É possível ser-se heterossexual e ter interesse episódico por pessoas do mesmo sexo? A resposta é sim e tem uma designação: heteroflexibilidade. “Trata-se de uma orientação ou posicionamento sexual em que a pessoa se identifica maioritariamente como heterossexual, mas admite exceções ocasionais de atração emocional, romântica ou sexual por pessoas do mesmo sexo”, explica a psicóloga clínica Isa Silvestre, que sublinha que este comportamento “não implica necessariamente uma identidade fixa ou uma prática regular, mas antes uma flexibilidade na vivência da atração”.
O comportamento tem vindo a ganhar destaque e adeptos. Segundo resultados apresentados pela aplicação de encontros Feeld, no seu relatório anual em torno sobre comportamentos em contexto de intimidade, a heteroflexibilidade emergiu como a tipologia de sexualidade que mais cresceu em 2025 (193%). “Estas mudanças falam da crescente consciência de que a sexualidade é complexa. Seria surpreendente se as pessoas nunca tivessem curiosidade sexual sobre pessoas do seu próprio sexo ou género, ou se a atração funcionasse de maneira clara e previsível”, analisa, em comunicado (que pode ler no original aqui), o professor de ética aplicada e codiretor do Centro para Amor, Sexo e Relacionamentos (CLSR) da Universidade de Leeds, Luke Brunning.
Num mundo e numa sexualidade em mudança, importa explicar que heteroflexibilidade e bissexualidade são distintas. Uma pessoa heteroflexível demonstra “predominância da atração pelo sexo oposto, mantendo a autoidentificação como heterossexual, revela abertura a exceções, que podem ser emocionais, românticas ou sexuais, procura experiências pontuais, sem necessidade de continuidade ou de relações estáveis com pessoas do mesmo sexo, revela uma menor centralidade da orientação sexual na identidade pessoal e há uma ausência de desejo de rotulação rígida, valorizando antes a vivência individual”, enumera a psicóloga e fundadora e CEO da Clínica de Psicologia Isa Silvestre.

Isa Silvestre, Psicóloga Clínica, Autora, CEO & Founder da Clínica de Psicologia Isa Silvestre [@isasilvestre.psicologa]
Já a bissexualidade “envolve uma atração contínua por mais do que um género, ainda que essa atração não seja simétrica ou constante ao longo do tempo”, distingue a especialista, vincando que é a “autorreflexão, escuta interna” e experiências que criam esta linha separadora entre as duas orientações.
Por isso, Isa Silvestre, lembrando ser importante na prática clínica “respeitar o ritmo do paciente e validar a sua vivência, sem impor rótulos”, apresenta questões individuais cujas respostas podem ajudar a trazer clareza. Entre elas, enumera: “A atração pelo mesmo sexo é recorrente ou rara? Consigo imaginar-me numa relação afetiva duradoura com uma pessoa do mesmo sexo? A minha identidade sente-se mais alinhada com a heterossexualidade ou com a bissexualidade? Sinto necessidade de explorar ou de afirmar uma identidade específica?”