Como aceitar as graves imperfeições do marido que trai a esposa compulsivamente, embora seja um gentleman dentro de casa? No caso da francesa Simone Signoret, primeira atriz do país a ganhar o Oscar da categoria, a resposta está no fato de vê-lo como uma construção artística concebida por ela.

É por esse caminho que a narrativa de “Eu, que Te Amei”, em cartaz nos cinemas, se desenvolve, acompanhando a história real da relação da atriz — uma das mais renomadas do teatro e do cinema francês — com o ator e cantor Yves Montand (de “O Salário do Medo”, “Adorável Pecadora” e “Z”), entre as décadas de 1950 e 1980.

Essa visão fica patente quando Simone (Marina Foïs) ouve a apresentação musical de Yves, atenta e emocionada à performance do marido. Há um regozijo que ultrapassa a relação amorosa, como se ele também fizesse parte do portfólio dela. É o que explica o fato de, após inúmeras brigas, Simone nunca permitir que Yves fosse embora de casa.

A diretora Diane Kurys consegue traduzir sentimentos tão complexos acompanhando a anulação da atriz que, incapaz de destruir a sua criação, vai lentamente se aniquilando internamente, entregue à bebida. Durante anos, ela escreveu sua autobiografia e, na “hora H”, arrancou as páginas que falavam das “puladas de cerca” do marido.

“Eu, que Te Amei” já começa com o tensionamento dessa situação, quando um programa de TV pergunta sobre o trabalho dele ao lado de Marilyn Monroe (em “Adorável Pecadora”), que foram notoriamente amantes durante as filmagens. Enquanto ele ganha papéis de destaque e ganha popularidade, ela se refugia em casa, atuando cada vez menos.

O roteiro também mostra um sentimento de inferioridade de Yves em relação ao prestígio angariado por Simone, perceptível quando ela ganha o César por “Madame Rosa” (1977). Ele apenas acompanha pela TV e não demonstra nenhuma emoção quando o nome dela é anunciado como vencedor, para espanto da enteada.

O filme poderia se concentrar em Simone e seu sofrimento provocado por um amor sem medidas, mas Diane abre um espaço desnecessário para Yves Montand, mostrando-o em suas investidas amorosas, num processo de acentuação do caráter vilanesco do ator que, na pele de Roschdy Zem (de “Dias de Glória”), encarna o autêntico “macho alfa”.

A posição fortemente esquerdista de Yves e Simone também poderia ser um aspecto trabalhado de maneira mais assertiva, como uma forma de mostrar que eles não sucumbiram ao vaivém da política francesa, evidenciando — pelo menos para quem via de fora — a firmeza de suas convicções a partir da consolidação do próprio casal.

Quando vemos Marina e Roschdy se preparando, logo no início do filme, para encarnarem seus papéis, é possível imaginar que os atores comentarão as ações que filmarão, intensificando um diálogo temporal. Mas “Eu, que Te Amei” desperdiça esse momento para apostar em uma narrativa comum, que se sobressai apenas quando a criadora tenta aceitar as imperfeições de sua criatura.