Os Estados Unidos instaram os seus cidadãos a abandonar o Irão de imediato e aconselharam-nos a considerar fazer a saída do país por terra, para a Turquia ou para a Arménia, através de um aviso divulgado nesta terça-feira pela embaixada virtual dos EUA em Teerão.
O Irão está actualmente a assistir às maiores manifestações antigovernamentais dos últimos anos, numa altura em que a Administração Trump pondera como responder à situação no país do Médio Oriente.
O Presidente dos Estados Unidos apelou nesta terça-feira aos iranianos para que continuem a protestar e afirmou, sem fornecer pormenores, que a ajuda está a caminho, uma indicação de que poderá ter posto de parte a pressão diplomática e optado por uma acção militar contra o regime de Teerão. “Iranianos patriotas, continuem a protestar – assumam o controlo das vossas instituições!!! A ajuda está a caminho”, escreveu o Presidente norte-americano na Truth Social.
O ministro da Defesa iraniano, Aziz Nafizardeh, já respondeu e avisou que o seu país atacará as bases dos EUA na região caso seja lançada uma ofensiva. “O Irão atacará as bases norte-americanas se for atacado”, afirmou o ministro da Defesa, segundo a agência de notícias local Mehr.
O ministro afirmou que “todas as bases norte-americanas e as bases militares de outros países da região que auxiliem os EUA em ataques contra o território iraniano serão consideradas alvos legítimos”. “A resposta iraniana será dolorosa para os inimigos” caso o Irão seja atacado, declarou o oficial militar.
Em entrevista à CBS News também nesta terça-feira, Trump prometeu “medidas muito fortes” caso o Irão começasse a executar manifestantes, mas não deu detalhes. “Se eles os enforcarem, verão algumas coisas”, disse.
Horas depois, já nesta quarta-feira, o responsável máximo pela Justiça iraniana, Gholamhossein Mohseni-Ejei, anunciou julgamentos sumários e possíveis execuções para as pessoas detidas por terem participado nos protestos. “Se quisermos fazer o trabalho, temos de fazê-lo já. Se quisermos fazer alguma coisa, temos que fazê-la rapidamente”, disse Mohseni-Ejei num vídeo partilhado pela televisão estatal iraniana, acrescentando que, “se demorar dois ou três meses, não terá o mesmo efeito”.
Número de mortos continua a subir
O aviso norte-americano dá-se numa altura em que o número de mortos causado pela repressão aos protestos já poderá ascender aos milhares. Um responsável iraniano, citado pela Reuters, afirmou nesta terça-feira que terão morrido mais de duas mil pessoas, após mais de duas semanas de protestos.
Uma organização não governamental (ONG) criada por exilados iranianos estimou, já nesta quarta-feira, que o número de vítimas seja de 2571. De acordo com a Agência de Notícias dos Activistas pelos Direitos Humanos (HDRANA, na sigla em inglês), com sede nos Estados Unidos, 2403 das vítimas mortais eram manifestantes e 147 estavam ligados ao Governo.
O grupo afirmou na terça-feira que 12 crianças foram mortas, juntamente com nove civis que não participavam nos protestos. O número de detidos também aumentou para mais de 18 mil pessoas.
O número divulgado pela ONG supera em muito o número de mortos de qualquer outra onda de protestos ou distúrbios no Irão em décadas e faz lembrar o caos que envolveu a Revolução Islâmica de 1979 no país.
Skylar Thompson, da HDRANA, disse à agência de notícias Associated Press que a situação é chocante, sobretudo porque o número de mortos superou, em apenas duas semanas, o número de vítimas dos protestos após a morte de Mahsa Amini em 2022, quando estava sob custódia da “polícia da moralidade”. “Estamos horrorizados, mas ainda achamos que o número é conservador”, declarou.
O ministro dos Negócios Estrangeiros da França, Jean-Noël Barrot, disse nesta quarta-feira que a resposta às manifestações poderá ser “a mais violenta da História contemporânea do país”. “Suspeitamos que esta seja a repressão mais violenta da História contemporânea do Irão e que precisa de parar imediatamente”, referiu Barrot.
Manifestante deverá ser executado
Erfan Soltani, de 26 anos, um dos milhares de manifestantes detidos nos últimos dias, poderá ser executado nesta quarta-feira, após ter sido “julgado, condenado e sentenciado”.
A Amnistia Internacional apurou que as autoridades iranianas comunicaram, a 11 de Janeiro, à família de Soltani que o jovem tinha sido condenado à morte. O jovem foi detido em Karaj, cidade nos arredores de Teerão, e tinha perdido o contacto com familiares a 8 de Janeiro, durante os protestos e depois de os serviços de Internet terem sido bloqueados pelo regime, afirmou a Amnistia Internacional.
A Amnistia Internacional alertou que as autoridades iranianas podem “recorrer mais uma vez a julgamentos sumários e execuções arbitrárias para esmagar e deter a dissidência”.
A televisão estatal iraniana reconheceu nesta terça-feira, pela primeira vez, um elevado número de mortes na sequência dos protestos, afirmando que foram registados “muitos mártires”. Um apresentador leu uma declaração que dizia que “grupos armados e terroristas” levaram o país “a entregar muitos mártires a Deus”, embora sem detalhar qualquer número.
Os meios de comunicação social estatais noticiaram que pelo menos 121 membros das forças militares, policiais, de segurança e judiciais da República Islâmica morreram durante os protestos, segundo outra ONG, a Human Rights Iran (HRINGO).
Com a Internet em baixo no país, tem sido difícil avaliar o impacto real das manifestações a partir do estrangeiro, apesar de os iranianos terem na terça-feira conseguido voltar a fazer chamadas internacionais. O fornecedor de Internet por satélite Starlink estará a oferecer agora serviço gratuito no Irão.
Esta vaga de protestos teve início a 28 de Dezembro, em Teerão, altura em que comerciantes e sectores económicos afectados pelo colapso do rial, a moeda iraniana, e pela elevada inflação, saíram à rua. Acabaram por se alastrar a mais de 100 cidades do país.
A taxa de inflação anual é superior a 42% e, durante o ano passado, o rial perdeu 69% do seu valor face ao dólar, num contexto em que a economia foi fortemente atingida pelas sanções dos Estados Unidos e da ONU devido ao programa nuclear de Teerão.
As autoridades iranianas receberam inicialmente com compreensão os protestos, mas, entretanto, endureceram a sua posição e repressão contra os manifestantes, que passaram a ser tratados como terroristas associados aos Estados Unidos e Israel, a que se juntaram, depois, relatos de condenações à morte de manifestantes detidos.