O inverno traz, muitas vezes, uma sucessão de gripes que parecem não ter fim, constipações umas atrás das outras e uma sensação persistente de cansaço. Para muitas pessoas, é como se o corpo demorasse mais tempo a recuperar, mesmo depois de os sintomas mais evidentes desaparecerem.

Não é por acaso que, nesta altura do ano, a expressão “baixas defesas” surge com frequência nas conversas. Mas o que significa, afinal, ter o sistema imunitário fragilizado? E até que ponto esta ideia corresponde a uma realidade médica ou a um conceito usado de forma imprecisa?

Para esclarecer estas dúvidas e perceber como funcionam, na prática, as defesas do organismo, falámos com Luís Rocha, pneumologista e dirigente da Sociedade Portuguesa de Pneumologia. O especialista ajuda a distinguir mitos de factos e a compreender o que realmente influencia a capacidade do corpo de se proteger.

Da alimentação ao sono, passando pelo impacto do stress e pelos hábitos do dia a dia, reunimos as explicações essenciais sobre o que fortalece (e o que pode comprometer) o sistema imunitário. Eis o que importa reter para atravessar os meses frios com mais saúde.

Mas o que são, afinal, as defesas?

Quando nos referimos a defesas imunitárias do nosso organismo, falamos de “um conjunto de mecanismos que servem para nos proteger de infeções, vírus, bactérias e outras agressões externas”, diz o especialista à MAGG. “Essas defesas começam a desenvolver-se desde muito cedo no nosso organismo, ainda no útero materno, e vão-se fortalecendo ao longo da vida”, acrescenta.

No entanto, cada um tem defesas diferentes e o sistema imunitário não funciona da mesma forma em todas as faixas etárias. Nas crianças, por exemplo, este sistema ainda não está totalmente desenvolvido até cerca dos 5 anos, o que explica a maior frequência de infeções respiratórias nos primeiros anos de vida. Já nos adultos, a resposta imunitária depende de fatores individuais como estilo de vida, alimentação, qualidade do sono e existência de doenças crónicas.

“A partir dos 50 anos, começa a haver uma quebra do sistema imunitário – um fenómeno chamado imunossenescência – que torna o organismo mais vulnerável”, continua Luís Rocha, dizendo que isso faz com que precisemos de ter “cuidados adicionais para manter a imunidade”. É também por esta razão que idosos, grávidas, pessoas com doenças crónicas e profissionais de saúde são considerados grupos de risco e devem ter uma atenção redobrada nas épocas mais críticas.

Luís Rocha, pneumologista e dirigente da Sociedade Portuguesa de Pneumologia

Luís Rocha, pneumologista e dirigente da Sociedade Portuguesa de Pneumologia

créditos: Fernando Veludo

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Por que razão ficamos mais doentes no inverno?

Há vários fatores que explicam a razão pela qual o inverno se assume como uma era em que gripes e constipações são bastante frequentes. O frio, por si só, não enfraquece as defesas, mas cria condições que facilitam a propagação e a circulação dos vírus respiratórios. Ambientes fechados e mal ventilados, comuns nesta altura do ano, facilitam a transmissão.

A isto, junta-se a falta de higienização das mãos e o contacto próximo com pessoas doentes, a par de hábitos de vida inadequados, como fumar, consumir álcool em excesso, dormir pouco, não praticar exercício físico e viver sob níveis elevados de stress. Quem mantém hábitos saudáveis e se protege de ambientes de risco, por outro lado, enfrenta a temporada de gripes com mais resistência.

Como manter as defesas em alta neste inverno?

O conjunto de hábitos de vida saudáveis faz toda a diferença na resistência do organismo. Uma alimentação equilibrada é fundamental para manter o sistema imunitário forte. “Frutas, legumes, cereais integrais, proteínas magras” fornecem vitaminas, minerais e antioxidantes essenciais para o organismo, refere o pneumologista.

Manter uma hidratação adequada é igualmente importante, uma vez que a desidratação pode comprometer as defesas naturais. Evitar o consumo excessivo de álcool e não fumar são medidas essenciais que ajudam a preservar o sistema imunitário e reduzem a probabilidade de complicações, sobretudo em pessoas mais vulneráveis.

O sono de qualidade é outro pilar essencial para a imunidade. Dormir entre sete e oito horas por noite permite que o corpo produza células de defesa e recupere energia para enfrentar infeções. Por sua vez, o stress elevado aumenta a vulnerabilidade a vírus e bactérias, tornando o organismo mais suscetível a gripes e constipações.

É aqui que entra, por contraponto, o exercício físico, de acordo com o dirigente da Sociedade Portuguesa de Pneumologia. Isto é, se se mantiver fisicamente ativo vai melhorar a circulação, aumentar a eficácia das células de defesa e contribuir para um estilo de vida mais saudável na generalidade.

Vacinação é uma camada extra de proteção

Mesmo quem raramente fica doente, deve considerar a vacinação contra a gripe como uma proteção essencial. “A vacina da gripe protege contra várias estirpes e reduz o risco de complicações. Também as vacinas contra a COVID-19 e a pneumonia ajudam a reforçar a imunidade, sobretudo nos grupos de risco”, sublinha Luís Rocha.

O especialista explica ainda que ficar doente oferece imunidade apenas à estirpe específica do vírus contraído, enquanto a vacinação aumenta a cobertura e fortalece o sistema imunitário num todo. Por isso, recomenda a toma da vacinação anual especialmente aos idosos, grávidas, doentes crónicos e profissionais de saúde.

Mas, atenção, porque há mitos no combate à gripe

Todos os anos, com a chegada do inverno, surgem conselhos e “segredos” de como evitar a gripe. Muitos deles baseiam-se em crenças que o eco popular teimou em disseminar e não têm qualquer base científica que os alicerce.

Entre os mitos mais comuns estão os suplementos milagrosos. “Não existem suplementos milagrosos. Só compensa tomar vitamina D ou zinco se forem usados para corrigir uma deficiência”, esclarece o pneumologista. “O verdadeiro reforço do sistema imunitário vem de hábitos de vida saudáveis, alimentação equilibrada, sono adequado, exercício físico regular e vacinação em dia”, reitera.