Antes de se tornar sinônimo de Super Mario, The Legend of Zelda e consoles que marcaram gerações, a Nintendo passou por décadas de transformação — e experimentou caminhos bem diversos. Fundada em 1889 em Kyoto, no Japão, por Fusajiro Yamauchi, a empresa inicialmente não tinha nada a ver com eletrônicos ou jogos digitais. Seu primeiro produto foi um conjunto de baralhos tradicionais japoneses chamados hanafuda, focados no entretenimento familiar e associadas a jogos de cartas populares na época.

Ao longo de quase um século antes da chegada dos videogames, a Nintendo passou por várias fases e lançou uma série de produtos peculiares — alguns bem-sucedidos, outros nem tanto. A seguir, listamos cinco dos itens mais curiosos que a empresa comercializou antes de entrar oficialmente no mundo dos games, mostrando como a história da Nintendo é tão diversa quanto sua influência cultural hoje.

1. Baralhos Hanafuda

O primeiro grande produto da Nintendo não foi eletrônico, nem mecânico — foi um conjunto de cartas de jogo tradicionais japonesas, conhecidas como hanafuda. Esses baralhos, com ilustrações simbólicas e estéticas detalhadas, eram usados para jogos variados e se tornaram a principal fonte de receita da empresa por décadas.

Naquele período, cartas eram uma forma popular de entretenimento, tanto em jogos casuais quanto em apostas locais. A Nintendo consolidou sua marca e reputação a partir desse produto, estabelecendo seus primeiros passos no comércio e criando uma base de consumidores fiéis.

2. Love Tester beforemario.com/Nintendo/Reprodução

Inspirada pelo boom dos eletrônicos e pela cultura jovem do fim dos anos 1960, a Nintendo começou a explorar produtos que misturavam tecnologia básica e diversão. Um dos mais curiosos foi o “Love Tester” — um dispositivo eletrônico projetado para medir a “condutividade do amor” entre duas pessoas que seguravam um sensor com as mãos.

Basicamente, o aparelho avaliava variações sutis de resistência elétrica como se fossem sinais de compatibilidade. Embora não tivesse respaldo científico real, tornou-se um item icônico de feira e de parque de diversões — uma demonstração da ousadia da Nintendo em explorar tecnologias leves para entretenimento.

3. Carrinho de bebê beforemario.com/Nintendo/Reprodução

Nos anos 1970, a Nintendo tentou um empreendimento completamente diferente: um carrinho de bebê chamado “Mamaberica”. Apesar de parecer uma ideia promissora para diversificar sua linha de produtos, o brinquedo acabou se tornando um desastre comercial — e até perigoso, já que relatos apontam que o design poderia prender os dedos das crianças.

Esse episódio ficou marcado como um dos fracassos públicos da empresa e serviu como lição sobre os riscos de entrar em mercados muito distantes de sua expertise principal.

4. Armas de Luz

Entre 1970 e 1976, a Nintendo produziu uma linha de brinquedos chamados “Armas de Luz” (Kôsenjû), dispositivos eletrônicos que emitiam feixes de luz para disparo em alvos interativos. Esses produtos anteviam, em certo nível, a diversão baseada em estímulos visuais e eletrônicos — algo que anos depois se tornaria central nos videogames.

Embora não tenham se tornado grandes sucessos globais, essas armas de luz foram importantes para que a Nintendo entendesse a integração entre eletrônica e entretenimento — habilidade que a empresa refinaria nas décadas seguintes.

5. Telefone de Luz e Conga beforemario.com/Nintendo/Reprodução

No mesmo período de exploração de eletrônicos, a Nintendo lançou dispositivos como o Telefone de Luz e o Ele-Conga. Esses aparelhos eram eletrônicos caros e um tanto excêntricos: o Telefone de Luz misturava funções de comunicação com estímulos visuais, e o tambor Ele-Conga era um instrumento musical estilizado com luzes LED e sons, projetado para festas e uso doméstico.

Apesar de não terem conquistado o mercado — muitas vezes por serem caros demais ou tecnicamente limitados — eles mostraram a inclinação da Nintendo para inovar e testar ideias fora do comum, mesmo quando o retorno financeiro era incerto.

Da tradição às telas

Toda essa trajetória curiosa culminou no final dos anos 1970, quando a Nintendo começou a investir seriamente em jogos eletrônicos. Em 1979, a empresa lançou o arcade Sheriff, considerado um de seus primeiros jogos eletrônicos, e em 1980 introduziu a série Game & Watch, que trouxe videogames portáteis com telas de LCD para o mercado japonês.

Essas experiências iniciais em eletrônicos, somadas à expertise em design, produção e marketing acumulada ao longo de décadas, permitiram que a Nintendo se reinventasse — e eventualmente se tornasse uma potência mundial em videogames, consoles e franquias culturais que influenciam gerações até hoje.


Felipe Sales Gomes

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e nerd desde o berço, sou dono de uma mente inquieta que sempre tem mais perguntas que respostas. Vez ou outra, você pode ler textos meus sobre curiosidades históricas, música, ciência e cultura pop.