Carla Mota e Rui Pinto, autores do projeto Viajar entre Viagens, aterraram em Nauru a meio da terceira volta ao mundo e perceberam rapidamente que, apesar de estarem no Pacífico, este pequeno território – um dos mais pequenos do mundo – tinha pouco a ver com as ilhas paradisíacas e verdejantes desta região.
Logo no aeroporto, o drone com que Carla e Rui costumam viajar ficou apreendido e para ambos a mensagem foi clara: “Quando um drone é apreendido, é porque há algo a esconder”, explica Carla.
Depois, o clima e o aspeto da ilha. Contrastando com as ilhas verdes, húmidas e com habitantes hospitaleiros, Nauru foi um choque. “É contra-natura”, resume Carla. “Está rodeada de água, vê-se o mar de qualquer ponto, mas sente-se que se está num deserto.” O ar é pesado, sente-se o pó das pedreiras. “Nauru é completamente desflorestada, é seca, estéril e desoladora”, acrescenta Rui.
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Rui Pinto e Carla Mota em Nauru
Créditos: Viajar entre Viagens
A ilha remota onde tudo se vê
Com pouco mais de 20 quilómetros quadrados, Nauru é tão pequena que se pode dar a volta à ilha num dia. A maior parte dos turistas que lá passa é porque está a conhecer todos os países do mundo e normalmente não ficam mais de um dia. Carla e Rui ficaram cinco.
A paisagem árida não é um acaso. Durante décadas, o território foi explorado até ao limite por causa do fosfato, usado sobretudo em fertilizantes agrícolas mas também em outras indústrias e presente em produtos do dia-a-dia, como detergentes, medicamentos ou cosméticos. A extração começou no início do século XX, mas teve o seu auge nas décadas de 1970/80, e nessa altura Nauru era considerado um milagre económico, tendo um dos maiores PIB per capita do mundo, comparável às maiores economias petrolíferas da época.
“Parece o faroeste, pó por todo o lado, calor e um ar pesado”
No final da década de 1990, as reservas começaram a esgotar e as exportações a caíram. A falta de diversidade económica a juntar à dependência externa explicam o que se vê hoje no território: um interior coberto de rochas, montes de escória e o solo estéril onde é impossível criar agricultura ou floresta. “Parece o faroeste, pó por todo o lado, calor e um ar pesado”, explicam em conversa com o SAPO.
Num dos passeios, deram de caras com uma zona onde carros, eletrodomésticos e sucata se acumulam há décadas. “Não é lixo de ontem. É lixo de décadas”, conta Carla, que explica que, sem floresta, “tudo é visível”. Seja as pedreiras – muitas abandonadas –, as lixeiras ou os centros de detenção que a Austrália construiu e mantém em Nauru, onde mais de cem pessoas estão presas, sem julgamento, e com avisos da ONU sobre os abusos de direitos humanos que ali têm lugar.
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Uma das lixeiras em Nauru
Créditos: Viajar entre Viagens
Centros de processamento: detenção e maus-tratos pagos em dólares australianos
Se a linha de costa não está repleta por praias paradisíacas e o que se vê são corais estéreis e palmeiras cortadas, o interior da ilha é ainda mais desolador e onde se situam estes centros de processamento. É o nome oficial. De scooter, Carla e Rui, foram conhecer o interior de Nauru e tentar espreitar o que ali se passava.
No primeiro dia, um domingo, viram os contentores com pessoas a circular lá dentro, não havia segurança visível. Mas foi o mais perto que conseguiram chegar. Nos outros dias, havia pick-ups da empresa de segurança e avisos de que eram sítios privados e não se podia entrar.
Os centros de processamento em Nauru fazem parte da política australiana de offshore processing, que mantém fora do território australiano pessoas que tentaram chegar, ou já tinham chegado, à Austrália para pedir asilo. Inicialmente criada para requerentes de asilo intercetados no mar, a política foi alargada a outros casos administrativos, incluindo pessoas cujo estatuto legal foi revogado, e que acabaram transferidas e detidas para outros países por durante tempo indeterminado.
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Vista geral de um “centro de processamento” na ilha de Nauru, a 2 de setembro de 2018.
Créditos: Mike Leyral / AFP
A maioria das pessoas enviadas para Nauru são de países marcados por guerra e perseguição, como Afeganistão, Irão, Sri Lanka, Myanmar e Iraque. Muitos deles já reconhecidos como refugiados pelas próprias autoridades australianas, mas continuam num filme kafkiano de burocracia para conseguir permanecer no país, porque há uma política australiana que determina que quem foi enviado para detenção offshore, fica para sempre impedido de se estabelecer na Austrália, independentemente do estatuto de proteção.
Sara Mashalian é um destes exemplos. Aos 42 anos, vive e trabalha perto de Sydney. O seu pai, irmão e marido são cidadãos australianos, mas ela não. Chegou à Austrália de barco em 2013, com 29 anos, acompanhada pela mãe, depois de fugirem do Irão por se terem convertido ao cristianismo. Chegaram poucos dias após a entrada em vigor desta política, segundo a qual quem for enviado para detenção offshore não pode estabelecer-se nunca mais no país.
Sara e a mãe estiveram vários anos detidas em Nauru. Sara descreve, em entrevista à SBS News, Nauru como um lugar marcado pela falta de água potável, comida inadequada, alojamentos com bolor e um ambiente poluído pelas pedreiras de fosfato. Relata ainda assédio sexual por trabalhadores do centro, medo constante e consequências graves para a saúde física e mental: desenvolveu asma, dores crónicas e ansiedade. A mãe sofreu problemas cardíacos que obrigaram à evacuação médica da ilha.
Além de Nauru e inaugurado na mesma época, a Austrália chegou a ter outro centro deste género na ilha de Manus, na Papua-Nova Guiné, que foi formalmente encerrado no final de 2017 após ser considerado inconstitucional pela justiça local.
Há um ano, em janeiro de 2025, o Comité dos Direitos Humanos das Nações Unidas concluiu que a Austrália continua legalmente responsável pelas violações de direitos humanos cometidas contra pessoas enviadas para Nauru. A decisão não teve efeitos práticos.
Apesar dos alertas, seis meses depois da condenação da ONU, os dois países assinaram um novo acordo: a Austrália comprometeu-se a pagar cerca de 1,5 mil milhões de euros para continuar a enviar migrantes para Nauru. Hoje, o sistema mantém-se em funcionamento.
Desde 2012, mais de quatro mil pessoas, incluindo crianças, passaram por estes centros.
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Manifestantes em Melbourne protestam contra a detenção de refugiados em Nauru, a 8 de fevereiro de 2016
Créditos: Asanka Brendon Ratnayake / Anadolu Agency / AFP
Estes centros são considerados, pela Amnistia Internacional, como uma “prisão a céu aberto”, onde as pessoas estão detidas em condições que incluem negligência médica, isolamento prolongado e impactos severos na saúde mental. De forma semelhante, a Human Rights Watch documentou os mesmos padrões de abuso e maus-tratos e sublinha que a transferência forçada de requerentes de asilo para estas instalações, onde muitos, tal como Sara e a mãe, passaram anos sujeitos a condições desumanas, constitui uma violação de direitos fundamentais como a proteção contra a detenção arbitrária e tratamento cruel e degradante.
Apesar de todos os alertas, estima-se que atualmente possam estar cerca de cem pessoas nestes centros de Nauru.
Um país independente sem voz
Formalmente, Nauru é um Estado soberano e membro da ONU. Na prática, vive numa dependência permanente. “É um país que não tem condições para ser independente”, afirma Rui Pinto, contextualizando com as décadas de dependência económica e de degredo ambiental.
Nauru já levou a Austrália ao Tribunal Internacional de Justiça, acusando-a de não ter reabilitado os terrenos devastados pela exploração de fosfato quando administrava a ilha. O processo terminou em 1993 com um acordo extrajudicial, através do qual a Austrália pagou cerca de 60 milhões de euros em compensações e fundos de reabilitação ambiental.
Três décadas depois, a dependência económica mantém-se: os centros de detenção offshore financiados pela Austrália tornaram-se uma das principais fontes de receita de Nauru. Não há números oficiais, mas vários analistas e estudos independentes estimam que possa representar entre 20 a 40% do PIB da ilha. O acordo assinado há seis meses, no valor de cerca de 1,5 mil milhões de euros, reforça esse vínculo.
Comida sem validade e utopias válidas
Essa dependência sente-se no quotidiano. A maioria dos produtos é importada. Há poucos restaurantes, mercados e lojas. Carla e Rui dormiram num contentor: “Era um contentor igual ao da prisão”, dizem. E comeram alimentos fora do prazo. “É assim que funciona.”
Carla e Rui explicam que não foi fácil perceber o que é que os nauruanos pensam destas questões ou como é a relação com a Austrália. Dizem que sentiram as pessoas deprimidas. “No Pacífico, as pessoas são muito sorridentes e hospitaleiras, em Nauru isso não existe, as pessoas não são antipáticas, mas são fechadas”. À noite, as estradas ficam vazias, mais vazias e paradas que as restantes ilhas daquele oceano. “Há uma tensão no ar”, descreve Rui.
Apesar de não terem visto nada de chocante, falam de um peso difícil de explicar. “Saímos de Nauru consternados”, diz Rui. “E, egoisticamente, sentimos alívio por sair.”
Carla e Rui têm partilhado consistentemente, e de forma crítica, as suas viagens nas redes sociais. O que veem no mundo, após tantos anos de viagem, já não impressiona, mas continua a revoltar. Se no início das viagens, sentiam vontade de fazer algo para mudar o que viam de injusto no mundo, hoje sentem cada vez mais impotência.
Rui afirma que sentia que tinha de partilhar o que viam, “nem que seja para chegar a algumas pessoas e fazê-las pensar”. Carla diz que apesar da impotência, acredita que as coisas podem ser diferentes: “Se desistirmos dessa ideia de utopia, então não vale a pena viver.” Esta utopia não é um ideal abstrato, mas a recusa em aceitar um sistema que empurra certos países e certas pessoas para fora do olhar do mundo. E junta a isso uma certa dose de esperança: que alguém veja e que consiga fazer algo para mudar.
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Carla Mota e Rui Pinto em Nauru
Créditos: Viajar entre Viagens
Nauru não é um destino turístico, nem tem agora condições para o ser. É um lugar onde a exploração colonial, a degradação ambiental e as políticas migratórias se juntam num espaço tão pequeno onde fica tudo a céu aberto. “Há muitos sítios como Nauru no mundo”, diz Carla. “Este é só um dos que ainda se consegue ver.”