Pesquisa abre caminho para remédio que simula exercício. (Foto: Pexels via Canva) Fala Ciência
A atividade física sempre foi considerada uma das principais aliadas da saúde óssea, mas até recentemente pouco se sabia sobre como o corpo transforma o movimento em ossos mais fortes. Porém, uma descoberta científica revela que esse processo não é apenas mecânico, mas também molecular. Pesquisadores identificaram um mecanismo biológico capaz de explicar como o exercício protege o esqueleto e, mais surpreendente ainda, como esse efeito pode ser reproduzido por medicamentos.
O avanço foi descrito no estudo “Activation of Piezo1 suppresses bone marrow adipogenesis to prevent osteoporosis via inhibition of a mechanoinflammatory autocrine circuit”, publicado na revista Signal Transduction and Targeted Therapy, assinado por Baile Wang et al.
O papel da medula óssea no enfraquecimento do esqueleto
Com o envelhecimento, os ossos se tornam progressivamente mais porosos e frágeis. Um dos fatores centrais desse processo ocorre dentro da medula óssea, onde células-tronco mesenquimais podem seguir dois caminhos distintos: formar novo tecido ósseo ou se transformar em células adiposas.
Em condições ideais, o estímulo mecânico do exercício direciona essas células para a formação óssea. No entanto, com a idade e a redução da mobilidade, cresce a tendência de acúmulo de gordura na medula, o que enfraquece ainda mais o esqueleto e alimenta um ciclo de perda óssea difícil de reverter.
Piezo1: o sensor molecular do exercício
Ativação da Piezo1 reduz gordura na medula óssea. (Foto: Getty Images via Canva) Fala Ciência
O ponto central da descoberta está na proteína Piezo1, localizada na superfície das células-tronco da medula óssea. Essa proteína atua como um verdadeiro sensor mecânico, capaz de detectar estímulos gerados pelo movimento corporal. Quando ativada, a Piezo1 reduz o acúmulo de gordura na medula óssea e favorece a formação de novo osso.
Em modelos experimentais, a ativação dessa via manteve a resistência óssea mesmo com o avanço da idade. Em contraste, a ausência da Piezo1 levou ao aumento da adiposidade na medula, intensificou a perda óssea e estimulou sinais inflamatórios que bloqueiam a regeneração do tecido ósseo.
Um novo caminho para tratar a osteoporose
Esse entendimento abre uma possibilidade inédita: imitar biologicamente os efeitos do exercício. Ao ativar quimicamente a via da Piezo1, seria possível induzir o organismo a responder como se estivesse em movimento, mesmo em pessoas com mobilidade limitada.
Essa abordagem pode beneficiar especialmente:
- idosos com risco elevado de fraturas
- pacientes acamados ou com doenças crônicas
- pessoas impossibilitadas de praticar exercícios regulares
Além de fortalecer os ossos, a ativação controlada dessa via pode reduzir inflamações locais e restaurar o equilíbrio da medula óssea.
O futuro dos tratamentos ósseos
Embora ainda em fase experimental, a descoberta estabelece bases sólidas para o desenvolvimento de medicamentos miméticos do exercício, capazes de preservar a massa óssea e reduzir o risco de fraturas. A longo prazo, essa estratégia pode complementar ou até transformar as abordagens atuais contra a osteoporose, oferecendo mais autonomia e qualidade de vida a populações vulneráveis.