A 83.ª edição dos Globos de Ouro, que aconteceu no hotel Beverly Hilton, em Los Angeles, na madrugada desta segunda-feira, 12 de janeiro, teve uma ou outra surpresa, uma grande derrotada, uma versão de Leonardo DiCaprio (que não venceu) tão inesperadamente divertida que rapidamente se propagou pelas redes sociais e alguma política pelo meio.
Começando pela matemática, no cinema (mais precisamente na categoria Comédia ou Musical), Batalha Atrás de Batalha transformou em prémios quatro das nove nomeações que tinha. Uma das reações mais emotivas pertenceu a Teyana Taylor, considerada Melhor Atriz Secundária. “Para as minhas irmãs negras e meninas negras que estão a ver esta noite, a nossa suavidade não é uma desvantagem, a nossa profundidade não é excessiva, a nossa luz não precisa de permissão para brilhar. Pertencemos a todos os lugares nos quais entramos, as nossas vozes são importantes e os nossos sonhos merecem espaço.”
[Teyana Taylor, a mais emotiva da noite:]
Há 35 anos que Macaulay Culkin não ia aos Globos de Ouro e surgiu para entregar a estatueta de Melhor Argumento a Paul Thomas Anderson por Batalha Atrás de Batalha. Apesar dos muitos elogios ao desempenho no filme, Leonardo DiCaprio não venceu na categoria de Melhor Ator, que ficou entregue a outro favorito: Timothée Chalamet, em Marty Supreme (que se estreia por cá no dia 22 de janeiro). Aos 30 anos, é o ator mais novo a vencer este galardão.
Pecadores era o grande favorito nas categorias dramáticas, mas embora tenha conquistado duas distinções, deixou-se ultrapassar por Hamnet, considerado o Melhor Drama do ano (estreia-se em Portugal a 5 de fevereiro). O primeiro é uma história de recomeços, lutas inglórias e vampiros e o segundo regressa à Inglaterra do século XVI, onde William Shakespeare tenta lidar com a dor de perder um filho. O segundo é a adaptação do aclamado romance de Maggie O’Farrell.
O Melhor Ator na categoria dramática fala português e chama-se Wagner Moura. O brasileiro é o protagonista de O Agente Secreto, que acompanha um especialista em tecnologia durante o período de ditadura no Brasil. “É um filme sobre memória, ou falta de memória, e trauma geracional”, disse no palco. “Se o trauma pode passar entre gerações, os valores também podem. Por isso, isto [o prémio] é para aqueles que mantêm os valores em momentos difíceis.”
O filme foi também considerado Melhor Filme de Língua Estrangeira e está, assim, bem lançado para os Óscares (cujos nomeados são anunciados a 22 de janeiro).
[o discurso de Wagner Moura:]
Mais surpreendido ainda ficou Stellan Skarsgård, que garantiu que não estava preparado para subir ao palco por achar que estava “demasiado velho”. No entanto, ultrapassou Sean Penn e Benicio del Toro como Melhor Ator Secundário de Drama no filme Valor Sentimental.
Não é que a cerimónia seja destinada a crianças, mas a noite deu ainda mais força ao fenómeno da Netflix Guerreiras do K-Pop, que venceu duas estatuetas: Melhor Canção e Melhor Filme de Animação. Respirem fundo, pais, Golden vai continuar nos primeiros lugares dos tops e a aparecer em todos os algoritmos.
The White Lotus foi a grande derrotada da televisão. Começou a noite com seis nomeações, mas saiu do hotel Beverly Hilton de mãos vazias.
The Pitt foi considerada a Melhor Série Dramática e o médico favorito da televisão, Noah Wyle, venceu o prémio de Melhor Ator. Do lado da comédia não houve grandes surpresas. “O que é que posso dizer, sou uma cabra gananciosa”, disse Jean Smart ao aceitar o galardão para Melhor Atriz graças à interpretação em Hacks. Na roupa tinha um pin com a frase “be good (sejam bons)”, um tributo a Renée Nicole Good, cuja morte desencadeou muitos protestos anti-ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA) um pouco por todos os EUA.
Na mesma categoria, mas do lado masculino, Seth Rogen foi considerado Melhor Ator graças a The Studio — que também escolhida como Melhor Série de Comédia. No discurso mencionou a coincidência de terem filmado recentemente um episódio sobre os prémios. “É tão estranho, acabámos de fingir isto [os Globos de Ouro] e agora está a acontecer.”
Sem surpresas, Adolescência ganhou tudo o que havia para ganhar no lote de Minisséries e Telefilmes. Owen Cooper foi considerado Melhor Ator Secundário com um papel que marcou a estreia na representação. “Tive aulas de representação, era o único rapaz lá, foi embaraçoso”, confessa agora aos 16 anos. Stephen Graham, que escreveu, realizou e protagonizou o projeto, foi considerado Melhor Ator e Erin Doherty, que interpreta uma terapeuta, Melhor Atriz Secundária.
[o discurso de Seth Rogen, que criou “The Studio”:]
Vince Gilligan sempre achou injusto que Rhea Seehorn não tenha sido distinguida em Better Call Saul e, por isso, criou uma série só para ela. Pluribus estreou-se já no fim de 2025 e, mal saiu do forno, deu à atriz o prémio de Melhor Atriz numa série dramática.
Numa tentativa de acompanhar as tendências atuais, os Globos de Ouro criaram uma nova categoria, a de Melhor Podcast. Completamente deslocada e perdida num pingue pongue entre cinema e televisão, teve como primeiro vencedor Good Hang with Amy Poehler, onde a atriz entrevista muitos colegas.
Este ano, ninguém se alongou muito nas referências à atualidade política dos EUA ou do mundo, apesar de Nikki Glaser ter mencionado que o Departamento de Justiça merecia o prémio de Melhor Edição.
A conduzir os prémios pelo segundo ano, a humorista surgiu ao som de Style, de Taylor Swift, e deu início à noite com um monólogo de dez minutos. Houve tempo para lançar farpas à CBS, canal que transmite a cerimónia; mencionar os ficheiros Epstein, com a piada do Departamento de Justiça; e para pedir conselhos a George Clooney sobre o funcionamento da máquina de café Nespresso. Além disso, Glaser enumerou os mais recentes feitos de Leonardo DiCaprio. “Conseguiste conquistar tudo antes de a tua namorada chegar aos 30 anos”, atirou, perante uma plateia às gargalhadas. Desculpou-se logo a seguir pela piada “barata”, mas justificou: “Não sabemos mais nada sobre ti. […] Eu procurei e a entrevista mais profunda que já deste foi na revista Teen Beat de 1991. A tua comida favorita continua a ser ‘pasta, pasta e mais pasta’?”
[o monólogo de abertura de Nikki Glaser:]
O roast — um estilo que Nikki Glaser domina na perfeição e que a tornou conhecida — virou-se depois para outro ator de Batalha Atrás de Batalha, Sean Penn. “Sinto que muitos atores falam por falar, mas o Sean Penn vai realmente aos sítios que precisam de ajuda no mundo e usa cocaína lá.” Para fazer a piada, Glaser garantiu ter tido a autorização dos “melhores amigos” de Penn, Charlie Sheen e El Chapo.
Durante a cerimónia, Nikki Glaser foi aparecendo por breves momentos, deixando para o fim uma homenagem ao realizador Rob Reiner — assassinado, juntamente com a mulher, no mês passado pelo filho — ao aparecer para se despedir com um boné de This is Spinal Tap, filme de 1984.
Quem não percebe bem de onde apareceu Nikki Glaser e qual o motivo para estar à frente de uma cerimónia tão importante, pode ficar a perceber o porquê do sucesso dela na HBO Max, onde está disponível Nikki Glaser: Someday You’ll Die, o terceiro especial de stand-up da humorista.
Talvez tenha levado a sério a piada de Nikki Glaser do início — que ninguém sabia nada da vida dele, a não ser que tinha sempre namoradas jovens — e decidido soltar-se. O certo é que Leonardo DiCaprio mostrou-se descontraído e a fazer piadas durante os intervalos, uma faceta que não costuma mostrar ou que, pelo menos, nunca é captada pelas câmaras.
Desta vez, um vídeo do ator espalhou-se rapidamente nas redes sociais e mostra-o a falar com alguém que está numa mesa próxima. “Eu vi-te durante a cena do K-Pop”, diz, enquanto reproduz gestos e ri.
Timothée Chalamet tem sido um dos meninos queridos de Hollywood nos últimos anos. A sua campanha para promover Marty Supreme tem sido atarefada (com participações em tudo o que é plataforma e projeto), colorida (ele usa casacos laranja e com orgulho) e emotiva — pelo menos, a julgar pelo discurso nos Critics Choice Awards, parecia. No entanto, o ator recebeu finalmente um dos prémios mais cobiçados da indústria e limitou-se a desenrolar uma lista de nomes e a repetir muitos “obrigado”.
Por seu lado, Rose Byrne era a favorita para vencer a estatueta de Melhor Atriz numa comédia ou musical. Tendo isso em conta, seria de prever que o marido, o também ator Bobby Cannavale estivesse presente. Em vez disso, “foi a uma exposição de répteis em Nova Jérsia”, palavras de Byrne. E, sim, o evento Repticon estava mesmo a acontecer este fim de semana.
Ricky Gervais já apresentou a cerimónia dos Globos de Ouro mais do que uma vez e foi sempre implacável nas piadas que escolheu usar. Desta vez, nomeado com o especial de stand-up Mortality, não fez a viagem até aos EUA. Wanda Sykes, que subiu ao palco para anunciar o vencedor dessa categoria, continuou sozinha mesmo depois de abrir o envelope com o nome do humorista britânico. Com autorização ou não, fez um breve discurso por ele. “Ricky Gervais, adoro-te… por não estares aqui.” E continuou: “Não, eu adoro-te Ricky, mas se ganhas, eu vou receber o prémio em teu nome e tu vais agradecer a Deus e à comunidade trans”.
[Timothée Chalamet venceu Melhor Ator de cinema num Musical ou Comédia:]
Este ano, os Globos de Ouro decidiram reformar os tradicionais trechos instrumentais que serviam para acompanhar os vencedores na caminhada até ao palco após o anúncio do respetivo nome. Substituíram-nos por temas conhecidos, mas o emparelhamento musical não resultou em muitas ocasiões. Querem exemplos? Stellan Skarsgård, de 74 anos, teve direito a Yeah!, de Usher. Por mais descontraído que o ator seja, a canção soou só descabida, já que o filme Valor Sentimental nem sequer é propriamente uma comédia. A Paul Thomas Anderson calhou Party Rock Anthem, de LMFAO, uma escolha igualmente estranha, e The Studio ouviu Kylie Minogue e Can’t Get You Out Of My Head. Se havia aqui um propósito, não ficou claro.
A 83.ª edição dos Globos de Ouro deixou o maior número de prémios nas mãos de Batalha Atrás de Batalha (quatro), nas categorias de cinema, e de Adolescência (quatro), em televisão. Conheça aqui a lista completa dos vencedores:
Melhor Filme — Drama
Hamnet
Melhor Ator — Drama
Wagner Moura, O Agente Secreto
Melhor Atriz — Drama
Jessie Buckley, Hamnet
Melhor Filme — Musical ou Comédia
Batalha Atrás de Batalha
Melhor Ator — Musical ou Comédia
Timothée Chalamet, Marty Supreme
Melhor Atriz — Musical ou Comédia
Rose Byrne, Se Eu Tivesse Pernas Dava-te um Pontapé
Melhor Ator Secundário
Stellan Skarsgård, Valor Sentimental
Melhor Atriz Secundária
Teyana Taylor, Batalha Atrás de Batalha
Melhor Realização
Paul Thomas Anderson, Batalha Atrás de Batalha
Melhor Argumento
Batalha Atrás de Batalha, Paul Thomas Anderson
Melhor Filme em Língua Estrangeira
O Agente Secreto
Melhor Filme de Animação
Guerreiras do K-Pop
Melhor Banda Sonora
Ludwig Göransson, Pecadores
Melhor Canção
Golden, Guerreiras do K-Pop, de Joong Gyu Kwak, Yu Han Lee, Hee Dong Nam, Jeong Hoon Seo, Park Hong Jun, Kim Eun-jae (EJAE), Mark Sonnenblick
Bilheteira ou Feito Cinematográfico
Pecadores
Melhor Série — Drama
The Pitt
Melhor Ator — Drama
Noah Wyle, The Pitt
Melhor Atriz — Drama
Rhea Seehorn, Pluribus
Melhor Série — Musical ou Comédia
The Studio
Melhor Ator — Musical ou Comédia
Seth Rogen, The Studio
Melhor Atriz — Musical ou Comédia
Jean Smart, Hacks
Melhor Minissérie ou Telefilme
Adolescência
Melhor Ator — Minissérie ou Telefilme
Stephen Graham, Adolescência
Melhor Atriz — Minissérie ou Telefilme
Michelle Williams, Dying for Sex
Melhor Ator Secundário
Owen Cooper, Adolescência
Melhor Atriz Secundária
Erin Doherty, Adolescência
Melhor Comédia de Stand-up
Ricky Gervais: Mortality
Melhor Podcast
Good Hang with Amy Poehler