Os líderes iranianos estarão a manter “as linhas de comunicação abertas” com Donald Trump para negociar. A confirmação surge depois de o Presidente dos EUA ter ameaçado com uma possível acção militar, numa altura em que os protestos em massa contra o Governo iraniano entram na sua terceira semana.
A informação foi primeiro avançada pelo próprio Presidente norte-americano, a bordo do seu Air Force One, no domingo: “Os líderes iranianos ligaram” no sábado, avançou, acrescentando que está a “ser planeada uma reunião” e que “eles querem negociar” o seu programa nuclear, que motivou bombardeamentos norte-americanos e israelitas durante a chamada “Guerra dos 12 dias”, em Junho.
Mais tarde, já nesta segunda-feira, a Reuters escrevia que um porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano, Esmaeil Baghaei, afirmou que os dois países mantêm as linhas de comunicação “abertas”, e que podem falar através de enviados especiais norte-americanos ou intermediários como a Suíça. A mesma fonte, em resposta a uma pergunta dos jornalistas sobre o contacto com os EUA, disse que tem havido “mensagens contraditórias” que causaram ambiguidade e que o Irão continuava comprometido com a diplomacia.
Depois de, no sábado, Trump ter escrito nas redes sociais que o Irão “procura liberdade, talvez como nunca antes” e que os EUA estavam dispostos a ajudar, o Presidente norte-americano afirmou, no domingo, que estava a receber actualizações de hora a hora sobre os protestos, que as “Forças Armadas estão a olhar para isso” e que irá “tomar uma decisão”.
Apesar de haver uma reunião com vários membros do seu Governo marcada para o início desta semana, Trump alertou para a possibilidade de ter “de agir antes ”. “Morreram muitas pessoas que não era suposto terem morrido”, disse Trump. “Alguns manifestantes morreram espezinhados; eram muitos. E alguns foram baleados.”
“São violentos, se lhes chamares lideres. Não sei se os seus líderes querem governar apesar da violência, mas estamos a olhar para isso de forma séria”, afirmou.
De acordo com o Wall Street Journal, entre as opções a serem estudadas estão opções militares — incluindo ciberataques —, o aumento das sanções ou intervenção online para ajudar fontes da oposição. O Washington Post, que também cita fontes próximas, diz que o Presidente ainda não escolheu uma opção.
Trump parece convencido de que o Irão leva as suas ameaças a sério depois de “anos” a lidar com o país, citando algumas das suas vitórias bélicas, como as mortes do general da Guarda Revolucionária Qasem Soleimani, do líder do Estado Islâmico Abu Bakr al-Baghdadi e “a diminuição da ameaça nuclear iraniana”, depois da guerra dos 12 dias.
“Uma desculpa”
O responsável pela diplomacia iraniana, Abbas Araghchi, acredita, por seu turno, que os protestos – que começaram como uma crítica ao aumento do custo de vida no país, mas agora são um protesto em larga escala contra o Governo – se tornaram violentos “para dar uma desculpa” para a intervenção militar norte-americana.
Araghchi diz que o aviso de Trump motivou “terroristas” a atacar “manifestantes e forças de segurança”, de acordo com o que escreve a Al Jazeera, depois de um encontro com diplomatas estrangeiros em Teerão.
Mantém que a situação está “sob controlo total”, apesar de a Internet estar cortada, impedindo a confirmação dessa afirmação, e de alguns activistas darem conta de centenas de mortos e dezenas de milhares de detidos.
O presidente do Parlamento do Irão avisou os EUA para não caírem “num erro de cálculo”: “Vamos ser claros: no caso de um ataque contra o Irão, os territórios ocupados [Israel], as bases norte-americanas e os seus navios vão ser os nossos alvos legítimos”, disse Mohammad Baqer Qalibaf no domingo.
Um diplomata iraniano que falou com o Washington Post disse acreditar que agentes dos serviços secretos israelitas se infiltraram nos protestos para fomentar a violência: “Não há outra opção para o Governo iraniano senão fechar o acesso aos serviços de Internet” para impedir a “comunicação de células terroristas”.
O primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu disse, este domingo, estar a “monitorizar” o que estava a acontecer no Irão e acrescentou que os israelitas reconheciam a “coragem imensa” dos iranianos. De acordo com três fontes israelitas que falaram com a Reuters, e que estiveram presentes nas reuniões de segurança durante o fim-de-semana, Israel estava em alerta máximo para a possibilidade de uma intervenção norte-americana.
De acordo com alguns analistas, essa possível intervenção poderá ter um impacto limitado: “O regime está enfraquecido, mas continua quase brutalmente intacto”, disse H. A. Hellyer, analista do Royal United Services Institute, à CNN.
Por outro lado, há quem tenha dúvidas que os protestos sejam o suficiente para mudar o regime iraniano: “Acho que é mais provável que o Governo acabe com estes protestos e saia do processo muito mais enfraquecido”, disse Alan Eyre, antigo diplomata norte-americano e especialista no Irão, que acrescentou que as elites iranianas ainda estavam coesas e que não havia sinais de uma oposição organizada.