Durante mais de seis décadas, uma das imagens mais emblemáticas do Holocausto foi usada como prova de crime, mas nunca se soube quem empunhava a arma. A fotografia, tirada em 1941, na Ucrânia, mostra um soldado nazi prestes a executar um judeu à beira de uma vala comum apinhada de cadáveres. O nome da vítima permanece, até agora, perdido. Contudo, o recurso à inteligência artificial permitiu, décadas depois, quebrar o anonimato do seu executor.

O historiador alemão Jürgen Matthäus conseguiu identificar o algoz como sendo Jakobus Onnen, um membro das forças de segurança nazis, com 34 anos à data dos factos. A descoberta, obtida com recurso a técnicas de reconhecimento facial apoiadas por inteligência artificial e à colaboração de familiares do soldado, foi divulgada pelo jornal El País e publicada por Matthäus na revista académica Zeitschrift für Geschichtswissenschaft.

A imagem é conhecida como O último judeu de Vinnytsia​ e tornou-se um símbolo do chamado “Holocausto das balas”: o assassínio de milhões de pessoas, maioritariamente judeus — mas também ciganos, prisioneiros de guerra e resistentes —, executados a tiro em valas comuns no Leste da Europa. Só na Ucrânia, estima-se que 1,5 milhões de judeus tenham sido mortos dessa forma até ao final de 1941, antes de os nazis implementarem os campos de extermínio com câmaras de gás, onde morreriam quase três milhões de pessoas.




A fotografia de 1961, conhecida como O último judeu de Vinnytsia, tornou-se um símbolo do chamado “Holocausto das balas”
Galerie Bilderwelt/Hulton Archive/Getty Images

A fotografia foi divulgada pela primeira vez em 1961 pela agência United Press (UPI), durante o julgamento de Adolf Eichmann, um dos principais organizadores do Holocausto (sobre o qual Hannah Arendt escreveu o célebre texto Eichmann em Jerusalém, publicado em 1963 na The New Yorker, e mais tarde em livro). A imagem tinha sido encontrada por Al Moss, um sobrevivente judeu, que a entregou à imprensa como prova dos crimes nazis. Durante décadas, acreditou-se que a foto tinha sido tirada em Vinnytsia e que mostrava membros dos Einsatzgruppen, os esquadrões da morte que acompanhavam o avanço da Wehrmacht (Exército da Alemanha Nazi) pela Polónia e pela então União Soviética.

O primeiro passo para esclarecer a história da imagem surgiu quando Matthäus, historiador especializado no Holocausto e recentemente reformado do Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos, teve acesso a uma doação inesperada: os diários de guerra de um capitão da Wehrmacht, Walter Materna. Um dos volumes, dedicado à invasão da URSS em Junho de 1941, incluía uma cópia da fotografia e uma anotação manuscrita no verso.

A inscrição indicava o local e a data exactos: “Final de Julho de 1941. Execução de judeus pelas SS na cidadela de Berdychiv. 28 de Julho de 1941”. No diário, Materna descrevia ainda um massacre de judeus naquela cidade ucraniana, demonstrando que o Exército alemão tinha conhecimento directo das execuções em massa realizadas pelas SS, mesmo quando não participava nelas. Matthäus publicou estas descobertas em 2023, na revista Holocaust and Genocide Studies.

A identificação do carrasco ocorreu numa fase posterior e resultou de um contacto inesperado. Após a publicação do artigo, um casal procurou o historiador, convencido de que um familiar — tio da mulher — poderia ser o homem retratado. Forneceram fotografias de Jakobus Onnen tiradas em datas próximas da guerra e com qualidade suficiente para comparação.

Foram então aplicados métodos tradicionais de reconhecimento facial e ferramentas de inteligência artificial, que revelaram índices de correspondência entre 98,5% e 99,9%, valores considerados excepcionalmente elevados para imagens históricas. A partir daí, Matthäus conseguiu reconstruir o percurso biográfico do homem da fotografia.

Onnen nasceu em 1906 numa família de classe média em Tichelwarf, perto da fronteira com os Países Baixos. Era professor, falava francês e inglês e aderiu cedo ao regime nazi: entrou para as SA em 1933, passou depois para as SS e integrou as forças de segurança ligadas ao SD, sob a direcção de Heinrich Himmler. Essas estruturas faziam parte dos Einsatzgruppen, responsáveis por centenas de milhares de execuções de civis no Leste europeu.

Após a guerra, estas unidades foram investigadas por procuradores aliados e alemães, e o nome de Onnen surge entre os membros identificados. No entanto, nunca chegou a ser interrogado: morreu em Agosto de 1943, na Ucrânia, durante um ataque de combatentes da resistência soviética.

Apesar da identificação do autor do disparo, a vítima continua desconhecida. Matthäus e outros investigadores tentaram encontrá-la em arquivos ucranianos, fotografias soviéticas anteriores à invasão alemã de 22 de Junho de 1941, documentos de guerra e relatos orais do pós-guerra, sem sucesso. A guerra em curso na Ucrânia dificulta ainda mais esse trabalho, embora as autoridades locais tenham colaborado.

Apesar de existirem milhares de imagens relacionadas com o Holocausto, são muito raras as fotografias que captam o momento exacto da execução. Os historiadores estimam que apenas cerca de uma dezena de imagens mostre assassinatos em curso — algumas foram tiradas pelos próprios nazis, por vezes como troféus, num contexto em que o extermínio não era encarado como crime, mas como símbolo de cumprimento de uma missão ideológica. Muitas dessas fotografias foram destruídas após a Segunda Guerra; outras sobreviveram e tornaram-se provas centrais dos massacres cometidos no Leste da Europa.

Em vários casos, como sucede com o judeu retratado nesta fotografia, foi possível identificar os autores das execuções, mas não as vítimas, cujo rasto documental se perdeu no caos da guerra e do genocídio. O memorial Yad Vashem, em Jerusalém, mantém uma base de dados com 4,7 milhões de nomes de vítimas do Holocausto, das quais cerca de 1,3 milhões continuam por identificar — entre eles, o último judeu de Berdychiv.