A resistência antimicrobiana (quando bactérias, vírus, fungos ou parasitas deixam de responder aos remédios feitos para combatê-los) é uma das principais ameaças globais à saúde pública e ao desenvolvimento, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). O fenômeno é caracterizado pelo desenvolvimento de superbactérias capazes de resistir aos efeitos dos tratamentos das doenças.
Estima-se que a resistência antimicrobiana bacteriana tenha sido diretamente responsável por 1,27 milhão de mortes em todo o mundo em 2019 e tenha contribuído para 4,95 milhões de mortes. Sem a tomada de ações, estima-se que até 2050 o problema causará, anualmente, a perda de 10 milhões de vidas em todo o mundo, além de um prejuízo econômico de 100 trilhões de dólares.
Devido à gravidade do tema, a resistência antimicrobiana ganhou bastante espaço no Infecto 2025 – XXIV Congresso Brasileiro de Infectologia, realizado em Florianópolis, no ano passado. Ao GLOBO, a médica Ana Cristina Gales, vice coordenadora do Instituto Paulista de Resistência aos Antimicrobianos (Aries) e coordenadora do Comitê de Resistência de Antimicrobianos da SBI e referência no tema, explica o panorama da resistência antimicrobiana no Brasil.
A resistência antimicrobiana é um problema no Brasil?
Sim, é um problema muito importante no ambiente hospitalar, mas também fora dele, na comunidade. Como no Brasil temos vários problemas de saúde pública de doença infecciosa, como surto de dengue, chikungunya, zika, etc, você tem inúmeros outros problemas, então existe a impressão que a resistência de microbianas não é um problema importante de saúde pública, mas ele é, sim.
A senhora poderia dar algum exemplo de bactéria resistente na comunidade?
No ambiente da comunidade, há 30 anos, quando eu era residente, tratávamos Escherichia coli (E. coli), que é a bactéria principal causadora de infecção urinária, com um antibiótico chamado sulfametoxazol-trimetoprima, e para quem tinha uma infecção que acendia para o rim, tratávamos com uma cefalosporina de primeira geração, e funcionava. No decorrer dos anos, perdemos essas duas opções terapêuticas. A taxa de resistência da Escherichia coli ao sulfametoxazol-trimetoprima é entre 40% e 50%, e a recomendação é que não utilizemos o antibiótico quando a taxa de resistência é acima de 20%. Então passamos a prescrever quinolona, que é um antibiótico de mais amplo espectro. Mas hoje em dia, a nossa taxa de resistência à quinolona também é alta. E isso é um problema. Por exemplo, a taxa de resistência de Pneumococo à penicilina, que era muito baixa anos atrás, hoje em dia é alta. Isso significa que não tratamos mais meningite pneumocócica, que é causada por pneumococo, com penicilina, como fazíamos antigamente. Tratamos com ceftriaxona, e mesmo a ceftriaxona, que alguns anos atrás era única, agora começamos a associar com vacomicina, porque já tem cepa resistente à ceftriaxona. Então mesmo na comunidade, temos esse problema.
Nos hospitais, tem muita infecção relacionada à assistência à saúde, que é causada por bactérias resistentes. Já temos infecções que não tem opção terapêutica disponível. Isso acontece nos países desenvolvidos infrequentemente e nos países em desenvolvimento muito frequentemente. Em parte, isso também acontece porque não temos alguns antimicrobianos disponíveis no Brasil.
E tem um motivo para não termos esses medicamentos no país?
Nem sempre as indústrias farmacêuticas têm interesse em trazer medicamento para o Brasil e, quando elas trazem, tem uma longa espera pela aprovação pela Anvisa.
E como tratar um paciente nesse caso?
Na prática, utilizamos uma combinação de antibióticos, que às vezes não temos certeza de que vai funcionar, mas é uma tentativa de tratamento de última escolha, que em inglês é chamado de “salvage therapy”. É complicado.
O que causa a resistência antimicrobiana?
A resistência é multifatorial. Então, sempre temos que visualizar a resistência aos antimicrobianos como um problema de saúde pública, no contexto de saúde única. O uso de antimicrobiano é um dos principais fatores para a pressão seletiva. Falamos muito do uso de antibiótico pelo humano, mas a sabemos que o maior uso de antibiótico é na criação de animais e na agricultura. Então, 70% do que é consumido de antimicrobiano não está no humano. O humano é responsável por 30%, em média. O restante é em animais de produção e agricultura. Mas também temos a questão da contaminação ambiental por metal pesado porque metal pesado seleciona bactéria resistente, então temos uma série de fatores que contribuem para isso. O humano está conectado ao animal e ao meio ambiente, não existe essa dissociação. Por exemplo, você tomou um antibiótico, ou um antidepressivo, que também seleciona bactéria resistente. O metabolismo desse medicamento vai ser excretado nas suas fezes e na sua urina, que vai contaminar o esgoto. Muitas vezes, parte do esgoto não é tratado e quando isso acontece, esses resíduos de antibióticos, antidepressivos e anticoncepcionais não são removidos da água. E isso vai contaminar nossos rios, nossos mares e, de alguma maneira, vai chegar em nós depois. E não é só nossa urina e fezes, mas dos animais de produção ou quando a fazemos spray de antibiótico em agricultura, isso acaba contaminando o solo, o lençol freático.
É possível acabar com a resistência ou ao menos diminuir o problema?
Sim. Não é porque ele é um problema que é grande, que não se pode enfrentar. Ele pode ser enfrentado em vários aspectos. Primeira coisa é a população se vacinar. Por exemplo, quando eu me vacino contra a gripe, eu tenho menos gripe, menos complicação bacteriana e menos uso de antibiótico. É importante entender que antibiótico não serve para tudo. Antibiótico serve para tratar a infecção bacteriana. Muitas vezes o paciente acha que o médico só é bom quando prescreve antibiótico. E se for tomar um antibiótico, que tome de maneira adequada. Os médicos também precisam se preocupar em se atualizar para saberem qual é o perfil de bactérias que tem na sua população, se elas são resistentes ou não, quais antibióticos devem ser prescritos e como devem ser prescritos porque, diferente dos quimioterápicos que o oncologista prescreve, o antibiótico, todo mundo prescreve. Pode ser pneumologista, infectologista, clínico geral, cirurgião, mas ele é um bem precioso, e se não utilizarmos de maneira adequada, vamos acabar deixando de tê-lo como um recurso para tratamento. Então essas são coisas que podemos fazer. Outra medida possível é fazer o saneamento básico para evitar a contaminação dos rios e mares por bactéria resistente. É importante buscar alternativas que consigam remover essas bactérias e os resíduos de antibiótico. Podemos vacinar mais os animais, criá-los de maneira mais extensiva e podemos também deixar de comer muita carne. Quer dizer, é uma medida multifatorial. Nos hospitais, podemos fazer medidas de prevenção e controle para ter menos infecção relacionada à assistência à saúde porque se eu tiver menos infecção relacionada à assistência à saúde, vou ter menos uso de antibiótico e uma pressão seletiva menor.
O que seria importante alertar a população a respeito do uso de antibióticos?
A população não tem ideia de que os antimicrobianos também podem ter reação adversa, ou seja, efeitos colaterais a esse medicamento. A pessoa acha que o antibiótico só faz bem. Mas pode ter alergia, diarreia, entre outros. Também facilitaria muito se os médicos tivessem acesso a métodos diagnósticos que ajudassem a separar se aquela infecção é causada por uma bactéria resistente ou não. Muitas vezes, esses testes diagnósticos estão disponíveis na rede privada, mas não no SUS. Precisamos da disponibilidade desses testes na rotina para que o médico também possa fazer diagnóstico. Existem muitos testes que mostram se é vírus e isso já ajuda porque se eu já fizer um teste que mostra que o sintoma do paciente é causado por influenza ou coronavírus, faz com que eu não prescreva o antibiótico.
A senhora organizou um guia sobre o uso de antibióticos no Brasil, poderia falar sobre isso?
Essas infecções por bactérias resistentes são de difícil tratamento porque restringem muito o número de opções terapêuticas disponíveis, ainda mais no Brasil que não temos disponível todos os antibióticos que já são aprovados na Europa e nos Estados Unidos. Esse guia serve para orientar os médicos sobre como podemos tratar melhor esses pacientes com infecção por causa da bactéria resistente. Muitas vezes, não temos evidência científica muito forte para apoiar uma decisão, precisamos tentar dar um direcionamento para aquelas pessoas que não têm tanta experiência no tratamento dessas doenças. Tínhamos guias internacionais, mas não um documento brasileiro. É importante ter um documento adaptado à nossa realidade porque os guias internacionais podem recomendar medicamentos que não estão disponíveis no Brasil e você tem que se apoiar naquilo que você tem. Ele também tem que estar adequado à epidemiologia, porque nem sempre as bactérias resistentes são as mesmas que estão em outros países. Você tem sempre que se basear no seu local.
*A repórter viajou a convite da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI)