Os tubarões-da-Groenlândia (Somniosus microcephalus), famosos por sua longevidade extraordinária, superam todos os outros vertebrados conhecidos em expectativa de vida, podendo alcançar até cerca de 400 anos de idade — o que os torna os vertebrados mais longevos registrados na ciência moderna.
Durante muito tempo, acreditou-se que esses tubarões eram praticamente cegos, porque muitos indivíduos exibem parasitas (crustáceos) presos à superfície dos olhos, e porque passam grande parte de suas vidas em águas extremamente escuras do Ártico e do Atlântico Norte.
Porém, uma nova pesquisa publicada na revista Nature Communications desafia essa visão tradicional. O estudo descobriu que, apesar da idade avançada e das condições ambientais adversas, os tubarões mantêm um sistema visual funcional por séculos sem evidências de degeneração típica da retina — a camada de células responsável pela captação de luz e formação de imagens.
Os cientistas examinaram olhos de tubarões capturados cientificamente entre 2020 e 2024, preservando os globos oculares para análise detalhada. Mesmo em animais estimados em mais de um século de idade, não foram observados sinais de morte celular ou deterioração da retina, como ocorre em muitos vertebrados à medida que envelhecem.
Tubarões longevos
Os tubarões possuem uma retina dominada por células-bastão, especializadas em captar luz fraca — ideal para ambientes de baixa luminosidade em que vivem — e a proteína rodopsina, fundamental para visão em ambientes escuros, permanece ativa e afinada para detectar comprimentos de onda azul que penetram melhor nas águas profundas.
Essa combinação de adaptação ao escuro com manutenção estrutural ao longo de muitos séculos indica que os tubarões da Groenlândia têm mecanismos de reparo de DNA particularmente eficazes, capazes de preservar células sensoriais vitais mesmo ao longo de décadas — um fenômeno raro entre vertebrados.
A descoberta tem implicações que vão além da biologia marinha. Ciências biomédicas têm grande interesse em entender como esse mecanismo anti-envelhecimento funciona, pois pode abrir caminhos para novas abordagens terapêuticas no combate à perda de visão relacionada à idade e doenças como degeneração macular e glaucoma em humanos — condições nas quais a deterioração da retina é central.