O país considera que o molho, produzido na Bélgica e vendido no Parlamento Europeu, não segue a receita original
Os italianos têm regras muito rigorosas quando se trata de fazer carbonara. A combinação clássica de massa italiana, carne de porco e queijo é misturada com gemas de ovo e pimenta, de preferência apenas momentos antes de servir, para criar o prato perfeito.
Por isso, quando frascos de um molho cremoso de cor pálida, rotulado como “carbonara”, mas feito na Bélgica com ingredientes não típicos, surgiram numa loja do Parlamento Europeu – uma instituição à qual Itália recorre frequentemente para proteger os seus alimentos tradicionais de imitações – houve indignação.
Agora, o ministro da Agricultura de Itália, Francesco Lollobrigida, pediu uma investigação imediata a um alegado crime culinário nas prateleiras do mercado dentro da instituição de Bruxelas.
O produto, feito pelo produtor alimentar belga Delhaize, não afirma que o molho tenha sido feito em Itália, mas comete o pecado capital de usar pancetta fumada em vez de guanciale – bochecha de porco – na sua receita, acusam os críticos.
As receitas autênticas de carbonara incluem tradicionalmente guanciale, queijo pecorino e queijo grana. Não é aceitável substituir por pancetta, de acordo com a revista La Cucina Italiana, uma espécie de bíblia da gastronomia italiana.
Lollobrigida manifestou a sua indignação com o incidente numa publicação no Facebook.
“Deixando de lado a pancetta na carbonara… todos estes produtos representam o pior dos produtos com nomes que soam a italiano”, escreveu. “É inaceitável vê-los nas prateleiras do supermercado do Parlamento Europeu. Pedi uma investigação imediata”.
O frasco do molho feito pela empresa belga Delhaize. (Delhaize)
Para Lollobrigida, membro do partido Irmãos de Itália da primeira-ministra Giorgia Meloni, a questão não é apenas de mau gosto, é também uma questão de orgulho nacional.
A Itália está atualmente a tentar que a sua gastronomia seja reconhecida pela UNESCO como Património Cultural Imaterial da Humanidade. E os produtos “italian sounding”, comuns em todo o mundo, diluem a autenticidade de um dos aspetos mais importantes da cultura italiana, segundo Lollobrigida.
“A nossa cozinha é simples, mas não é fácil”, afirmou o ministro no Summer Fancy Food Festival, em Nova Iorque, em julho. “O mar e a terra dão-nos o que precisamos e, graças aos nossos produtores, podemos contar com uma qualidade de produto excecional”.
A Coldiretti, a maior organização de agricultores e lobby agrícola de Itália, afirma que a produção de alimentos com aparência italiana tem custos elevados.
O ministro da Agricultura de Itália, Francesco Lollobrigida, fotografado em Roma a 20 de novembro. (Mauro Scrobogna/LaPresse/Shutterstock)
“O escândalo dos produtos italianos falsos custa ao nosso país 120 mil milhões de euros por ano, resultando paradoxalmente no facto de os maiores falsificadores da excelência italiana serem países industrializados”, afirmou o grupo num comunicado divulgado na terça-feira, depois de Lollobrigida ter pedido uma investigação ao molho belga.
A empresa belga que produziu o molho não respondeu ao pedido de comentário da CNN, mas o Parlamento Europeu afirmou que o produto já foi retirado das prateleiras do mercado.
A Coldiretti enumera vários alimentos italianos, incluindo mozzarella, salame, mortadela e pesto, que são regularmente falsificados.
A organização acrescenta que o uso das cores da bandeira italiana, de nomes inventados que soam a italiano e até de fotografias de monumentos italianos constitui problemas regulamentares e representações enganosas ao abrigo das regras da União Europeia.
Não é a primeira vez que o prato gera controvérsia.
No ano passado, a Heinz lançou uma versão enlatada de “esparguete à carbonara”, novamente com pancetta em vez de guanciale, o que levou a comparações com comida para gatos e provocou uma avalanche de comentários.
A autenticidade da gastronomia italiana tem sido, há muito, considerada parte integrante do seu património cultural, mas alguns italianos acreditam que está na altura de evoluir.
Em 2023, o historiador Alberto Grandi causou indignação ao sugerir que a carbonara e a pizza eram invenções americanas, e não produtos italianos, ao escrever um livro intitulado La Cucina Italiana Non Esiste (“A Cozinha Italiana Não Existe”).
Grandi defende que os italianos que emigraram para os Estados Unidos levaram consigo muitas das tradições, aperfeiçoaram-nas lá e depois regressaram a Itália, chamando às melhorias “autênticas”.
Ainda assim, não se opõe a que a cozinha italiana receba a cobiçada distinção da UNESCO.
“A UNESCO não está a atribuir a designação às receitas”, afirmou em 2023, sugerindo que o que está a ser reconhecido é a importância da gastronomia e da tradição na cultura italiana. “A questão é filosófica, não gastronómica”.