Marine Le Pen, líder do partido de extrema-direita União Nacional, iniciou nesta terça-feira o processo de recurso para tentar reverter a condenação que a deixou inelegível por cinco anos — e que, a confirmar-se, a afastará das eleições presidenciais de 2027, abrindo a possibilidade a que Jordan Bardella a substitua.
Não foi uma surpresa: quando se soube que Marine Le Pen e outros militantes do seu partido — oito eurodeputados e 12 assistentes — tinham sido condenados no âmbito de um caso de desvio de fundos públicos do Parlamento Europeu, a líder da União Nacional já tinha feito saber que iria recorrer da decisão, que descreveu como tendo “motivações políticas”.
O tribunal que a condenou deu por provado que ela estava no centro de um sistema que desviou 2,9 milhões de euros do Parlamento Europeu para pagar despesas de “pessoas que trabalhavam, de facto, para o partido”. Por isso, em Março de 2025, foi condenada a quatro anos de prisão — dois de prisão efectiva, podendo cumpri-los com pulseira electrónica —, ao pagamento de uma multa de cem mil euros e a cinco anos de inelegibilidade para cargos públicos com execução imediata. É precisamente este último ponto que pretende reverter, para manter as suas esperanças de se poder candidatar mais uma vez à Presidência de França.
Entrou no tribunal sem prestar quaisquer declarações e sentou-se ao lado de 11 companheiros de partido, que ouviram, durante horas, a recompilação dos principais pontos do processo. Horas antes, à chegada à Assembleia Nacional para a reunião semanal dos líderes das bancadas parlamentares, comentou de forma breve o caso: estava com “esperança” de ser “ouvida pelo tribunal”.
Esta terça-feira, em tribunal, Marine Le Pen justificou a sua decisão de recorrer: “Não sentimos que cometemos um crime quando contratámos e partilhámos os nossos assistentes”, citam os meios de comunicação no local. Se “foi cometido algum crime, então o Parlamento Europeu não cumpriu a sua missão de alertar quando devia”, continua. “Nunca escondemos nada, nem a publicação dos nossos organigramas, nem os contratos, nem os inúmeros artigos na imprensa.”
Três cenários
Já na segunda-feira tinha revelado que a sua “única linha de defesa para este recurso” será a mesma do que da primeira vez: “Dizer a verdade.” “Este caso vai ser julgado por novos juízes”, afirmou aos jornalistas. “Espero conseguir convencê-los da minha inocência.”
A sua equipa vai tentar seguir uma estratégia menos politizada do que aquela que foi usada no primeiro julgamento, que resultou na sua condenação, de acordo com três fontes do partido de extrema-direita ouvidas pelo Politico. “Vamos a isto com uma certa humildade, e vamos tentar não ter a mentalidade de que isto é um julgamento político”, disse um deles.
Neste momento, abrem-se três cenários: Marine Le Pen pode ser absolvida, pode ver a sua condenação confirmada (incluindo a pena a que está sujeita), ou pode voltar a ser condenada, mas com uma pena diferente, por exemplo, com uma inelegibilidade mais curta, escreve a RTL. Neste momento, apenas a absolvição lhe seria completamente favorável, no entanto, com uma pena de inelegibilidade mais curta já conseguiria manter vivas as suas aspirações de uma corrida presidencial. Espera-se uma decisão antes do Verão.
“Os juízes não estão completamente desligados da realidade. Sabem que vai haver eleições presidenciais em 2027 e que Marine Le Pen é uma candidata importante, e que a altura em que a decisão acontece é importante”, disse o juiz Christophe Soulard, o mais importante do sistema judicial francês, numa conferência de imprensa na quinta-feira passada. “É do interesse da própria administração da Justiça que o caso se resolva antes das presidenciais.”
Bardella é “plano B”
Se a sua inelegibilidade for confirmada, Marine Le Pen já tornou pública a sua linha de sucessão: as presidenciais ficam nas mãos do seu “delfim”, Jordan Bardella, actual presidente do partido.
“Pode ganhar o meu lugar”, disse ao La Tribune Dimanche, no fim de Dezembro. “Não penso desistir da luta, mas ela pode tomar muitas formas. Há outra pessoa, as ideias sobrevivem e o futuro de França está assegurado.”
Ainda que uma sondagem recente, publicada pelo Le Monde, tenha dado Bardella como o preferido entre o eleitorado da União Nacional, depois de o caso de desvio de fundos europeus ter ferido a credibilidade de Le Pen, a líder parlamentar mantém-se, no entanto, resoluta no seu plano de ser candidata à Presidência. A postura, descrita por outros membros da União Nacional, era “combativa”, “concentrada” e “segura da sua inocência”.
Já Jordan Bardella, 30 anos, não fala ainda publicamente desta hipótese. Na segunda-feira, mostrou-se apenas do lado de Le Pen, que acredita que vai ser capaz de “mostrar a sua inocência”, com o seu “total apoio e amizade”.