O recém-empossado mayor socialista, Zohran Mamdani, e a sua mulher, Rama Duwaji, mudaram-se esta segunda-feira do seu pequeno apartamento na zona de Queens para a residência oficial do presidente da Câmara de Nova Iorque, localizada no Upper East Side, considerado a bairro mais sofisticado de Manhattan.
Enquanto vários trabalhadores descarregavam caixas de cartão cheias de plantas e enrolavam tapetes, Mamdani deu uma conferência de imprensa no seu novo relvado à beira rio para assinalar o dia em que se mudou oficialmente, onde admitiu sentir-se honrado por ser inquilino numa casa que “pertence ao povo”, de acordo com o próprio. “Hoje, a Rama e eu sentimo-nos privilegiados por participar num ritual que tantos nova-iorquinos viveram em diversos momentos significativos das suas vidas: o início de um novo capítulo, a mudança para uma parte diferente da cidade”, escreveu o mayor num post no Instagram.
A nova residência do casal, conhecida como Gracie Mansion, tem sido a morada oficial de quase todos os presidentes da Câmara de Nova Iorque desde 1942. Tem cerca de 1000 metros quadrados, um chef privado, um salão de baile, uma varada para o East River e alberga a lareira original onde Alexander Hamilton, um dos pais fundadores dos Estados Unidos da América, morreu após o seu duelo com Aaeron Burr. De acordo com o mayor anterior da cidade de Nova Iorque, Eric Adams, a mansão é também ocupada por, pelo menos, um fantasma.
▲ A nova residência oficial do presidente da Câmara de Nova Iorque, Zohran Mamdani, conhecida como Gracie Mansion
DN
Segundo o The New York Times, Zohran Mamdani disse na conferência de imprensa que já se sentia acolhido no Upper East Side, um bairro onde passava horas em museus na adolescência, visitava amigos da faculdade que cresceram nas proximidades e onde correu pelas ruas enquanto treinava para uma maratona há alguns anos.
A decisão de se mudar foi tomada em parte para cumprir as novas exigências de segurança dado o seu cargo, de acordo com a AP. Uma vez instalado na Gracie Mansion, Mamdani pretende abrir as portas da mansão “aos nova-iorquinos que normalmente não têm a oportunidade de visitar um local como este”. Quanto a possíveis alterações estéticas, descreveu o desejo de instalar bidés nas casas de banho.
Mamdani e a sua mulher, Rama, ilustradora americana com origens sírias, viviam desde 2019 num apartamento de renda controlada no bairro de Astoria, localizado na zona de Queens, conhecida por ser mais barata que as restantes áreas de Nova Iorque. O casal pagava cerca de 2000 euros por mês e a casa tinha apenas um quarto, não tinha máquina de lavar nem de secar roupa, sendo propensa a inundações devido a um cano estragado.
O Upper East Side é considerado o bastião do “old money” da cidade e dificilmente poderia ser mais distinto do bairro onde o recém-eleito mayor vivia. É predominantemente branco e tem uma das taxas de pobreza mais baixas da cidade. Embora Mamdani tenha encontrado apoio em alguns distritos eleitorais em Yorkville, a área que inclui a Gracie, a maioria dos residentes do novo bairro onde vive opôs-se-lhe na eleição para presidente da Câmara, e alguns até expressaram hostilidade para com a mudança.
Quando questionado recentemente pela The New Yorker Radio Hour se mudar-se para a Gracie iria ser compatível com a sua agenda política e até com a sua imagem pessoal, Mamdani respondeu: “Para ser honesto, não penso muito sobre a marca”.
Durante o seu mandato na assembleia estadual de Nova Iorque enquanto representante do Partido Demcrata, sem grande notoriedade no que toca a legislação aprovada, Zohran Mamdani viveu com a sua mulher num pequeno apartamento em Astoria, um bairro acessível na zona de Queens. Por vezes, a zona é chamada “República Popular de Astoria”, pelo seu historial recente de eleger representantes de esquerda, como a deputada Alexandria Ocasio-Cortez.
Mamdani encontrou o imóvel em 2018 no StreetEasy, um site de imóveis americano, enquanto ganhava pouco mais de 4o mil euros por ano como conselheiro de prevenção de execuções hipotecárias para uma organização sem fins lucrativos de Queens. “Procurava um apartamento que pudesse pagar sozinho”, disse ao New York Times.
Apesar do tamanho e problemas do apartamento, o mayor escreveu numa publicação no Instagram que ele e a mulher iriam sentir saudades de “preparar o jantar juntos na cozinha, partilhar uma viagem de elevador tranquila com os nossos vizinhos à noite, ouvir música e do riso a vibrar pelas paredes do apartamento”.
Na publicação, também se pode ler que Zohran Mamdani vai sentir falta “do chá Adeni, das conversas animadas em espanhol, árabe e todas as outras línguas, dos aromas de marisco e shawarma que se espalhavam pela rua”, referindo-se à multiculturalidade do bairro.
Foi construída em 1799 como residência de verão de Archibald Gracie, ficando conhecida pelo último nome do comerciante escocês, e teve várias funções antes de se tornar a residência oficial dos presidentes da Câmara da cidade de Nova Iorque. Sendo uma das estruturas de madeira mais antigas de Manhattan, faz parte do Conselho de Casas Históricas de Nova Iorque e tem um lugar na lista do Registo Nacional de Lugares Históricos.
De acordo com a Time, a mansão foi mudando de proprietário ao longo dos anos e, em 1896, o incumprimento no pagamento de impostos levou a cidade de Nova Iorque a expropriar a propriedade, juntamente com os 4.5 hectares à sua volta. Durante cerca de 15 anos, a mansão serviu de quiosque e casa de banho para o parque, até se tornar a primeira sede do Museu da Cidade de Nova Iorque em 1925, posteriormente transferido para o seu edifício na Quinta Avenida.
A mansão só voltou a servir como morada em 1942, quando Robert Moses, um influente comissário, persuadiu as autoridades municipais a designá-la como residência oficial do Presidente da Câmara. O então mayor, Fiorello H. La Guardia, e a sua família mudaram-se para lá nesse mesmo ano, estabelecendo um precedente para os presidentes da Câmara que viriam a ocupar o cargo.