Um número crescente de utilizadores do Spotify tem procurado alternativas, motivados não só pela estagnação técnica que a plataforma viveu durante anos, mas sobretudo por questões éticas. Os investimentos do CEO Daniel Ek na indústria militar (nomeadamente na empresa de inteligência artificial Helsing) e as constantes críticas sobre o modelo de remuneração dos artistas — que muitos alegam pagar “migalhas” a quem cria a arte — levaram ao êxodo de muitos utilizadores.

É neste cenário que o Tidal, outrora visto apenas como o “brinquedo” de Jay-Z para audiófilos endinheirados, surge como o principal desafiador, apresentando-se agora mais acessível e tecnicamente robusto. E devemos ainda considerar o Apple Music, mais competitivo para quem tem um iPhone, mas que também pode ser usado em smartphones Android.

Perante três ofertas, onde deve o consumidor português investir o dinheiro? A resposta depende menos da música disponível — que é virtualmente a mesma em todos — e mais da qualidade do som, do preço mensal, dos serviços extra e do tipo de dispositivo que o utilizador traz no bolso.

A inversão nos preços

A maior surpresa deste comparativo reside na inversão da lógica de preços em Portugal. Durante anos, assumiu-se que a concorrência seria sempre mais cara que o Spotify. A realidade actual prova o contrário. O gigante sueco, pressionado pelos custos da expansão para audiolivros e podcasts, inflacionou a mensalidade do plano Premium Individual para os 8,99 euros, tornando-se a opção mais dispendiosa entre as três a solo. Tanto o Tidal como o Apple Music têm um custo de 7,49 euros mensais para o plano individual.

Contudo, a análise de custos exige uma lupa sobre os “pacotes”. É aqui que a Apple brilha para quem vive dentro do “jardim” da marca. Ao integrar o Apple Music no pacote Apple One (que junta armazenamento iCloud, Apple TV+ e Arcade), o valor percebido dispara, tornando-se imbatível para famílias que já utilizam iPhones. Por outro lado, se a análise for isolada apenas à música, o plano familiar do Tidal (até seis pessoas) a 11,99 euros leva a melhor. O Spotify pede uns dolorosos 16,99 euros para o mesmo número de utilizadores ou 14,99 se limitarmos a quatro utilizadores. O plano familiar da Apple tem o mesmo custo mensal do plano familiar do Tidal (11,99 euros), mas dá acesso a menos um utilizador (cinco familiares e não seis).

Para quem não pode ou não quer pagar, o Spotify mantém-se como o único refúgio, oferecendo um plano gratuito. O custo, porém, é a audição de publicidade intrusiva e uma qualidade de som limitada.

Biblioteca

No que toca à música pop, rock ou hip-hop, o empate é técnico: todos rondam os 100 a 110 milhões de músicas. A diferença faz-se nos nichos e na organização.

O Spotify tenta ser “tudo para todos”, misturando música, podcasts e audiolivros na mesma interface. Para uns, é conveniência; para outros, é poluição visual. O Apple Music e o Tidal mantêm as coisas separadas. O Tidal foca-se em vídeos e créditos técnicos detalhados, ideal para puristas.

Mas a Apple tem a “arma secreta”: a aplicação dedicada Apple Music Classical, incluída na subscrição. É, sem margem para dúvida, a melhor experiência do mundo para quem gosta de música erudita, com metadados correctos (algo que o Spotify trata muito mal, confundindo compositores com intérpretes) e uma qualidade de som soberba. Se o leitor é melómano de Bach ou Beethoven, a escolha acaba aqui: é Apple Music.

Som de alta-fidelidade

Com o lançamento do Spotify Lossless em Setembro de 2025, os três concorrentes oferecem agora áudio sem perdas de compressão. Mas nem todos os lossless são iguais. O Apple Music e o Tidal levam vantagem técnica sobre o Spotify. Ambos oferecem, sem custos adicionais, resoluções que vão até aos 24 bits/192 kHz (hi-res lossless), equivalente a qualidade de estúdio, enquanto o Spotify oferece qualidade de CD (16 bits e 44,1 kHz). Num teste cego com equipamento de topo, o Tidal continua a oferecer a assinatura sonora mais refinada e transparente.

Todavia, a Apple tem um trunfo chamado Áudio Espacial com Dolby Atmos. Embora o Tidal também suporte este formato, a implementação da Apple é superior, com uma biblioteca mais vasta de faixas misturadas para som surround. Para quem utiliza os auscultadores AirPods, a experiência de ouvir a música a “rodear” a cabeça é impressionante e, muitas vezes, mais perceptível para o utilizador comum do que a diferença de bits na resolução do ficheiro.

O Spotify, conservador, continua a ignorar o áudio espacial, o que é uma falha grave para um líder de mercado que até é o mais caro.




O Apple Music Classic tem mais informação indexada e pesquisável sobre música clássica
App Apple Music

Experiência de utilização

Aqui reside o grande divisor de águas. O Spotify continua a ter a melhor aplicação em termos de fluidez e, sobretudo, de algoritmos. As playlists Descoberta da Semana continuam imbatíveis a adivinhar o gosto do utilizador, e o Spotify Connect é muito prático: permite controlar a música em qualquer dispositivo (TV, consola, coluna Wi-Fi) a partir de qualquer outro, independentemente da marca. É universal.

O Apple Music é fantástico… se o utilizador tiver um iPhone. A integração com o iOS é perfeita, bonita e inclui a funcionalidade Sing (Cantar), um modo karaoke divertidíssimo. No entanto, a experiência em Android ou Windows, embora tenha melhorado muito em 2026, ainda sofre de alguma lentidão e falta de polimento comparada com a versão nativa.

O Tidal corre por fora com uma aplicação limpa, rápida e eficiente, que copia o melhor dos dois mundos sem complicar, embora não tenha a “magia” algorítmica do Spotify, nem a integração profunda da Apple.

Veredicto

O Spotify continua a ser a recomendação para o utilizador “social”. Se a prioridade é partilhar playlists com amigos, ouvir podcasts exclusivos e ter a garantia de que a música toca em “qualquer torradeira” ligada à Internet, o serviço sueco vence pela conveniência, apesar de ser o mais caro e de ter a pior qualidade de som relativa (mesmo com o lossless).

O Apple Music é a escolha quase obrigatória para quem vive no ecossistema Apple. A relação funcionalidade/preço (especialmente no pacote Apple One), a inclusão da app de Música Clássica e a excelência do Áudio Espacial tornam-no irresistível para quem tem um iPhone no bolso.

Contudo, o Tidal emerge como o vencedor racional e o “campeão” audiófilo. É o serviço que oferece a melhor qualidade de som, a interface mais respeitadora da música (sem distracções de podcasts) e, surpreendentemente, o preço mais baixo do mercado português (a partir de 7,49 euros). Para quem quer poupar dinheiro sem sacrificar a fidelidade sonora e prefere apoiar uma plataforma que (alegadamente) remunera melhor os artistas, o Tidal é a subscrição mais inteligente.