São uma invenção da indústria? Não sei. Mas sei que são uma invenção da fome criativa. Daquela voragem de criar alguma coisa que ainda não tem nome nem rótulo. A indústria pode ter-lhes dado um megafone – mas só depois de eles já estarem a gritar e, acima de tudo, depois de eles já estarem a ser ouvidos.

E talvez por isso sejam a primeira banda que a Gen Z sente como “sua”. Não porque sejam perfeitos, mas porque são estranhos, intensos, exagerados, dramáticos, confusos – como todas as gerações. A ansiedade dos Geese faz todo o sentido no contexto a que chamamos rock: eles soam como o mais estranho feed do TikTok transformado em guitarra com pedais adjacentes.

O que nos leva à seguinte proposição: não me parece que Cameron Winter cante para agradar; não entendendo eu metade do que ele canta (até porque neste momento há uma bomba no meu carro), eu diria, por instinto, que ele canta para sobreviver emocionalmente, mesmo que eu não saiba ao quê. Talvez isso ressoe numa geração que cresceu entre crises climáticas, colapsos económicos, genocídios, populistas e timelines infinitas. Cameron é teatral, exagerado, quase caricatural – mas acreditamos nele e nunca o tomamos por falso. O rock sempre foi um teatro de excessos, uma ópera para amplificadores, e é nessa exata declaração de variáveis que a proposição dele se torna eficaz.

E sim, se calhar o indie rock está a voltar ao mainstream, com a brutalidade de quem quer ocupar espaço: os Geese, os Wednesday, os Turnstile — sendo que os Turnstile já vão a meio dos trinta e têm dez anos de carreira. Cada um à sua maneira trouxe o barulho de volta para o centro da sala, no lugar que antes era ocupado pelo avô – ou pelo r’n’b. São bandas que exigem atenção como um acidente de carro filmado em câmara lenta.

Os Wednesday trouxeram a melancolia do sul dos EUA, as vidas falhadas, a desesperança, a distorção emocional, a country ferida. Os Turnstile vieram com a violência luminosa do hardcore. E os Geese oferecem-nos uma espécie de caos intelectualizado: riffs que parecem errados até se tornarem inevitáveis.

[os Geese ao vivo na série “From The Basement”:]

Talvez estejamos perante uma pequena mudança de paradigma, em que a música já não é – como foi durante a hegemonia do r’n’b ou do reggaeton – sobre polimento, mas antes sobre intensidade. Já não é sobre perfeição; é sobre presença. Estas bandas não pedem licença: arrombam a porta e os teus sentimentos que se fodam. Faz sentido, na era do ICE.

Que mais não seja, os Geese, os Wednesday, os Turnstile, relembram-nos que que o rock nunca foi sobre humildade – foi sempre sobre excesso. Foi sempre sobre ego. Foi sempre sobre querer ser ouvido numa sala cheia de ruído. Ser a voz mais alta no meio de uma multidão aos berros. Cameron Winter não pede desculpa por ocupar espaço – ele exige-o e merece-o. E isso é profundamente rock’n’roll.

Os Geese são privilegiados? Provavelmente, sim. São produtos da indústria? Desconfio que não. Representam uma demografia da juventude que não quer mais sons neutros, nem emoções filtradas, nem artistas domesticados. Quer barulho. Quer drama. Quer canções que soem como colapsos emocionais com guitarras.

O indie rock não morreu. Apenas ficou em coma durante uns anos enquanto o mundo se afogava em playlists algorítmicas e pop pasteurizada. Agora voltou com cicatrizes, com raiva, com fome. Voltou com bandas que soam como se ainda acreditassem que a música pode ser perigosa.

E os Geese soam como se quisessem incendiar a própria reputação, antes que alguém os transforme num produto inofensivo. Soam como uma banda que sabe que o rock só é interessante quando recusa rédeas e arreios.

Cameron Winter não é um herói. É um catalisador, uma enzima, um condutor de energia, um tipo que percebeu que, num mundo saturado de imagens, a única forma de ser visto é ser excessivo, estranho, intenso, quase ridículo – mas sempre honesto no seu ridículo. E isso, meus amigos, isso é a matéria de que o melhor rock’n’roll sempre foi feito.