Tudo por um plano A, mas não significa que não haja plano B. Henrique Gouveia e Melo acredita que há um voto silencioso, que está a ficar fora do radar das sondagens, que lhe permite ir à segunda volta. Obcecado pelo planeamento, o almirante ainda aposta tudo num plano A (chegar a Belém) e, para isso, vai insistir em duas frentes: falar mais para os mais idosos — que lhe estão gratos pela pandemia — e puxar pelo lado militar — que acredita ser uma vantagem no atual contexto internacional. Surge, no entanto, uma questão à qual já não foge a responder: e se perder? O almirante admite, nesse caso, aproveitar o capital político para criar ou prosseguir com uma associação cívica e, ao contrário do que tinha dito nos últimos meses, não exclui criar um partido. São esses os caminhos do plano B.

O almirante e a própria estrutura têm negado outro cenário que não a segunda volta. E, ao contrário de João Cotrim Figueiredo — que meteu os pés pelas mãos — o almirante safou-se bem à questão de em quem votaria em caso de não passar, ao dizer que não respondia porque nem sequer admitia essa possibilidade. Apesar disso, nas entrelinhas, há um plano B. No programa Prova Oral, da Antena 3, Henrique Gouveia e Melo disse o seguinte: “Não ponho de parte, porque já aprendi a não pôr de parte nada, qualquer projeto político de futuro se isso estiver dentro da minha capacidade”.

Questionado diretamente sobre se esse projeto seria um partido, não rejeitou liminarmente essa possibilidade, mas mostrou-se mais favorável a outro tipo de estrutura: “Um projeto político não é necessariamente criar um partido. Pode ser um movimento cívico, mas para já não passa pela minha cabeça fazer uma coisa dessas.”

Nessa mesma entrevista, Gouveia e Melo admitiu estar num dilema: “Enquanto cidadão, depois desta experiência política, terei de decidir se vou continuar dentro da política ou se vou fazer uma coisa que nunca fiz, que é lutar pelos meus interesses pessoais e fazer qualquer coisa pelos meus interesses materiais.”

As declarações de Henrique Gouveia e Melo apontam num sentido contrário às que fez no verão, quando disse à Rádio Renascença que “não faz sentido [criar um partido]. Eu não ia promover uma coisa dessas, até porque isso poderia ser perigoso para a própria democracia. Sou contra, e sou contra a Presidência fazer partidos.” Mas havia uma nuance: Gouveia e Melo contestava a ideia de criar um partido a partir de Belém (como fez Eanes com o PRD), não caso não fosse eleito para Belém.

Um destacado apoiante de Gouveia e Melo disse ao Observador que falar nessa possibilidade é “colocar a carroça à frente dos bois”. “Primeiro, é preciso ganhar as Presidenciais. Se não ganhar, é preciso ver que votação tem e que capital político vai ter. E o próprio cansaço que ele [Gouveia e Melo] terá. Agora, se tiver entre os 15 e os 20%, vai mandar isso fora?”, cenariza a mesma fonte.

“Ele não fala de partido. O que ele fala é de um movimento cívico, que aliás, já existe, que se chama ‘Honrar Portugal’”, desvaloriza outro apoiante que tem acompanhado Gouveia e Melo nesta caminhada. Ainda um outro apoiante do almirante tenta desviar essa ideia e diz ao Observador que, na mesma entrevista à Antena 3, ele admite a possibilidade de ter outra vida.

Gouveia e Melo também disse, é verdade, que podia ir trabalhar para uma empresa, lembrando que “enquanto militar” desenvolveu “grandes capacidades tecnológicas.” O almirante admitiu também na Antena 3 fazer uma espécie de voluntariado em prol de países agredidos: “Estaria disponível para ajudar países em risco de ameaça totalitária”. A estrutura de campanha continua, e mesmo os membros da associação cívica que apoia Henrique Gouveia e Melo, a rejeitar falar de outro cenário que não seja chegar a Belém. Resta saber qual é estratégia do almirante para estes últimos dias.

Henrique Gouveia e Melo tem puxado cada vez mais pelo seu lado militar. Se no início da candidatura tentava provar que era mais um cidadão a exercer o direito (e dever) cívico de se candidatar à Presidência da República, agora não tem problemas em acenar com o seu passado militar. Na terça-feira, pela primeira vez a partir do púlpito, evocou o general Ramalho Eanes — o último Presidente da República militar. Estava num almoço com apoiantes na Associação de Fuzileiros do Barreiro, uma das muitas intervenções onde tem contado histórias da Marinha.

O próprio almirante admitiu, em declarações ao Observador, que tenta “mostrar à população que irá votar que a minha preparação militar pode ser uma mais-valia para a República, no sentido em que o Presidente é o Comandante Supremo das Forças Armadas.” O almirante costuma utilizar a metáfora do navio que não deixa ninguém para trás para atacar, por exemplo, o neoliberalismo de João Cotrim Figueiredo.

Ao puxar do seu passado militar não deixa de apelar ao voto de forças de segurança, militares no ativo ou na reserva (seus pares) e também ex-combatentes. Uma das ocasiões em que insistiu falar nesse último grupo foi quando disse na segunda-feira, num jantar com apoiantes em Alcobaça, que “Portugal portou-se mal com os seus antigos combatentes. Parte deles travou uma batalha errada. Mas não foi culpa deles, foi culpa dos políticos. O Estado agora quer dar-lhes uma esmola, qualquer coisa inferior a 100 euros. É melhor não dar esmola nenhuma, porque é mais ofensiva essa esmola”.

Em Fafe, terra de Marques Mendes, Gouveia e Melo quase fazia a sua versão dos sonhos de menino, quando disse: “Houve um miúdo que aos 17 anos convenceu os pais a irem do Brasil para Portugal para prosseguir o sonho de servir as Forças Armadas (…) Esse miúdo era eu.”

O grupo de eleitores que Henrique Gouveia e Melo mais tem investido na segunda semana de campanha são os idosos. Também em Alcobaça foi particularmente enfático, confessando sentir-se indignado com as condições em que vivem, apesar de ter visitado bons exemplos: “Tenho visitado muitos lares. E das coisas que mais me impressionam é que ainda são depósitos de pessoas idosas.”

Gouveia e Melo pessoalizou até esse sofrimento ao projetar-se nessa situação daqui a alguns anos: “Fere-me de tal maneira que, quando vou visitar, fere-me pensar que um dia poderei acabar assim. Já disse aos meus mais próximos, se assim for, que me metam numa embarcação à vela e que me deixem ir para o mar sossegado. É mais digno.”

O almirante tem igualmente repetido, quando visita cada feira ou mercado, que fica “chocado” com o facto de encontrar pessoas com mais de 70 anos que têm de “continuar a trabalhar” porque as “baixas reformas” não lhes permitem sobreviver. É com os mais velhos que se detém a falar mais tempo. E essa atenção é muitas vezes correspondida. Há, de facto, manifestações espontâneas na rua.

Mas não só. Ainda esta quarta-feira, enquanto visitava uma escola no concelho de Oeiras, uma professora fez uma vídeochamada com a mãe idosa. “Ó mãe, vê com quem estou aqui? É o almirante”. Do outro lado do telemóvel, apesar de um enquadramento de avó em que há mais espaço de parede e cara incompleta, a idosa garantia ir votar no almirante. É o tal voto ainda silencioso.

O ânimo da campanha tem-se mantido, aliás, na crença de que existe um “voto camuflado”, onde estão milhares de pessoas a quem o almirante chamou “maioria silenciosa” — e que escapa ao radar das sondagens. Os idosos serão claramente um desses grupos, acredita a máquina de Gouveia e Melo. O próprio almirante disse ao Observador que acredita “verdadeiramente que há uma parte do eleitorado [cujo sentido de voto] não se consegue perceber [nas sondagens]. Só teremos verdadeiramente resultados concretos no dia 18.”