A vontade de Trump de ver o barril em torno dos 50 dólares ameaça a operação de alguns países já com dificuldades em manter a sua quota de mercado, mas, caso se verifique o desvio de fluxos antes destinados para a China, Pequim poderá ter de substituí-los por petróleo do Golfo, dando uma ajuda ao cartel.

FILE PHOTO: A oil pump is seen at sunset outside Scheibenhard, near Strasbourg, France, October 6, 2017. REUTERS/Christian Hartmann/File Photo

A Organização de Países Exportadores de Petróleo (OPEP) enfrenta uma das maiores ameaças existenciais com a decisão norte-americana de tomar e administrar o petróleo venezuelano, dada a vontade de Trump de manter a cotação internacional do ‘ouro negro’ baixa. Dado o excesso de oferta já existente no mercado, um aumento de produção na Venezuela levaria o petróleo a descer ainda mais, dificultando a viabilidade das explorações de alguns dos países mais pequenos do cartel, que já enfrentam dificuldades em manter a sua quota de mercado.

Trump tem vindo a reforçar repetidas vezes a vontade de extrair significativamente mais petróleo do sol venezuelano do que o regime de Nicolás Maduro estava a fazer, prometendo para isso revitalizar a infraestrutura do país. Segundo os analistas ouvidos pelo ‘Wall Street Journal’, este objetivo obrigará a fortes investimentos e bastante tempo, mas até um pequeno aumento de oferta poderá pressionar ainda mais os preços para baixo.

Isto coloca os países da OPEP numa posição difícil, em que novas tentativas de manter os preços baixos através de cortes de produção podem reduzir a receita mais do que impactar preços, ao passo que arriscam deteriorar a relação com o presidente norte-americano. Já pressionados pela iniciativa norte-americana com vista a baixar o preço do barril para próximo dos 50 dólares (42,8 euros), a organização decidiu este domingo não aumentar a produção nos próximos três meses.

Segundo algumas estimativas, alterações legislativas que tornem o sector petrolífero venezuelano mais atraente para as empresas norte-americanas poderão levar a um acréscimo de produção em torno dos 2 milhões de barris por dia (bpd), isto quando atualmente está abaixo de um milhão.

Por outro lado, se Trump procurar desviar os fluxos que Caracas enviava para a economia chinesa, Pequim poderá virar-se para os países do Golfo para repor este petróleo, beneficiando aquela parte do globo.

Segundo a análise da JPMorgan, as reservas combinadas da Guiana, Venezuela e EUA, controladas quase exclusivamente por grandes petrolíferas norte-americanas, significariam que Washington passaria a controlar cerca de 30% da oferta global total de petróleo. O banco de investimento projeta ainda que o barril de Brent caia para os 58 dólares (49,6 euros), isto quando está atualmente em torno dos 63 dólares (53,9 euros), mas preços abaixo de 50 dólares poderão tornar a operação de várias empresas norte-americanas inviável, isto depois de o sector ter sido dos mais fortes apoiantes de Trump.