O novo medicamento para prevenção do HIV-1, aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) nesta segunda-feira, é considerado um avanço e deverá auxiliar ainda mais nas alternativas para a profilaxia pré-exposição (PrEP). O fármaco chamado Sunlenca (lenacapavir) impede a replicação do vírus e estará disponível em forma de comprimido oral ou por injeção subcutânea. Ele tem uma ação diferente, agindo na cápsula do vírus, fazendo com que não consiga se duplicar.

A indicação do remédio é para adultos e adolescentes a partir de 12 anos que estejam sob risco de contrair o vírus. Os estudos clínicos apresentados pela Anvisa, PURPOSE 2, demonstraram 100% de eficácia do Sunlenca na redução da incidência de HIV-1 em mulheres cisgênero, 96% de eficácia em comparação com a incidência de HIV de base e 89% superios à PrEP oral diária. O lenacapavir já é indicado como opção adicional para PrEP desde julho de 2025, a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Por enquanto, sem previsão para incorporação ao SUS

O medicamento ainda não está incorporado no Sistema Único de Saúde (SUS). Em nota, o Ministério da Saúde informou que, para que que isso aconteça, precisa, além do registro na Anvisa, de um preço máximo estabelecido pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED) e a aprovação na Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec), que analisa critérios como eficácia, segurança e análises de custo-efetividade. Esses passos seguintes ainda estão sendo executados.

A pasta informou, no entanto, que não há, até o momento, nenhum pedido de análise para incorporação do lenacapavir. Qualquer pessoa física ou jurídica, incluindo pacientes, profissionais de saúde, sociedades médicas e fabricantes, pode demandar a incorporação ou alteração de tecnologias na Conitec.

“Avanço imenso”

A aprovação tem sido vista de forma positiva e com esperança em grupos voltados aos direitos das pessoas que convivem com o HIV, mas também com exigências. “A aprovação do lenacapavir pela Anvisa é um avanço imenso nas possibilidades de prevenção, mas agora o que a gente precisa é que ela seja incorporada no SUS”, afirma a coordenadora executiva do Fórum Ong Aids RS, que reúne 48 organizações gaúchas voltadas à prevenção e conscientização acerca da epidemia de HIV/AIDS, Márcia Leão. Porém, ela salienta que, mais do que a aprovação para que a medicação possa ser comercializada no Brasil, é necessário que ela esteja disponível enquanto estratégia de prevenção.

A aprovação foi recebida com expectativa e esperança entre os participantes do fórum, afirma. “Representa mais autonomia, mais adesão e com isso também mais possibilidades reais de se reduzir novas infecções”, diz Márcia. E completa: “Se trata de uma tecnologia que ela é inovadora, por ser de longa duração e que amplia só de forma significativa as opções de prevenção, especialmente para as pessoas que enfrentam dificuldades no uso diário da PrEP oral, porque não é todo mundo que consegue fazer o uso diário. Como ele vai ser de longa duração, facilitaria isso”.

Carla Almeida, presidente do Grupo de Apoio à prevenção da AIDS (GAPA-RS), afirma que a concessão de registro é importante, mas que ainda há uma longa jornada para sua disponibilidade. “As perspectivas não são muito promissoras, especialmente pelos custo abusivos praticados pela indústria farmacêutica. Nós temos reafirmado que o acesso a novas estratégias e tecnologias de prevenção é um direito e, neste sentido, o governo tem que garantir o acesso a PrEP de longa duração”, diz.

O que é a PrEP

A profilaxia pré-exposição (PrEP) faz parte da chamada “prevenção combinada”, que inclui outras medidas como testagem regular para HIV, uso de preservativos, tratamento antirretroviral (TARV), profilaxia pós-exposição (PEP) e cuidados específicos para gestantes soropositivas. É a principal forma de proteção ao vírus do HIV, podendo ser tomada diariamente ou quando a pessoa tiver uma possível exposição de risco.

“A grande importância é evitar a infecção pelo HIV em pessoas que não vivem com HIV”, resume o coordenador da Infectologia do Hospital Conceição, André Machado. O medicamento é indicado para pessoas sexualmente ativas, tanto homens que fazem sexo com homens, como bissexuais e heterossexuais. Se usada de maneira adequada, ela previne em até 98% o risco de infecção pelo vírus.

O médico também salienta que o medicamento não substitui o uso de preservativo. Ela ocorre em um contexto de proteger aquele indivíduo que se põe sexualmente desde que ocorra um acidente com preservativo. “A gente vê hoje, cada vez mais frequente, as pessoas procurarem a PrEP para não usarem o preservativo. Isso é um equívoco, porque o preservativo continua protegendo contra outras ISTs”, afirma.

É recomendada, ainda, a avaliação com exames sorológicos, idealmente a cada 4 meses, para avaliar o status ou caso se apresente qualquer sintoma sugestivo de infecção.

Eficácia é superior à medicação diária

Os dados apontam o medicamento aprovado pela Anvisa com uma eficácia superior ao da dose diária, principalmente, porque não obriga as pessoas a tomarem o remédio todos os dias, aponta o infectologista do Conceição.

“Não que o Truvada [medicamento oral da PrEP] seja ruim: ele tem uma excelente eficácia e em termos de prevenção de infecção pelo HIV, mas desde que o indivíduo que se dispõe a usar essa estratégia, tome remédio todos os dias”, explica. A eficácia do uso oral diminui proporcionalmente à quantidade de vezes que o remédio é consumido. “Quando tu tens a opção de uma medicação injetada de depósito que te obriga a fazer duas injeções por ano, mantendo uma ação da medicação que protege, é evidente que ela é superior em termos de eficácia”.

Para o infectologista, o fato da Anvisa ter se manifestado quanto à padronização dessa medicação no Brasil é um grande passo. “Reconhece a importância dessa estratégia terapêutica, é uma medicação já então consolidada em termos de prevenção, é segura. Agora, o próximo passo é começar a elaborar estratégias que permitam a aplicabilidade dessa prevenção na população do Brasil”, afirma.

Epidemia silenciosa no RS

O Rio Grande do Sul vive uma epidemia silenciosa do vírus do HIV. A macrorregião metropolitana de saúde do Estado tem 1 a cada 50 pessoas convivendo com o vírus. É o que aponta um estudo recente conduzido pelo Hospital Moinhos de Vento e publicado em 2025. A prevalência do HIV foi de 1,64%, encaixando-se em uma epidemia generalizada do vírus.

“O que a gente observa é que existem grandes desigualdades regionais, como no Rio Grande do Sul. A gente tem uma prevalência de HIV maior que os outros lugares do Brasil. É uma infecção generalizada, mas a gente tem que entender também que o HIV, hoje em dia, é um agravo de desigualdade”, afirma a epidemiologista Eliana Wendland, coordenadora de estudos no Hospital Moinhos de Vento sobre a prevalência do HIV. Certos grupos populacionais, como pessoas negras e socialmente vulneráveis apresentam maior risco de adquirir HIV.

De acordo com o boletim epidemiológico da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, do Ministério da Saúde, no Rio Grande do Sul, em 2025, foram registradas 3024 pessoas vivendo com HIV ou Aids, por região e Unidade Federativa (UF) de residência. Entre os municípios com 100 mil habitantes ou mais, observa-se que, entre os 20 primeiros colocados no ranking, cinco pertencem aos estados do Rio Grande do Sul e do Pará. Até outubro de 2025, havia cerca de 1.770 casos de HIV notificados, segundo a Secretaria Estadual da Saúde.

Em 2024, foram notificados 6.819 casos de crianças expostas ao HIV. O Rio Grande do Sul também está em terceiro lugar entre as UF que mais notificaram casos no mesmo ano (11,4%). De acordo com a Secretaria da Saúde de Porto Alegre, a Capital apresentou 1.321 casos novos de infecção pelo HIV em 2024, representando 43% dos casos do Rio Grande do Sul, sendo 590 casos de HIV e 731 de Aids.

No último boletim epidemiológico do Ministério da Saúde, publicado nesta segunda-feira, a capital gaúcha apresentou redução nas taxas de detecção de HIV, de gestante HIV e de mortalidade por Aids em relação ao ano anterior. Entretanto, Porto Alegre permanece como a capital brasileira com a maior taxa de detecção de gestante HIV (14,9 casos/mil nascidos vivos – correspondendo a 4,7 vezes a taxa nacional e o dobro da taxa estadual) e maior taxa de mortalidade por Aids (12 óbitos/100 mil habitantes).

No entanto, o chefe da seção de doenças de condições crônicas transmissíveis da Secretaria Estadual da Saúde, Jonatan Pereira, lembra que também houve grandes progressos no enfrentamento à epidemia. A taxa de detecção de HIV para o ano de 2024 (22,4 casos para cada 100.000 habitantes) foi 25% menor comparada à taxa de 2014, uma redução muito expressiva. O coeficiente de mortalidade padronizado, que foi de 12 óbitos para cada 100.000 habitantes, foi 44% menor em relação à 2014.

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Informação e campanhas de prevenção são o caminho

Apesar de eficaz, o uso da PrEP ainda é baixo. A epidemiologista Eliana Wendland lembra que os principais fatores envolvem a forma de administração, com o uso diário, mas principalmente o estigma. “Existe todo um estigma, não só com HIV, mas com todas as ISTs, pela sua forma de transmissão, que é transmissão sexual, e as pessoas têm dificuldade de se expor dessa forma”.

Márcia, do Fórum Ong Aids RS, também salienta que a desinformação é um fator de estigma da doença. O preconceito e o estigma é o que afasta as pessoas, tanto das estratégias de prevenção, como da busca pelo diagnóstico e até do tratamento. Investir em informação, que seja de qualidade, em educação sexual, em comunicação pública que seja responsável, é fundamental”, diz.

Ela também pontua que a qualidade das informações sobre o vírus passadas à população ainda é pequena, com poucos investimentos em campanhas de prevenção. “Prevenir é garantir acesso para essas diferentes estratégias também, né, como uso de preservativo, gel, testagem, a questão da PEP, da PREP e agora mais essa nova tecnologia do lenacapavir, mas também tem que se respeitar as realidades e as escolhas das pessoas”.