O Observador está a publicar uma série de trabalhos sobre as declarações de rendimentos dos candidatos presidenciais
António José Seguro virou costas à política em 2014, quando foi derrotado por António Costa nas eleições internas do PS. Depois disso, dedicou-se ao ensino universitário e reinventou-se como empresário no setor do turismo. É na terra natal de Penamacor que tem as Casas da Penha, um empreendimento de alojamento turístico que recuperou e dinamiza, juntamente com uma loja de produtos regionais.
Depois de um longo passado na política, onde já exercia funções governativas com 33 anos, é na política que procura ter um novo futuro, com a candidatura à Presidência da República. No escrutínio do património, interesses e impedimentos de Seguro, é possível reconstituir com detalhe esses primeiros anos ao mais alto nível; porém, tudo se torna mais complicado a partir de 2014, com o fim das declarações apresentadas junto do Tribunal Constitucional.
Curiosamente, o antigo líder da Juventude Socialista, ex-secretário de Estado, antigo ministro adjunto de António Guterres, ex-líder parlamentar do PS e antigo secretário-geral do partido saiu da vida política ativa a ganhar menos do que aquilo que auferia quando começou a entregar declarações no TC. Por outro lado, os seus ativos financeiros e também o passivo contraído cresceram exponencialmente até 2014.
Ao mesmo tempo que tinha os dois pés na política, António José Seguro não perdeu Penamacor de vista. Conforme contou à revista Sábado em 2018, o ex-líder do PS lançou-se na recuperação de uma série de casas na zona histórica da sua terra natal, reabilitando-as para um projeto turístico. Agora, o novo projeto chama-se Palácio de Belém.
A primeira declaração disponível apresentada por António José Seguro no TC remonta a janeiro de 1998, sob o pretexto do fim de funções como secretário de Estado da Juventude.
Numa era em que as contas ainda se faziam em escudos, tinha ativos financeiros que, ao câmbio de hoje, não iam além dos 3.069,81 euros. Por outro lado, o seu passivo ascendia a um valor equivalente a 166.658,18 euros, composto pelos dois empréstimos que pagava sobre duas casas: um apartamento na Damaia (Amadora) e outro em São Domingos de Benfica (Lisboa), além de deter um prédio urbano em Penamacor. Registou igualmente uma quota de 100 euros (ou 20 mil escudos) na sociedade do pai.
Contudo, nem sinal dos rendimentos obtidos pelo então ex-secretário de Estado. Para encontrar essa informação é preciso avançar até uma informação complementar fornecida em março de 1999 pelo agora candidato presidencial, na qual detalha os rendimentos dos cinco anos anteriores (todos resultantes do desempenho de cargos políticos). Assim, no ano fiscal de 1997 auferiu 65.166,94 euros.
Já no ano seguinte, António José Seguro viu os seus rendimentos crescerem ligeiramente, com uma subida para os 66.955,63 euros. No mesmo sentido evoluem os seus ativos financeiros, com um montante global de 23.952,15 euros, muito por força de uma nova aplicação efetuada com pouco mais de 20 mil euros. Na declaração agora submetida pelo fim de funções como secretário de Estado Adjunto — o seu segundo cargo no primeiro Governo liderado por António Guterres —, Seguro manteve os imóveis que já tinha declarado, tendo o nível de endividamento continuado muito próximo do patamar reportado no ano anterior.
Ao chegar a 1999, rumou ao Parlamento Europeu para ser eurodeputado, mas não ficaria muito tempo longe de Lisboa, regressando em 2001 para ser agora ministro Adjunto do primeiro-ministro. É dessa transição que chega a primeira declaração deste período, com os rendimentos do ano 2000 a revelarem uma pequena quebra para os 63.392,31 euros.
No entanto, o verdadeiro impacto da experiência no estrangeiro refletiu-se noutros parâmetros, a saber: os ativos financeiros mais do que triplicam, passando para 75.916,27 euros (incluindo 470 ações da EDP, cujo valor declarado corresponderia agora a um montante de 1.328,34 euros), e a dívida à banca cai quase para metade (90.899,63 euros), liquidando até o crédito que tinha contraído pelo imóvel na Damaia. Seguro comunica ainda pela primeira vez ao TC a posse de uma viatura: um BMW 320D.
Após a passagem pelo Parlamento Europeu, António José Seguro é empossado como ministro Adjunto de António Guterres. A experiência terminaria em 2001, ano em que informa os juízes do Palácio Ratton de que se tinha casado com Margarida Maldonado Freitas (em regime de comunhão de adquiridos), passando depois a declarar até os investimentos efetuados pela mulher ao longo do tempo.
Nesse ano fiscal de 2001 relatou rendimentos totais de 78.139,66 euros, dos quais 13.690,29 euros sob a categoria “outros rendimentos”. Paralelamente, o passivo, os investimentos e as poupanças, além dos imóveis e da viatura anteriormente declarados não sofrem alterações de relevo de um ano para o outro.
Pelo meio regista-se uma mudança de ciclo: o “pântano político” criado por uma derrota do PS nas autárquicas de dezembro de 2001 precipita o fim da governação socialista e a ascensão do governo de coligação PSD-CDS liderado por Durão Barroso. Seguro volta à condição de deputado, num PS liderado primeiro por Ferro Rodrigues (entre janeiro de 2002 e setembro de 2004) e, depois, por José Sócrates. É entre 2004 e 2005 que assume a liderança do grupo parlamentar do partido e do qual reporta um crescimento assinalável nos rendimentos da atividade política (mas menor no cômputo geral).
Relativamente ao ano fiscal de 2004, Seguro obteve rendimentos de trabalho dependente de 70.543,39 euros e somente 62,08 euros de outros rendimentos. Os seus ativos financeiros sobem para quase 80 mil euros, enquanto o passivo desce para um valor muito aproximado dos 83 mil euros. Quando já tinha começado a trabalhar também como professor da Universidade Autónoma de Lisboa (em 2003), Seguro faz ainda um reforço da participação na sociedade familiar criada pelo pai, ao subir de 100 para 250 euros.
O acompanhamento da evolução patrimonial de Seguro sofre então um novo interregno nas declarações junto do TC e apenas volta a ser possível testemunhar as alterações em 2008, ano no qual declara rendimentos totais de 72.545,06 euros (incluindo 8.750 euros de trabalho realizado fora do Parlamento). Por outro lado, os ativos descem e o passivo mais do que triplica, para quase 300 mil euros, fruto de um novo empréstimo com mais de 230 mil euros em dívida.
Desta informação, António José Seguro — então deputado na maioria absoluta socialista que suportava o primeiro Executivo de José Sócrates — faz ainda constar o acréscimo de um prédio urbano nas Caldas da Rainha e quotas de 1.333,33 euros de uma sociedade e da propriedade de uma farmácia (em regime de meação com a mulher).
Na ressaca do colapso do Governo de José Sócrates e da chegada da ‘troika’ a Portugal, António José Seguro torna-se em julho de 2011 secretário-geral do PS, depois de vencer folgadamente Francisco Assis. Nem duas semanas depois, apresentava no TC a declaração correspondente ao arranque de uma nova legislatura, com o ano fiscal de 2010 a revelar o pico dos rendimentos obtidos pelo agora candidato presidencial: 94.350 euros, repartidos por 81.960,08 de trabalho dependente e 12.390,82 euros de prestações de serviço.
Em simultâneo, é observada uma ligeira subida no valor dos ativos financeiros aplicados, ao passarem para 61.160,92 euros, enquanto a dívida à banca sofreu um aumento para 301.310,89 euros. Na base dessa evolução esteve um novo empréstimo para uma viatura em leasing de marca/modelo Volvo V60, além do BMW que já detinha anteriormente.
Já em junho de 2013, ao submeter nova declaração ao TC, Seguro comunica uma forte quebra nos rendimentos obtidos, que caem no ano fiscal de 2012 para 51.522,96 euros (contando com 1.948,72 euros de colaborações sem vínculo laboral permanente). De igual forma, os restantes itens de comparação com o documento anteriormente apresentado no TC registam uma subida no valor dos ativos financeiros (que incluem contas-poupança dos dois filhos e verbas da mulher) e a queda do valor do crédito por pagar, situando-se agora em 275.547,60 euros.
Finalmente, António José Seguro apresenta em novembro de 2014 a sua derradeira declaração no Palácio Ratton, por ocasião da sua despedida do Parlamento e do Conselho de Estado, em outubro desse ano, após perder as eleições internas do PS para António Costa. Com base no ano de 2013, constata-se que os rendimentos voltaram a cair, ao não irem além dos 46.123,24 euros, exclusivamente provenientes do trabalho político, já que nesta altura suspendeu as aulas que dava em universidades.
Reporta igualmente só um veículo — não sendo possível comprovar a marca ou o modelo do automóvel —, enquanto os imóveis (um em Penamacor, outro em Lisboa e um em localidade rasurada) se mantêm sem mudanças. Quanto ao passivo, o valor indicado mostra que descia agora para 253.206,60 euros, tal como os ativos se desvalorizaram ligeiramente neste período.
Seguro afastou-se da política e seguiu o seu caminho de volta a Penamacor, para uma nova vida como empresário. Em janeiro de 2016 juntou-se a um jovem investigador formado no Politécnico de Leiria, André Horta, com quem fundou em Peniche a I&D Food, uma start-up na área de conservação e desenvolvimento de novos produtos e tecnologias alimentares. Ambos assumiram a posição de sócios-gerentes, com quotas sociais iguais de 2.500 euros, mas Seguro acabou por renunciar à gerência em agosto de 2019.
Pelo meio abriu também o alojamento turístico Casas da Penha, no âmbito da sociedade Amarcor, criada com o sócio António Galamba, em dezembro de 2016. Seguro assumiu uma quota de 1.900 euros, enquanto o amigo ficou então com uma quota simbólica de 100 euros, numa empresa com objeto social abrangente, nomeadamente: alojamento turístico, restauração e comércio de produtos regionais, administração de imóveis, consultoria e organização de eventos.
Em janeiro de 2019, criou uma nova sociedade para a produção e comercialização de produtos regionais: a Mimos da Beira, Lda., cujo capital social de 2.000 euros ficou repartido pela Amarcor (1.200 euros) e pelo próprio António José Seguro (800 euros), que figura como único gerente da empresa. Foi a partir daqui que lançou o vinho Serra P, em homenagem ao pai — sendo possível comprar uma garrafa a 12 euros no site oficial —, mas também o azeite Serra Magor, cuja garrafa de 500 ml é vendida a 7 euros.
Durante esta nova carreira de empresário, em 2018, tornou-se igualmente professor no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP). Já em novembro de 2024 voltaria ao comentário político na CNN Portugal, numa experiência que acabou abreviada este ano com o lançamento da candidatura à Presidência da República.
Na última década, não mais Seguro teve de apresentar declarações sobre os seus rendimentos, interesses, património e impedimentos pelo exercício de cargos políticos ou públicos. Tal só se alterou em dezembro de 2025, com a entrega das informações à Entidade para a Transparência, enquanto candidato à Presidência da República. Embora os dados não estivessem publicamente disponíveis à data da elaboração deste texto, a candidatura de Seguro enviou ao Observador algumas informações sobre a sua situação financeira.
Assim, António José Seguro auferiu em 2024 um total de rendimentos na ordem dos 54.647,35 euros. O valor foi possível através da empresa Mimos da Beira (7.129,66 euros), da atividade como professor na Universidade Autónoma (16.660) e no ISCSP (14.436,94), de rendimentos prediais (10.902) e do comentário na CNN (5.518,75).
Segundo as informações prestadas pela sua candidatura, o antigo líder socialista tem ligações a três empresas: Amarcor (60% em seu nome e 20% de cada um dos dois filhos), Mimos da Beira (40% de Seguro e 60% da Amarcor) e N&A (consultoria, com quota de 50% da Amarcor), que juntas tiveram uma faturação de 347.255,34 euros em 2024. Face à última declaração que existia, uma década antes, sobressaem ainda algumas diferenças: não tem carro próprio e também já não tem passivo bancário. Por último, mantém três imóveis em seu nome: um apartamento T2 em São Domingos de Benfica e dois imóveis nas Caldas da Rainha (um T4 que é a residência da família e um T3).