Faz sentido que o Globo de Ouro seja mais internacional, inclusive promovendo eventos fora dos EUA — em março, haverá uma gala no Rio. A Critics Choice Association, formada em 2019, conta com mais de 500 jornalistas e críticos, majoritariamente dos EUA e Canadá. Os indicados do Actor Awards (antigo SAG, o Screen Actor Guild Awards) são escolhidos por comitês selecionados entre os mais de 100 mil membros do sindicato de artistas de TV e rádio dos EUA, que incluem atores, cantores, dançarinos, dublês, entre outros. Já o Globo de Ouro surgiu a partir de uma premiação criada em 1944 pela Associação de Correspondentes Estrangeiros em Hollywood, mais tarde chamada de Associação de Imprensa Estrangeira (ou Hollywood Foreign Press Association, HFPA). Ou seja, seus votantes sempre foram basicamente de fora dos EUA, embora originalmente baseados em Los Angeles.
Desde 2021, o Globo de Ouro vem expandindo sua lista de votantes. Na época, a HFPA foi alvo de críticas, que variavam de problemas éticos à falta de diversidade. Entre seus 87 membros, não havia nenhuma pessoa negra, por exemplo. Naquele mesmo ano, a associação admitiu 21 novos integrantes morando nos EUA, com 103 juntando-se em 2022, quando a cerimônia nem foi transmitida pela televisão. Eram aguardadas as mudanças prometidas. A organização implementou uma série de medidas para promover a lisura do processo. Em 2023, o corpo votante passou a 300 jornalistas e críticos, que não necessariamente estavam baseados nos EUA, sendo 47% mulheres e 60% identificando-se como racialmente e etnicamente diversos.
Repórter mostra os bastidores do local do Globo de Ouro
Nessa época, o Globo de Ouro, que se desvinculou da HFPA em 2023, buscava novos votantes ativamente, por meio de associações de críticos e indicações de membros. Foi dessa forma que aceitei me inscrever para passar por uma seleção para me tornar votante, depois de resistir a fazer parte da HFPA nos anos em que morei em Los Angeles. Hoje em dia, o Globo de Ouro não recruta ativamente, mas continua em contato com associações de críticos e grupos e veículos diversos em países que ainda não têm representantes para expandir sua presença. A maioria dos votantes, porém, precisa se inscrever pelo site para ter sua candidatura considerada. Os que já votam passam pelo processo todos os anos.
Na edição de 2026, são 399 votantes segundo o site, sendo 38 deles do Brasil. Essa diversidade tem se refletido nas indicações e nos prêmios. No ano passado, a surpreendente vitória de Fernanda Torres na categoria melhor atriz de drama, por “Ainda estou aqui”, pavimentou seu caminho para o Oscar, impulsionando também o filme, que acabou levando a estatueta de produção internacional. Este ano, com uma safra internacional forte, a presença estrangeira fez-se mais presente.
Curiosamente, como a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood também tem buscado a internacionalização, com cerca de 25% dos seus membros vivendo fora dos EUA, é possível que o Globo de Ouro passe a influenciar e se alinhar mais com o Oscar do que outras premiações.
Globo de Ouro: quais nomes devem levar a premiação?
Além de contar com votantes do mundo inteiro, o Globo de Ouro passou a promover eventos fora dos EUA, entregando prêmios de documentários durante os festivais de Cannes e Veneza e o Omar Sharif e Horizontes, para artistas do Oriente Médio, da Ásia e do Norte da África, no Red Sea International Film Festival, na Arábia Saudita. Agora é a vez do Brasil. Em 18 de março, acontece uma gala Globo de Ouro no Belmond Copacabana Palace, no Rio. No evento para 350 convidados brasileiros e internacionais, serão entregues prêmios de melhor ator, atriz, além de ator e atriz revelação e pelo conjunto da carreira. Os homenageados ainda vão ser anunciados.
— O Globo de Ouro tem uma longa história no reconhecimento de talentos internacionais, e o Brasil deu ao mundo algumas das vozes, histórias e visão artística mais extraordinárias — diz Hoehne. — Esse é um novo capítulo na missão de expandir sua pegada global hospedando eventos em grandes centros internacionais de desenvolvimento de entretenimento. Essas iniciativas celebram as histórias locais e constroem pontes dos talentos regionais com o palco global.
A ideia de levar o evento ao Rio surgiu a partir de uma conversa da presidente do Globo de Ouro com o produtor Uri Singer, que morou no Brasil e está baseado em Los Angeles. Segundo ele, há um componente de filantropia na gala, com organização a ser escolhida, e a ideia de, no futuro, criar um Globo de Ouro Latino.
— Vai ser muito importante para a indústria audiovisual brasileira, porque Hollywood vai olhar o Brasil de maneira diferente. O evento pode abrir muitas portas para interação entre as duas partes — diz Singer.