Houve um tempo em que janeiro era sinónimo de ressaca financeira e aeroportos desertos. As famílias recolhiam-se após o Natal e o turismo entrava numa espécie de hibernação até à Páscoa. No início de 2026, porém, o cenário mudou radicalmente. Basta abrir as redes sociais ou ir a um terminal de partidas para perceber que o primeiro mês do ano se tornou num período de alta rotação.

Relatórios recentes de plataformas como a Skyscanner e a Expedia apontam para uma mudança estrutural no calendário turístico. Janeiro já não é apenas o mês dos saldos nas lojas. É o mês dos saldos no céu.

A “janela de ouro” dos preços

A principal razão é puramente económica. Os dados do Air Travel Outlook indicam que, historicamente, a segunda quinzena de janeiro oferece algumas das tarifas aéreas mais baixas do ano. Após o pico inflacionado do fim de ano, a procura sofre uma quebra natural a partir do dia 10. Isso obriga as companhias a baixar preços para encher aviões.

Para o viajante português, isto traduz-se em oportunidades raras. Voos para capitais europeias ou destinos de longo curso surgem com descontos significativos face aos valores da primavera. Quem tem flexibilidade para tirar férias agora está a comprar o mesmo destino por uma fração do preço.

A fuga ao calor (e às multidões)

O segundo fator é climático. Com os verões no sul da Europa a tornarem-se cada vez mais tórridos, surgiu a tendência do Coolcationing (férias frescas). Muitos viajantes estão a trocar intencionalmente as férias de julho pela frescura de janeiro para visitar cidades como Roma ou Atenas.

Atenas, Grécia

Atenas, Grécia
Créditos: Constantinos Kollias | Unsplash

Visitar estas metrópoles no inverno permite explorar museus e ruínas sem o suor e as filas intermináveis do verão. O que se perde em dias de praia ganha-se em qualidade de vida. A cidade torna-se mais habitável e o contacto com os locais é mais genuíno.

O efeito “nómada digital”

Por fim, há uma mudança social. Janeiro é o mês das resoluções de ano novo. Para a crescente comunidade de trabalhadores remotos, este é o momento de iniciar novos projetos de vida noutro lugar.

Dados da plataforma Nomad List mostram frequentemente picos de tráfego no início do ano. São profissionais que aproveitam o recomeço do calendário para se mudarem para destinos como a Madeira ou as Canárias, fugindo ao inverno rigoroso do norte da Europa.

Janeiro oferece hoje o equilíbrio que agosto perdeu. Tem preços acessíveis e um clima gerível. Se está a pensar marcar viagem, a altura é agora. A “época baixa” está a ficar cada vez mais curta.

Notas sobre os dados usados:

1. A referência à “segunda quinzena” baseia-se no padrão anual reportado pela Skyscanner (Travel Trends) e Hopper, que identificam consistentemente as semanas 3 e 4 de janeiro como o “fundo” da curva de preços.

2. O conceito de Coolcationing foi uma das grandes tendências identificadas pela Condé Nast Traveler e pela Forbes para 2025/2026.