Atuar em uma novela musical, como Coração Acelerado, a nova do horário das 7 da noite da TV Globo, é ficar com os olhos no texto e os ouvidos na playlist. É isso que Leticia Spiller, intérprete da personagem Janete, mãe da protagonista, a cantora revelação Agrado, papel dado a Isadora Cruz, tem feito.
De volta às telenovelas – sua última havia sido O Sétimo Guardião, de 2018 -, Leticia diz que tanto a personagem quanto a lista de músicas ainda estão em “construção”. Fã do sertanejo mais raiz, a atriz entra agora no mundo do feminejo e do sertanejo pop que darão o tom a Coração Acelerado, novela de Izabel de Oliveira e Maria Helena Nascimento.
“Algumas músicas eu já conhecia. Outras, estou descobrindo agora. Marília Mendonça, por exemplo, me emociona demais – as canções dela nos reviram por dentro”, afirma a atriz.
A atriz Leticia Spiller está de volta às novelas em ‘Coração Acelerado’ Foto: Catarina Ribeiro
Leticia também destaca a cantora Paula Fernandes, que será Maria Cecília, a mãe de Janete na trama – a personagem de Paula morre na primeira fase da novela, que se passa em 2006, 2016 e 2026 -, também tem sido inspiração.
Leticia explica que a heroína Janete, sua personagem, sofreu um grande trauma que a fez parar de cantar. A missão de soltar a voz ficará com Agrado, que realizará o sonho frustrado da mãe e da avó. Isso não significa que a mãe vai querer se projetar na filha. Pelo contrário, diz a atriz. “Há uma ancestralidade feminina muito bonita. A filha herdou o talento da mãe e da avó. A mãe acha a filha muito melhor do que ela”, diz.
A atriz evita spoilers, mas imagina que Janete, em determinada altura da história, vai voltar a cantar. Na fase na qual solta a voz, a primeira, a personagem cantará músicas como Caminhoneiro, de Erasmo e Roberto Carlos. “Quando fui ensaiar essa música, comecei a chorar. Escutava na minha vitrolinha. Mexe com nossa memória afetiva. Minha mãe era fã do Roberto”.
As “gavetinhas das emoções”
A atriz Leticia Spiller caracterizada com Janete para a novela ‘Coração Acelerado’: um trauma a tirou dos palcos, mas ela vê o sucesso da filha Foto: Manoella Mello/Globo
Para compor Janete, Leticia abriu “gavetinhas de emoções” que, segundo ela, são ferramentas tão fundamentais na profissão de ator. “Ser mulher ainda é difícil neste País, que ainda é machista, que ainda mata mulheres, infelizmente. Isso me dá uma tristeza muito grande. Precisamos estar unidas”, diz.
Leticia se sente feliz em estar em uma trama com protagonismo feminino. “Nenhuma das três precisou de homem para chegar aonde chegou. Janete, inclusive, é vítima de machismo e preconceito. Ela poderia ter se submetido ao namorado, mas escolheu não abrir mão de seus sonhos e de sua dignidade. É para isso que eu torço: para que nós, mulheres, tenhamos força e coragem para nos libertarmos”.
Aos 52 anos, Leticia diz estar honrada pela mulher que se transformou ao longo dos anos. “Tenho orgulho de ter me tornado uma loba. Não apenas pela idade, mas uma loba no melhor sentido”, diz, ao citar o livro Mulheres que Correm com os Lobos, da escritora e psicóloga americana Clarissa Pinkola Estés. A publicação, de maneira geral, chama a atenção para que mulheres não se percam de seus instintos no amor, na profissão, no sexo, entre outras áreas.
“Esse livro virou uma bíblia para mim. Eu converso sobre ele com a minha filha. São histórias que nos alertam para as distrações do caminho”, resume. A atriz é mãe do ator Pedro Novaes, de 29 anos, e de Stella, de 14 anos.
Leticia começou a carreira muito cedo – ao integrar o grupo Paquitas, as assistentes do programa Xou da Xuxa -, e virou um ídolo adolescente. Teve que fazer escolhas, como todo mundo, mas diz que sempre soube o que queria da vida. “Eu sempre fui danada. Ninguém me tira do meu caminho. E minha filha também tem uma personalidade forte, e eu prefiro que ela seja assim”.
Família é tema de interesse de Leticia. Além de apoiar Stella, que ainda está se descobrindo – a adolescente já fez curso de teatro musical -, ressalta o homem e o profissional que Pedro se tornou. Atualmente no ar como Leonardo em Três Graças, o ator interpreta um herdeiro de um império farmacêutico que se apaixona por uma mulher trans, Viviane, interpretada pela atriz Gabriela Loran.
“O Pedro faz parte de uma geração que já tem outra cabeça. Ele não tem o menor preconceito, tem amizade com pessoas diversas, o que é muito positivo para eles. É uma forma evoluída de ver o mundo. Ele é de uma personalidade mais empírica, que o tornou sensível. Não é à toa que o Pedro está fazendo esse personagem. Nós, artistas, temos uma missão”, afirma.
A relação com as críticas
Letícia Spiller com Babalu em ‘Quatro por Quatro’ Foto: Acervo /Globo
A calma com que Leticia olha para a vida foi conquistada. Ela se diz “meio desligada”. Coloca a culpa no signo de ar, gêmeos. No entanto, declara que foi o tempo e as práticas que escolheu trouxeram a tranquilidade. “Eu era mais ansiosa, espoleta e impaciente. A ioga, a meditação e os ritos tibetanos me trouxeram mais serenidade. Ritualizar a vida é importante”, explica.
Os ritos também lhe deram condições de olhar para as críticas de maneira condescendente. Leticia acha graça quando a reportagem cita uma entrevista da comediante Dercy Gonçalves (1907- 2008) para o programa Roda Viva, da TV Cultura, em 1995.
Nesta época, Leticia fazia sucesso como Babalu, sua primeira protagonista, na novela Quatro por Quatro, na qual fazia par romântico com Marcello Novaes, que se tornaria seu marido fora das telas.
Dercy afirmou que a imprensa não devia usar os mesmos adjetivos que usava para ela com Leticia – a quem ela chama a todo momento de Babalu. “[Se você fizer isso], me sinto a Babalu. Deem oportunidade para os jovens, mas não os iluminem tanto porque eles caem lá de cima”, afirmou a veterana atriz.
Leticia afirma não lembrar se viu a entrevista na época ou em algum outro momento. Tem apenas confiança no seu trabalho e de tudo que mostrou de lá para cá como atriz.
“Entendo a Dercy. Ser famoso não é a questão. Sucesso não é o objetivo. O objetivo é o caminho, a busca e o aprendizado. Recebi muitas críticas, sim, mas sempre tive certeza da minha vocação. Crítica é a opinião de cinco, de dez pessoas. E eu mesma, que acredito em mim? É ter maturidade e seguir”, diz.