“Espero que repita.” “Esta cadeira não precisas de estudar, repete sempre.” “Fogo, não repetiu nada”.

Estamos em plena época de exames nas universidades e politécnicos portugueses e o verbo repetir torna-se o verdadeiro eixo da vida académica. Não se discute conhecimento, não se debate compreensão, não se valoriza o pensamento crítico. Discute-se a repetição. Repete a pergunta? Repete o exame? Repete-se o ritual. O desejo coletivo é simples: que o exame seja uma fotocópia, o menos mal disfarçada possível, do exame do ano anterior. Que nada mude. Que o professor não “invente”. Que, de preferência, nem seja preciso abrir um livro. É o conforto da previsibilidade elevado a método pedagógico. O esforço intelectual substituído por uma memorização oportunista.

Avaliar um aluno através da repetição sistemática de perguntas não é apenas pobre, como é intelectualmente estéril. É uma manobra perigosa de extinção do pensamento crítico. É um deturpar da mais básica função de uma escola: transmitir conhecimento. Com cada exame que se repete não se está a testar compreensão, raciocínio ou capacidade de aplicação. Está a testar-se memória circunstancial e acesso a material privilegiado. Se o objetivo do ensino superior fosse decorar respostas padronizadas, não seriam necessárias aulas, bibliografias, discussões críticas ou, sequer, professores. Bastava um arquivo partilhado e algum treino mecânico. O conhecimento não se sedimenta por osmose nem por repetição acrítica. Constrói-se através do confronto com problemas novos, da dúvida, da adaptação de conceitos e do erro refletido.

Para além disso, trata-se de um método estruturalmente injusto. Coloca no mesmo patamar estudantes diligentes e estudantes negligentes. Quem frequenta aulas, estuda pelos livros recomendados, investe tempo e esforço na compreensão da matéria, acaba frequentemente com a mesma nota de quem limitou o estudo à decifração de exames antigos. O mérito académico dissolve-se. O empenho deixa de ser recompensado. A avaliação perde a sua função de estimular interesse e trabalho, tornando-se num sorteio informal baseado no acesso à informação certa. Bons e maus alunos, dedicados e desinteressados, trabalhadores e oportunistas – todos nivelados por baixo.

Esta prática não surge no vazio. É reflexo direto da cultura do “desenrascanço” e do facilitismo que atravessa o nosso país. Nas universidades portuguesas, avalia-se quem navega melhor nas drives partilhadas, quem tem contactos estratégicos em anos superiores, quem consegue trabalhar menos com maior retorno imediato. Avalia-se a esperteza circunstancial, a capacidade de se safar, não a inteligência sustentada, o pensar. É a consagração da mediocridade eficiente como virtude académica.

Também os docentes não podem ser ilibados desta responsabilidade. Os professores universitários não podem demitir-se da sua responsabilidade pedagógica. Para estes, a docência não pode ser apenas uma linha no LinkedIn, nem um ritual burocrático de correção anual de umas mesmas perguntas. Exige dedicação, exige preparação, exige criatividade e rigor. Fazer perguntas novas, coerentes com o que foi lecionado, estimular o estudo real e o interesse genuíno dá trabalho – mas é esse trabalho que forma cidadãos críticos, profissionais competentes e, em última instância, o futuro do país.

Não é por acaso que os estudantes reconhecem unanimemente que as cadeiras onde mais aprendem são aquelas em que os professores mais se dedicam, avaliam aquilo que ensinam, fornecem ferramentas de estudo acessíveis e desenham exames exigentes, justos e coerentes. São exceções, infelizmente. Mas deviam ser regra. Nessas cadeiras existe brio académico, existe exigência e existe verdadeira aprendizagem.

Cabe às associações de estudantes, às comissões de curso e aos órgãos académicos romper com esta lógica viciada. Mas cabe também a cada estudante exigir mais, quer do sistema, quer de si próprio. Estudar, dedicar-se, frequentar aulas, ler livros, cultivar interesse intelectual. E, paradoxalmente, enquanto nada muda, entrar no jogo para não ficar para trás. Porque, no fim, neste sistema que se repete a si próprio, há sempre uma certeza.

No final, vai repetir-se.