País sul-americano possui quantidades não verificadas de minerais, metais e elementos potencialmente raros
O presidente dos EUA, Donald Trump, diz que as companhias americanas agora terão acesso às vastas reservas de petróleo da Venezuela. Mas outras matérias-primas do país também chamaram a atenção do seu governo.
A Venezuela possui quantidades não verificadas de minerais, metais e elementos potencialmente raros, afirmam vários especialistas. Essas matérias-primas são indispensáveis para indústrias que vão da defesa à tecnologia, e a administração norte-americana tem repetidamente enfatizado a sua importância para a segurança nacional.
Mas, embora Washington possa aspirar a garantir os elementos críticos da Venezuela, isso é uma tarefa difícil, dizem os especialistas, e não contribuiria muito para reforçar a cadeia de abastecimento dos Estados Unidos.
A quantidade e a viabilidade económica dos recursos minerais da Venezuela são incertas. As empresas enfrentam também grandes riscos ao minerar na Venezuela sem garantias de segurança sustentáveis.
Muitas dessas regiões têm guerrilheiros e grupos armados envolvidos na mineração ilegal de ouro, dizem os especialistas. A mineração de terras raras, que consome muita energia, também pode prejudicar o ambiente.
“Há uma consciência dentro do governo de que, além do petróleo, há um valor mais amplo dos recursos naturais no país”, afirma Reed Blakemore, diretor de pesquisa do Atlantic Council Global Energy Center.
“No entanto, se estamos a falar das condições sob as quais podemos explorar esses recursos minerais e levá-los ao mercado, então esta é uma história muito mais desafiadora”, diz Blakemore. “E, francamente, ainda mais desafiador do que a história do petróleo.”
Um mineiro venezuelano com uma camisola com a imagem do Tio Sam trabalha escavando numa mina para extrair ouro, que será vendido em El Callao, no estado de Bolívar, Venezuela, a em 29 de agosto de 2023. Magda Gibelli/AFP/Getty Images
O papel da China na cadeia de abastecimento
Mesmo que as empresas americanas tentassem extrair terras raras da Venezuela, retirá-las do solo é apenas uma parte do processo. Esses materiais são geralmente enviados para a China para refinação.
A China foi responsável por mais de 90% da refinação global de terras raras em 2024, de acordo com a Agência Internacional de Energia. O país mantém um monopólio virtual no processamento e refinação dos materiais devido a décadas de subsídios governamentais, expansão da indústria e regulamentações ambientais frouxas.
Os metais raros tornaram-se um importante ponto de discórdia nas tensões comerciais entre os EUA e a China. No ano passado, Pequim implementou alguns controlos de exportação de metais raros durante disputas comerciais, levantando preocupações sobre a falta de cadeias de abastecimento seguras dos EUA para esses materiais críticos.
“A China ainda detém uma capacidade quase singular de processar metais raros, e essa vantagem industrial e geopolítica não pode ser superada da noite para o dia”, diz Joel Dodge, diretor de política industrial e segurança económica da Vanderbilt Policy Accelerator.
Minerais críticos e elementos de terras raras
O Serviço Geológico dos Estados Unidos designa 60 “minerais críticos” vitais para a segurança económica e nacional.
Esses minerais críticos incluem uma mistura de matérias-primas, incluindo alumínio, cobalto, cobre, chumbo e níquel. A lista também inclui 15 elementos de terras raras, como cério, disprósio, neodímio e samário. Terras raras referem-se a uma categoria de 17 elementos metálicos específicos.
Essas “commodities” são essenciais em tecnologias do dia a dia, como telefones, baterias e telas de TV, bem como em equipamentos militares e de defesa, como lasers, caças a jato e mísseis.
“Terras raras” é um nome impróprio, pois os elementos são relativamente onipresentes na crosta terrestre, de acordo com Julie Klinger, geógrafa e professora associada da Universidade de Wisconsin-Madison. Mas extraí-los e refiná-los é a parte difícil.
Nos últimos anos, os legisladores dos EUA têm se preocupado com a dependência do país em relação às importações desses elementos críticos. Tem havido esforços para desenvolver a mineração e o refinamento de terras raras nos Estados Unidos, mas o cronograma dos projetos pode levar anos, se não décadas.
Minerais críticos na Venezuela
O USGS [sigla original para Serviço Geológico dos Estados Unidos] não inclui a Venezuela na sua lista de países com elementos de terras raras (os países da lista incluem a China, os Estados Unidos, o Brasil e a Gronelândia, entre outros).
Duas décadas e meia de governo dos presidentes Hugo Chávez e Nicolás Maduro na Venezuela criaram uma lacuna nas informações sobre a extensão dos recursos do país, dizem os especialistas.
Ainda assim, os especialistas acreditam que a Venezuela possui depósitos de alguns minerais, como o coltan — do qual se derivam os metais tântalo e nióbio — e a bauxite, que pode conter alumínio e gálio. O tântalo, o nióbio, o alumínio e o gálio são todos considerados minerais críticos pelo USGS.
Em 2009, Chávez elogiou os recursos naturais do país, incluindo o “ouro azul”, um apelido para o coltan. Chávez disse naquele ano que uma grande reserva de coltan foi descoberta no país, de acordo com a Reuters.
Em 2016, Maduro estabeleceu o Arco Mineiro do Orinoco, uma faixa da Venezuela designada para exploração e produção mineral. Mas a região tem sido assolada pela mineração ilegal.
“Embora o país possua grandes depósitos de recursos minerais, ele é prejudicado por uma combinação de dados geológicos precários, mão de obra pouco qualificada, crime organizado, falta de investimentos e um ambiente político instável”, afirma Sung Choi, analista de metais e mineração da BloombergNEF, numa nota.
“Apesar de seu potencial geológico atual, é improvável que a Venezuela desempenhe qualquer papel significativo no setor de minerais críticos, pelo menos na próxima década”, diz Choi.