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Um sírio, de 26 anos, está a acusar uma ex-professora russa de o ter enganado para combater na guerra da Ucrânia, depois de lhe ter prometido um trabalho seguro, bem pago e cidadania russa. A denúncia faz parte de uma investigação da BBC que revela como centenas de estrangeiros, muitos dos países mais pobres do mundo, terão sido aliciados através do Telegram para integrar o exército de Moscovo, acabando na linha da frente.
Omar (nome fictício) trabalhava na construção civil e chegou à Rússia em março de 2024 à procura de melhores condições de vida. Diz que foi Polina Alexandrovna Azarnykh quem lhe abriu as portas do recrutamento militar. De acordo com o relato que fez ao jornal britânico, a recrutadora russa prometeu-lhe um contrato de um ano, salário mensal de cerca de 2.100 euros e a possibilidade de obter cidadania russa. Garantiu, ainda, que após um pagamento de cerca de 2.500 euros ficaria afastado de funções de combate.
No entanto, nada disso aconteceu. Omar afirmou que recebeu apenas dez dias de treino militar e foi enviado para a frente de batalha na Ucrânia. Quando se recusou a pagar os 2.500 euros, viu o seu passaporte ser queimado por Azarnykh. E quando tentou recusar uma missão, foi ameaçado pelos próprios comandantes russos. “Fomos enganados. Esta mulher é uma burlona e uma mentirosa”, sublinhou.
Omar descreveu, em mensagens de voz enviadas à equipa de investigação da BBC, um cenário de medo e angústia. “Vamos morrer aqui com 100% de certeza”, dizia num dos primeiros áudios enviados à BBC, em maio de 2024, acrescentando que ouvia explosões constantes e via feridos, mortos e corpos abandonados. “Se alguém morre, metem-no num saco do lixo e deixam-no ao pé de uma árvore”, relatou.
Ao fim de quase um ano no terreno, descobriu que um decreto russo de 2022 permite ao exército prolongar automaticamente os contratos até ao fim da guerra. “Se renovarem o contrato, estou lixado”, dizia. O contrato foi, de facto, renovado.
A investigação da BBC identificou quase 500 convites feitos por Azarnykh ao longo de um ano. Os destinatários são, sobretudo, homens da Síria, Egito, Iémen, Iraque, Marrocos, Nigéria e Costa do Marfim. Muitos cidadãos destes países terão enviado cópias dos passaportes depois de contactarem o canal de Telegram da recrutadora russa, que conta com cerca de 21 mil seguidores e promove “contratos de um ano” e vagas em alegados “batalhões internacionais de elite“.
A maioria dos homens saberia que se estava a alistar no exército da Rússia, mas acreditava que ficaria longe da frente de batalha ou que poderia abandonar o serviço militar no final do contrato.
Um desses casos é o do egípcio Mohammed. O seu irmão, Yousef (nome fictício), contou que Azarnykh lhe ofereceu ajuda, prometendo casa, cidadania e despesas pagas através do serviço militar. “De repente, foi enviado para a Ucrânia. Estava a combater”, diz Yousef. O último contacto foi em janeiro de 2024. Um ano depois, a família recebeu imagens do corpo de Mohammed, morto meses antes, através de uma mensagem no Telegram.
Também o sírio Habib (nome fictício) disse à BBC que “os árabes que estão a chegar [à Rússia] estão a morrer imediatamente. Alguns perderam a sanidade. É muito difícil ver tantos corpos“. Segundo Habib, muitos recrutas não sabiam usar armas e eram forçados a combater sob ameaça: “Polina levava os homens, sabendo que eles iriam morrer”.
Os próprios conteúdos do canal de Telegram da recrutadora passaram, em meados de 2024, a mostrar a morte de combatentes estrangeiros. Num dos vídeos publicados, Azarnykh afirma: “Vocês sabiam que iam para a guerra. Pensaram que iam receber um passaporte russo, não fazer nada e viver num hotel de cinco estrelas? Nada acontece de graça”.
Contactada pela BBC, Azarnykh rejeitou todas as acusações, criticou o trabalho dos jornalistas e ameaçou com processos por difamação.
Especialistas afirmam ao jornal britânico que casos como o de Azarnykh fazem parte de uma rede informal de recrutamento, muitas vezes apoiada por autoridades locais. Omar acabou por obter cidadania russa e conseguiu regressar à Síria, juntamente com Habib. “Ela vê-nos como números ou dinheiro. Não nos vê como pessoas. O que nos fez não será esquecido”, concluiu o sírio.