Imaginemos um Deus nórdico, uma espécie de James Bond, ou simplesmente um homem. Thor Halvorssen Hellum. O nome, a fortuna do pai, a situação, não parecem enganar, e em parte não enganam. É um norueguês, sim, muito rico, que leva uma vida de playboy por uns anos, junta-se a amigos poderosos para juntar mais dinheiro ainda, tem discotecas, casas, passeia por Miami, tudo certo. Mas não é apenas isso. Thor Halvorssen nasce na Venezuela, principal sede da fortuna do pai, que é também cônsul do rei em Caracas, e, depois de estudar em Oslo e nos Estados Unidos, depois de se divertir e ganhar dinheiro, é nomeado presidente da companhia telefónica venezuelana pelo presidente Carlos Andrés Peréz. Estamos nos anos 70, Halvorssen tem trinta e poucos anos, e é difícil imaginar a importância que ganhará na formação da Venezuela contemporânea.
A Venezuela é um país que demora a ganhar a sua identidade. Teve a particularidade de ser um dos poucos territórios ultramarinos alemães (se assim o podemos dizer, visto que ainda não havia bem Alemanha) quando Carlos V cedeu o território aos Augsburg, passeou entre a jurisdição da Nova Espanha e do Vice-Reinado do Perú, independentizou-se, sozinha umas vezes, junto a Nova Granada (Colômbia) outras, e é talvez o símbolo mais acabado do mundo liberal-militar, confuso, hesitante, cheio de avanços e recuos, trazido pelas guerras de independência.
É na Venezuela que nasce Bolívar e é na Venezuela também que se dão algumas das suas mais memoráveis campanhas, como a “Campanha Admirável”, um raide imparável pelo território principal do país que permitiu a proclamação da Segunda República – a primeira surgira dois anos antes, aproveitando a fraqueza espanhola nos tempos do domínio napoleónico, mas não se aguentara.