Ciência

Estudo revela que a espécie manteve estabilidade genética até à extinção, sugerindo um colapso populacional súbito causado pelo aquecimento do clima e não um declínio gradual ou caça humana.

Fotografia do filhote de lobo Tumat-1 em  Viena, 2018

Fotografia do filhote de lobo Tumat-1 em Viena, 2018

Mietje Germonpré

Investigadores do Centro de Paleogenética, na Suécia, conseguiram analisar o genoma completo de um rinoceronte-lanoso com cerca de 14.400 anos, a partir de uma amostra de tecido preservada no estômago de um lobo da Idade do Gelo.

O estudo, publicado dia 14 de janeiro na revista Genome Biology and Evolution, indica que os rinocerontes-lanosos (ou lanudos) permaneceram geneticamente saudáveis até ao final da última Idade do Gelo. A extinção da espécie terá, assim, resultado de um colapso populacional repentino e não de um declínio lento e prolongado.

“A sequenciação do genoma completo de um animal da Idade do Gelo encontrado no estômago de outro animal nunca tinha sido feita”, afirma Camilo Chacón-Duque, autor do estudo e antigo investigador do Centro de Paleogenética, uma colaboração entre a Universidade de Estocolmo e o Museu Sueco de História Natural.

A amostra analisada provém dos restos congelados de um lobo da Idade do Gelo descobertos no permafrost, perto da aldeia de Tumat, no nordeste da Sibéria. Durante a autópsia, os investigadores encontraram um pequeno fragmento de tecido bem preservado no estômago do animal.

A datação por radiocarbono revelou que o tecido tinha cerca de 14.400 anos. A análise genética confirmou tratar-se de um rinoceronte-lanoso (Coelodonta antiquitatis) e um dos exemplares mais jovens alguma vez identificados.

Um pedaço de tecido de rinoceronte-lanoso encontrado dentro do estômago da cria Tumat-1. As pequenas marcas de corte são da recolha de ADN realizada no Centro de Paleogenética em Estocolmo, em 2020.

Love Dalén/Universidade de Estocolmo

“Foi realmente entusiasmante, mas também muito desafiante, extrair um genoma completo a partir de uma amostra tão invulgar”, explica Sólveig Guðjónsdóttir, autora principal do estudo, que realizou este trabalho no âmbito da sua tese de mestrado na Universidade de Estocolmo.

Mapear um genoma a partir deste tipo de material é particularmente difícil. O ADN antigo está geralmente muito degradado e em quantidades muito pequenas, problema agravado pela presença de ADN do predador.

Estabilidade genética até à extinção da espécie

A equipa comparou o genoma do rinoceronte-lanoso de Tumat com outros dois genomas de alta qualidade, provenientes de espécimes mais antigos, datados de há cerca de 18.000 e 49.000 anos. A comparação permitiu avaliar a evolução da diversidade genética, os níveis de consanguinidade e a acumulação de mutações potencialmente prejudiciais ao longo da última Idade do Gelo.

Os resultados não revelaram sinais de deterioração genética à medida que a espécie se aproximava da extinção. Pelo contrário, os dados sugerem que o rinoceronte-lanudo manteve uma população relativamente grande e estável até pouco antes de desaparecer.

“As nossas análises mostram um padrão genético surpreendentemente estável, sem aumento da consanguinidade ao longo de dezenas de milhares de anos antes da extinção dos rinocerontes-lanudos”, afirma Edana Lord, antiga investigadora de pós-doutoramento do Centro de Paleogenética.

A extinção terá ocorrido de forma relativamente rápida, provavelmente causada pelo aquecimento global no final da Idade do Gelo.

“Os nossos resultados mostram que os rinocerontes-lanudos mantiveram uma população viável durante cerca de 15 mil anos após a chegada dos primeiros humanos ao nordeste da Sibéria. Isso sugere que o aquecimento climático, e não a caça humana, foi o principal fator por detrás da extinção”, afirma Love Dalén, professor de genómica evolutiva no Centro de Paleogenética.

ADN antigo, espécies extintas e engenharia genética

Tal como nesses trabalhos, o genoma do rinoceronte-lanoso reforça a ideia de que a genética pode esclarecer não apenas como estas espécies viviam, mas também por que desapareceram, com implicações diretas para a conservação das espécies atualmente ameaçadas.

Já para não falar da intenção, questionável, de empresas de biotecnologia de trazer de volta à vida espécies já extintas.

A empresa norte-americana a Colossal Biosciences afirma ter criado filhotes de lobos gigantes, uma espécie extinta há mais de 12 mil anos. O anúncio gerou entusiasmo nas redes sociais, mas também fortes reservas por parte da comunidade científica. Investigadores sublinham que o ADN antigo sofre uma degradação profunda ao longo do tempo, o que torna praticamente impossível reconstruir, na íntegra, o genoma de um animal extinto há milhares de anos. Para muitos especialistas, o que está em causa não é trazer uma espécie de volta à vida, mas sim criar organismos modernos com algumas características de espécies desaparecidas.

A mesma empresa diz ter dado mais um passo no objetivo de “ressuscitar” o mamute-lanoso. O avanço passa pela criação de “ratos lanosos”, geneticamente modificados com genes de parentes vivos do mamute, como o elefante-asiático. Os investigadores envolvidos defendem que estas experiências permitem testar genes associados à adaptação ao frio. Ainda assim, muitos cientistas alertam que estes animais não são mamutes, nem versões aproximadas, mas modelos de laboratório com alterações pontuais.