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Erfan Soltani terá tido, apenas, 10 minutos para se despedir da família. As autoridades iranianas deixaram claro, junto do prisioneiro e da sua família, que aquela seria a última vez que se veriam uns aos outros, já que o jovem tinha sido sumariamente condenado por “guerra contra Deus”. No Irão, isso vale pena de morte e, para o regime, as pessoas que estão a participar nas intensas manifestações no país estão a cometer esse crime. O jovem poderá, segundo várias ONG (como a Amnistia Internacional), ser o primeiro a ser executado pela participação nestes protestos que já provocaram a morte de milhares de pessoas no Irão.
Depois de Donald Trump avisar que não irá aceitar execuções de manifestantes, a confirmar-se o enforcamento de Erfan Soltani poderá ter implicações muito relevantes para a forma como esta crise geopolítica se irá desenvolver. Trata-se de um jovem de 26 anos que foi detido em casa, sem que houvesse relatos públicos de antes disso estar envolvido em política de forma organizada — ou seja, não era conhecido como um influente ativista político.
Segundo fontes citadas por meios independentes como o IranWire, Erfan Soltani trabalha na indústria de vestuário e tinha começado recentemente a trabalhar numa empresa privada. Pessoas próximas e publicações em redes sociais mostram-no como alguém que gosta de exercício físico e de um estilo de vida saudável. Interessado por desporto e moda, levava uma vida relativamente simples, com interesses comuns à generalidade dos jovens da sua geração.
Foto retirada da rede social Threads (@erfn_sy)
Antes de ser preso, Soltani já teria dito à família que recebera mensagens ameaçadoras das forças de segurança e que estava a ser vigiado. Mas continuou a participar nas manifestações, recusando-se a desistir.
Residente na zona de Karaj, acabou por ser detido em casa no dia 8 de janeiro e, ao longo de vários dias, a família não soube nada sobre o seu paradeiro. Só no último dia 11 de janeiro (outros relatos apontam para dia 12) é que a família terá sido contactada por agentes das forças de segurança que confirmaram que o jovem estava detido e que já tinha sido condenado à morte.
A irmã é advogada e terá sido, segundo a mesma fonte, impedida de consultar o processo ou de encetar qualquer tipo de esforço para defender o irmão. Não se sabe, aliás, se houve um julgamento formal em que Erfan Soltani tenha sido defendido por um advogado. Mesmo que tenha havido, foi um julgamento feito em tempo recorde.
“A família está sob extrema pressão“, disse ao IranWire uma fonte próxima da família, que revelou que esta estava a ser ameaçada para não falar publicamente sobre o caso. Quando rejeitaram partilhar o processo com a irmã, advogada, ter-lhe-ão dito: “Não há processo para analisar. Qualquer pessoa presa nos protestos será executada. A sentença de Erfan é Moharebeh (Inimizade contra Deus) é definitiva e será cumprida”.
A notícia foi inicialmente divulgada por Ebrahim Allah-Bakhshi, um ativista político exilado, que publicou no X (antigo Twitter) que “Erfan Soltani foi detido na quinta-feira, 8 de janeiro, e a sua execução está marcada para quarta-feira, 14 de janeiro” – ou seja, esta quarta-feira.
Justiça iraniana anuncia julgamentos sumários e execuções para manifestantes detidos
O responsável máximo pela Justiça iraniana, Gholamhossein Mohseni-Ejei, anunciou nesta quarta-feira julgamentos sumários e possíveis execuções para as pessoas detidas por terem participado nos recentes protestos contra o atual regime da República Islâmica persa – uma informação que, pelo timing em que foi divulgada, reforça os receios de que Erfan Soltani possa mesmo ser executado nas próximas horas ou dias.
“Se quisermos fazer o trabalho, temos de fazê-lo já. Se quisermos fazer alguma coisa, temos que fazê-la rapidamente”, disse Mohseni-Ejei, acrescentando que, “se demorar dois ou três meses, não terá o mesmo efeito”. Trump já tinha declarado antes que se as autoridades iranianas “fizerem algo assim”, os EUA vão “tomar medidas muito fortes”.
O Irão é o segundo país que mais pessoas executa no mundo, a seguir à China. No ano passado, pelo menos 1.500 pessoas foram enforcadas, de acordo com o grupo de defesa dos direitos humanos Iran Human Rights, sediado na Noruega.