Grupos paramilitares armados estarão, uma semana depois do ataque a Caracas, que culminou com o rapto de Nicolás Maduro, a tentar localizar cidadãos norte-americanos no território. O aviso é feito pelo Departamento de Estado norte-americano, que insta os nacionais a deixarem o país.
No aviso, divulgado no sábado, o Departamento de Estado diz que existem informações sobre membros de milícias pró-regime, conhecidos como colectivos, que estão a montar bloqueios nas estradas e a controlar veículos à procura de indícios de que os ocupantes sejam cidadãos dos EUA ou apoiantes do país.
“A situação de segurança na Venezuela continua instável. Tendo em conta que os voos internacionais foram retomados, os cidadãos dos Estados Unidos na Venezuela devem abandonar o país de imediato. Antes de partirem, tomem precauções e estejam atentos ao que os rodeia”, lê-se num comunicado emitido pelo Departamento de Estado, citado pela Europa Press. “Os cidadãos dos Estados Unidos na Venezuela devem manter-se vigilantes e exercer cautela quando viajam por estrada”, acrescenta o alerta.
No mesmo sentido, as autoridades norte-americanas indicam que o grau de alerta se encontra no nível 4, o mais elevado, sob a recomendação de “não viajar” para o país latino-americano, devido ao risco de “detenção, terrorismo, rapto, aplicação arbitrária das leis locais, criminalidade, distúrbios civis e uma infra-estrutura de saúde deficiente”.
Em resposta ao alerta de segurança, o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Venezuela afirmou, em comunicado, que o aviso do Departamento de Estado estava “assente em relatos inventados, destinados a criar uma percepção de risco que não existe”.
“A Venezuela encontra-se em absoluta calma, paz e estabilidade”, garantiu o ministério. “Todos os centros populacionais, vias de comunicação, postos de controlo e dispositivos de segurança estão a funcionar normalmente, e todas as armas da República estão sob o controlo do Governo Bolivariano, o único garante do legítimo monopólio da força e da tranquilidade do povo venezuelano.”
Ainda assim, de acordo com a Bloomberg, a Administração Trump prepara-se para restabelecer uma presença diplomática na Venezuela, pedindo ao pessoal local que se prepare para a chegada de responsáveis norte‑americanos na sua embaixada em Caracas nas próximas semanas. Nos anos 2000, cerca de 500 funcionários norte-americanos trabalhavam na embaixada em Caracas.
Uma grande bandeira dos Estados Unidos costumava ser hasteada em frente ao complexo, até os EUA suspenderem as operações em 2019, durante o primeiro mandato de Donald Trump. O Presidente dos EUA declarou que a reeleição de Maduro no ano anterior era ilegítima e, em vez disso, reconheceu o deputado da oposição Juan Guaidó como chefe de Estado do país.
Braço armado do regime
Numa altura de instabilidade política, muitos locais nas ruas da Venezuela acabam por ser patrulhados por estes colectivos. Não são grupos novos e a sua criação remonta ao tempo de Hugo Chávez. Estão em grande medida sob o controlo do ministro do Interior, Diosdado Cabello, uma figura da ala mais dura do regime, que também supervisiona a polícia.
A sua acção foi já verificada em situações onde a polícia tinha dificuldades em intervir, nomeadamente durante protestos contra o Governo. Em Julho de 2024, durante as eleições contestadas tanto ao nível nacional como internacional, foram chamados a reagir para controlar as manifestações contra o Governo.
Um dos colectivos, identificado como Ricardo, disse ao Financial Times, durante a semana, que a extracção de Maduro terá sido resultado de uma traição no seio das suas fileiras, apesar do intenso tiroteio que antecedeu a sua captura, no qual morreram dezenas dos seus guarda-costas. “Continuamos activos, com as nossas espingardas, e responderemos se for necessário”, afirmou.
Numa reportagem do jornal Washington Post, três dias depois do ataque norte-americano, moradores de Caracas deram conta de que estavam a ser mandados parar, interrogados e obrigados a entregar os seus telemóveis. Alguns disseram que homens armados percorriam as suas mensagens e redes sociais, à procura de qualquer coisa que pudesse ser interpretada como apoio à operação norte-americana.
“Estamos a trocar mensagens uns com os outros com percursos para evitar”, contou um residente. “Ouvem-se avisos do género ‘não vás por ali — estão a mandar parar carros com metralhadoras’.”