Com o carisma que lhe é reconhecido, o Padre Guilherme voltou a colocar a Igreja Católica no centro do debate depois de atuar numa discoteca em Beirute, no Líbano, no passado sábado.
O espetáculo do sacerdote português, conhecido pela fusão entre música eletrónica e mensagem religiosa, gerou críticas de um grupo de cristãos e de responsáveis religiosos locais, que tentaram travar o evento através de uma queixa formal.
Natural de Guimarães, Guilherme Peixoto tornou-se numa figura alternativa no universo católico ao combinar a batina com as pistas de dança. Com mais de 2,6 milhões de seguidores no Instagram, ganhou notoriedade internacional após a atuação na Jornada Mundial da Juventude, em Lisboa, em 2023, perante o Papa Francisco. Desde então, tem passado por festivais e discotecas em vários países, sempre com o propósito assumido de aproximar a Igreja de novos públicos.
No Líbano, a passagem não foi pacífica. A atuação em Beirute, que esgotou a sala e reuniu cerca de duas mil pessoas, foi contestada por 18 pessoas, entre as quais membros do clero, que consideraram o espetáculo uma violação da moral cristã. Em causa estiveram, entre outros aspetos, o contexto do concerto e o uso de referências visuais associadas ao cristianismo.
Queixa rejeitada e concerto sob escrutínio
A tentativa de cancelamento acabou rejeitada por um juiz, permitindo que o evento avançasse. Ainda assim, o espetáculo decorreu sob atenção redobrada num país onde, apesar da imagem liberal de Beirute, líderes religiosos e políticos têm historicamente bloqueado manifestações culturais consideradas ofensivas.
No palco, Padre Guilherme optou por não usar batina, numa decisão acordada com os organizadores, e apresentou-se com uma camisola ilustrada com pães e peixes, numa referência ao milagre da multiplicação narrado nos Evangelhos, em que Jesus alimenta cinco mil pessoas com apenas cinco pães e dois peixes. O gesto simboliza partilha e cuidado pelo próximo, reforçando a mensagem de fé e proximidade que caracteriza o trabalho do sacerdote. Durante o set, foram projetadas imagens de figuras papais e símbolos de paz, elementos que fazem parte do seu universo artístico e espiritual.
À agência Reuters, o sacerdote reagiu às críticas com serenidade: “Se alguém não se sente confortável com o que estou a fazer, que reze por mim”. “Vivemos num mundo livre e ele precisa de ser livre”, acrescentou, sublinhando que nem todos têm de gostar do seu trabalho, mas devem respeitá-lo.
A polémica no Líbano contrasta com o apoio que o Padre Guilherme tem recebido dentro da própria Igreja. O Papa Francisco chegou a abençoar os seus auscultadores e, em atuações internacionais recentes, mensagens papais foram integradas nos espetáculos. Para alguns fiéis, esse reconhecimento torna incompreensível a oposição manifestada por parte do clero libanês.
Apesar das críticas, o sacerdote mantém o propósito que o levou a começar a passar música há mais de uma década, quando procurava angariar fundos para pagar dívidas da paróquia na Póvoa de Varzim. “É música para levar a Igreja para fora da Igreja”, assume. No Líbano, diz querer deixar uma mensagem de convivência e paz num país marcado por divisões religiosas, mesmo quando o palco é uma discoteca.