Aliás, de manhã, em Barcelos, quando foi confrontado pelos jornalistas com o que Pedro Nuno tinha escrito sobre a sua candidatura, Seguro disse estar “contente”, mas deixou perceber que não faz questão que o ex-líder do PS apareça ao seu lado. Foi questionado várias vezes sobre se iria ter Pedro Nuno Santos na campanha e se aquele apoio concreto somava ou subtraía mais à sua candidatura. Mostrou-se claramente desinteressado nessa possibilidade e disparou várias vezes: “Eu é que sou o candidato”.
Insistiu também que é “um candidato moderado” (o que soou a oposição à imagem de “radical” que ainda pode estar associada a Pedro Nuno) e ainda apontou para os outros apoios que tem tido nas outras áreas políticas: “Ainda ontem, em Viana, estava um ex-deputado do CDS, e em Matosinhos uma ex-deputada do PSD”, disse aos jornalistas. “Uns vêm da esquerda, outros da direita e outros de quadrante nenhum. Sinto-me um candidato abençoado por ter apoios de tantos lados”, concluiu, esquivando-se sempre a responder às perguntas sobre se convidou o ex-líder do PS a estar presencialmente em algum momento.
O engrossar de apoios do PS é real e é também gerido com cada vez mais parcimónia pela candidatura. Quem quiser aparecer, aparece, mas a norma é deixar o púlpito para os mandatários independentes e o candidato. Só raras vezes fala um presidente de câmara ou dirigente local do PS — que têm tido principalmente a função de compor as salas dos comícios e contactos de rua pelo país.
Mesmo no sábado, Seguro quase gelou a sala socialista, do almoço no distrito de Braga, quando começou por dizer que era “suprapartidário” e assim se queria manter. Só depois de um aplauso contido, disparou com o “abençoado” que se sente por ter os socialistas no barco. A sala descongelou mas com o candidato a atirar logo de seguida, como sempre faz quando o assunto é o seu partido, que a candidatura consegue ir além da sua família política.
Seguro agradece o trabalho da máquina, mas tem resumido a sua ligação de mais de 40 anos ao PS (de que não se desfiliou para se candidatar a Belém) a um: “Toda a gente conhece as minhas convicções e valores“. Quando tem de destacar apoiantes no meio da assistência prefere ir para a área política oposta, para provar capacidade de alargar a base de apoio. Foi o que fez, por exemplo, no comício de Viana do Castelo, este domingo. A dada altura apontou a presença de Abel Batista, antigo deputado do CDS que apoia a sua candidatura. Nada disse sobre a ex-ministra da Habitação, a socialista (e pedronunista) Marina Gonçalves, que também estava na sala.
Aliás, o seu argumento mais focado à esquerda tem surgido apenas quando fala na reforma laboral do Governo e no veto que imporia ao que foi posto em cima da mesa. Esta terça-feira, em Bragança, também defendeu que a Saúde e a Segurança Social “não podem ser privatizadas” e que “têm de ser universais e de acesso para todos e todas os portugueses independentemente dos recursos que têm no banco e no bolso”. Mas de resto, tem agitado mais com o fantasma da grande coligação da direita para rever a Constituição.
A distância de segurança em relação à esquerda aparece não só por a candidatura considerar que o assunto da concentração do voto já ficou firmado — ainda que exista receio de que Seguro possa não passar por pouco e se conclua, no fim das contas, que os votos à sua esquerda seriam suficientes para o conseguir. A tal barreira higiénica acontece também numa fase em que o socialista sabe que a esquerda está nos seus mínimos e pode trazer um nível de toxicidade elevado — Seguro é especialmente crítico da incapacidade deste campo político ter apresentado respostas concretas aos problemas, estando a sofrer uma sangria por isso mesmo.