A HISTÓRIA:Após o impacto de um cometa que destruiu grande parte da Terra, a família Garrity é forçada a sair do refúgio subterrâneo na Gronelândia e a atravessar um mundo em ruínas. Numa luta pela sobrevivência, enfrentam um planeta devastado em busca de um novo lar e de uma segunda oportunidade para a humanidade.

“Greenland – Um Novo Começo”: nos cinemas desde 8 de janeiro de 2026.

Por Manuel São Bento (aprovado no Rotten Tomatoes. Membro de associações como OFCS, IFSC, OFTA. Veja mais no portfolio).
Classificação (0 a 5):  * * *

“Greenland – Um Novo Começo” é a primeira surpresa do ano, destacando-se como uma evolução notável ao primeiro filme “Greenland – O Último Refúgio” ao trocar o melodrama repetitivo por uma narrativa de sobrevivência mais tática e emocionalmente envolvente. Embora não esteja isento de falhas visuais ou conveniências de guião, a sequela compensa com prestações robustas e uma direção que sabe valorizar a escala da desolação. É uma experiência imersiva que prova que, mesmo quando o mundo acaba, ainda há espaço para encontrar caminhos novos no meio dos escombros, desde que estejamos dispostos a caminhar para a frente em vez de olharmos constantemente para o retrovisor.

Greenland – Um Novo Começo

Greenland – Um Novo Começo
Créditos: Cinemundo

A crítica

Mesmo numa tentativa recente de rever “Greenland – O Último Refúgio” (2020), na esperança de encontrar algo que me tivesse escapado, a maioria dos meus problemas manteve-se inalterada. A repetição exaustiva e o melodrama fabricado continuaram a impedir-me de conectar verdadeiramente com aquela história. No entanto, o cinema tem destas curiosidades: por alguma razão inexplicável, o meu cérebro convenceu-me de que a sequela poderia ser diferente. Entrei na sala de cinema moderadamente esperançoso, mas preparado para as mesmas convenções de sempre.

Realizado novamente por Ric Roman Waugh (“Assalto ao Poder”), com argumento de Chris Sparling (“Enterrado”) e Mitchell LaFortune (“Kandahar”), “Greenland – Um Novo Começo” transporta-nos para cinco anos após o evento de extinção que forçou a família Garrity a refugiar-se nos ‘bunkers’ da Gronelândia. Quando a vida subterrânea se torna insustentável, John (Gerard Butler, “Alerta Vermelho”), Allison (Morena Baccarin, “Deadpool”) e o agora adolescente Nathan (Roman Griffin Davis, “Jojo Rabbit”) são forçados a emergir para a superfície. O objetivo é atravessar uma Europa devastada e congelada em busca de um novo lar.

Greenland – Um Novo Começo

Greenland – Um Novo Começo
Créditos: Cinemundo

Fui genuinamente apanhado desprevenido. “Greenland – Um Novo Começo” revelou-se uma experiência superior ao seu antecessor. Narrativamente, a obra adota uma estrutura que, embora formulaica, funciona a seu favor. A progressão assemelha-se à lógica de um videojogo: cada sequência apresenta um desafio claro — seja um tiroteio tenso, a transposição de um obstáculo físico ou a necessidade de fuga. Contudo, ao contrário do primeiro filme, que dependia exaustivamente do ciclo da família separar-se e reunir-se, a sequela oferece variedade. A criatividade na construção destas fases manteve-me investido, pois não são apenas pessoas a correr em pânico; é uma família a resolver problemas táticos num mundo hostil.

Greenland – Um Novo Começo

Greenland – Um Novo Começo
Créditos: Cinemundo

Um dos pontos mais fortes desta continuação reside nas atuações. O elenco já tinha demonstrado competência, mas aqui o material permite-lhes atingir um patamar superior. Denota-se uma autenticidade nos momentos emocionais que faltava anteriormente; as interações sentem-se menos artificiais e mais como reações humanas genuínas perante o trauma. Butler brilha ao despir a capa de herói de ação invulnerável. O seu John Garrity não é um guerreiro incansável, mas um homem fisicamente debilitado, carregando o peso de meia década de escuridão e de vários “passeios” no exterior tóxico. Baccarin acompanha-o com ferocidade, evoluindo para uma pragmática realista, enquanto Davis transforma o filho num participante ativo na sua própria sobrevivência.

Greenland – Um Novo Começo

Greenland – Um Novo Começo
Créditos: Cinemundo

A hostilidade global é amplificada por uma cinematografia de Martin Ahlgren (“O Problema dos 3 Corpos”) que aproveita ao máximo a paisagem apocalíptica. “Greenland – Um Novo Começo” respira melhor fora do abrigo. Os planos gerais da destruição conferem uma escala épica e desoladora à jornada das personagens. Ver os destroços de uma civilização congelada — cidades em ruínas e o Canal da Mancha seco — oferece um peso temático que o original raramente alcançava. Aqui, o antagonista é a própria Natureza indiferente. O cenário torna-se uma personagem, lembrando constantemente aos protagonistas a sua insignificância perante a imensidão do desastre.

No entanto, nem tudo é irrepreensível visualmente. Os efeitos visuais continuam a ser um ponto de interrogação. Há momentos em que a qualidade oscila — possivelmente devido a limitações de orçamento ou tempo. Nunca chega a ser tão problemático como no original e existem planos digitais bem conseguidos que vendem a escala da devastação, mas a inconsistência é notável noutros planos mais abertos. Felizmente, a atmosfera criada pela cenografia prática e localizações reais ajuda a mascarar estas falhas digitais, mantendo a imersão.

Greenland – Um Novo Começo

Greenland – Um Novo Começo
Créditos: Cinemundo

Como é costume neste tipo de filmes de desastre, o argumento pede alguma suspensão da descrença quanto à gestão de recursos. Combustível e munições parecem, por vezes, convenientemente acessíveis num mundo que deveria estar esgotado. Contudo, estas questões de lógica de cinema tornam-se irrelevantes perante a eficácia da narrativa emocional. Estamos aqui pela viagem das personagens, não para auditar o inventário do apocalipse, sendo que o filme mantém o ritmo suficiente para não ficarmos presos nestes detalhes menores.

Greenland – Um Novo Começo

Greenland – Um Novo Começo
Créditos: Cinemundo

Existe, porém, uma omissão que merece destaque: a completa remoção da condição diabética do filho. Por um lado, sinto um alívio imenso, pois a constante procura pela insulina foi um dos elementos que mais me incomodou no filme anterior, devido a ser um clichê desnecessário para criar conflitos artificiais. Por outro lado, é estranho que um elemento de vida ou de morte seja agora ignorado sem grande explicação. É uma decisão que isoladamente melhora “Greenland – Um Novo Começo”, permitindo que o foco se desvie da doença para a dinâmica interpessoal, mas que cria uma dissonância curiosa para quem tem o primeiro capítulo fresco na memória.

Tematicamente, esta escolha também reflete a vontade de abandonar o peso morto do passado para contar uma história mais direta. A sequela explora a diferença entre sobreviver e viver. Enquanto o primeiro capítulo foi sobre o instinto de não morrer, este questiona o valor dessa sobrevivência num buraco de betão. A migração é tanto física quanto psicológica — a transição do medo para a aceitação de um novo mundo. Existe uma melancolia subjacente em ver estas personagens tentarem manter a sua humanidade quando as regras antigas já não se aplicam…