Mais de uma dezena de procuradores federais decidiram abandonar o Departamento de Justiça (DOJ, na sigla original) dos Estados Unidos, em desacordo com a condução do caso da morte de uma mulher desarmada, Renee Good, em Mineápolis, no estado do Minnesota, depois de ter sido atingida a tiro por agentes do ICE, a polícia federal norte-americana de imigração.

Diversas fontes citadas na terça-feira por órgãos de comunicação social como o New York Times, o Washington Post, a NBC News ou a Reuters, entre outros, falam em demissões em Mineápolis e Washington D.C. de procuradores que vêem na actuação da liderança do DOJ um alinhamento com a estratégia definida pela Administração Trump de subtrair responsabilidades ao ICE e de as colocar sobre Good.

Descrita por Trump como uma “desordeira” e uma “agitadora profissional” e acusada de outros membros do Governo norte-americano de ter levado a cabo um “um acto de terrorismo doméstico” para “impedir” uma operação policial, Good, 37 anos e mãe de três filhos, foi atingida na semana passada por um agente policial, dentro do seu carro, depois de lhe terem ordenado que desimpedisse a via.


O ICE e a Casa Branca garantem que a mulher tentou atropelar os polícias, mas três vídeos publicados em sites noticiosos locais e nas redes sociais, gravados por testemunhas que se encontravam por ali, parecem mostrar a viatura de Good a recuar e a tentar reiniciar a marcha para abandonar o local, antes de a condutora ser atingida por tiros disparados a curta distância.

Segundo a Reuters, pelo menos seis procuradores federais do Minnesota demitiram-se na sequência de pressões exercidas pela hierarquia do DOJ para que abrissem uma investigação à viúva da vítima. A NBC diz que que o departamento liderado pela procuradora-geral, Pam Bondi, pretendia saber se a mulher de Good teria algum tipo de ligação a grupos activistas.

Os procuradores demissionários também demonstraram preocupação com o afastamento das autoridades estaduais e locais das investigações ao caso, decisão que já tinha sido criticada por Tim Walz, governador democrata do Minnesota.


“[Estas demissões] são uma perda enorme para o nosso estado. É o mais recente sinal de que o Presidente Trump está a afastar profissionais de carreira apartidários do Departamento de Justiça”, denunciou, citado pela NBC.

Outros seis procuradores, pelo menos, também informaram o DOJ que pretendiam abandonar os respectivos cargos na Divisão de Direitos Civis do departamento. Neste caso, as saídas justificam-se com a decisão, anunciada na terça-feira por Todd Blanche, vice-procurador-geral, de não abrir um inquérito nesta divisão. “Não existe fundamento para uma investigação criminal sobre direitos civis”, justificou.

Neste sentido, as investigações que estão em curso são da responsabilidade do FBI e do próprio ICE, que está a levar a cabo um inquérito interno ao sucedido, liderados por figuras próximas a Donald Trump.

O Washington Post noticia que a Divisão de Direitos Civis do DOJ “alterou dramaticamente a sua missão” desde que o Presidente republicano assumiu o cargo, há cerca de um ano, lembrando que mais de 400 funcionários abandonaram os respectivos cargos ao longo do ano passado.

Em declarações à Reuters, Mary Moriarty, procuradora em Mineápolis, disse que as demissões no Departamento de Justiça mostram que os procuradores de carreira “não estão a ser autorizados” pela Administração Trump a “fazer o seu trabalho”. “E isso deve-se à política, não é por causa do que aconteceu verdadeiramente aqui”, acredita.