneçam no chão por inexistência de meios.