Sarah Sherman
Se o nome de Sarah Squirm não é familiar, a cara é, pelo menos para os fãs de Saturday Night Live, o programa de sketches humorísticos protagonizados por comediantes e artistas convidados, emitido pelo canal americano NBC. Aqui, o registo é totalmente diferente, porque a criatura trajada de arlequim que faz gestos obscenos e vozinhas em palco, enquanto conta piadas escatológicas e de grafismo questionável, é, na verdade, o alter-ego da comediante Sarah Sherman. Live + In the Flesh é o seu primeiro especial de comédia, disponível agora na HBO, e que não promete agradar a toda a gente.
Muito diferente do stand-up tradicional, Live + In the Flesh tem uma preocupação estética que destoa do habitual banco e microfone no meio do palco: desde a roupa da comediante, passando pelo cenário alusivo ao corpo humano, pelas imagens projetadas — que dão a volta ao estômago dos mais fortes! — e pela animação que abre o especial, Sherman desafia os limites do espetáculo de humor. Sem dúvida, uma humorista a quem prestar atenção.
Kumail Nanjiani
Apesar da carreira de sucesso em Hollywood, às vezes Kumail Nanjiani fica acordado à noite a pensar em coisas insólitas. A forma como se despediu num e-mail ou o guaxinim que costumava assaltar o seu jardim são reflexões que inspiraram o novo especial estreado na Disney+ a 19 de dezembro, Night Thoughts, nomeado para Globo de Ouro. O comediante de origem paquistanesa radicado nos EUA não pisava os palcos desde 2013 — quando fez uma digressão com o seu (até então) último solo de stand-up, Beta Male, disponível no YouTube.
Entretanto, muita coisa mudou: Nanjiani protagonizou vários filmes, alguns dos quais lhe renderam nomeações a Óscares e SAG Awards, como The Big Sick (realizado por Michael Showalter, com Nanjiani, Zoe Kazan e Holly Hunter). Menos êxito teve o grande desastre de bilheteiras da Marvel, Eternals, de 2021, filme que contava com um elenco de luxo e prometia relançar a carreira de Angelina Jolie. “Crítica Negativa Conduz Nanjiani à Terapia”, diziam os jornais depois da estreia, numa leitura sensacionalista do que realmente se passou: “Tive que aprender a ver valor em mim próprio, e não baseado em opiniões que outras pessoas têm sobre o meu trabalho. É por isso que comecei a fazer terapia”, afirmou entretanto. Em Night Thoughts fala sobre o que mudou desde 2013, que foi quase tudo. Apenas a paixão pelo gato Bagel permanece igual.
Ricky Gervais
O britânico regressou à Netflix com um novo especial de comédia, dois anos depois da estreia de Armageddon (2023), que liderou o top da plataforma de streaming e recebeu um Globo de Ouro. Ao contrário do que sugere o título, Mortality é uma celebração da vida, uma oportunidade para Gervais, de 64 anos, refletir sobre o estado do mundo. A liberdade de expressão, a cultura do cancelamento e a evolução da moralidade são alguns dos temas que explora, sempre com humor negro e sem receio de gerar controvérsia — como faz há décadas. Tanto Armageddon como SuperNature (2022) levantaram ondas de contestação, para lá de petições para a Netflix remover piadas.
Argumentista e ator na versão britânica do The Office — posteriormente exportada para os EUA, com Steve Carell no papel principal —, Ricky Gervais é um dos comediantes mais reconhecidos à escala mundial. Em Mortality, mostra a honestidade brutal de sempre e não se inibe de falar sobre temas desconfortáveis, como pedofilia ou racismo. Disponível na Netflix desde 30 de dezembro, o novo especial venceu o Globo de Ouro de Melhor Performance de Comédia Stand-Up em Televisão.
Dave Chappelle
Dave Chappelle é outro veterano da comédia, imparável no novo especial de stand-up que lançou sem aviso, dia 19 de dezembro na Netflix. Ao vivo em Washington D.C., The Unstoppable… é o título de um espetáculo que coloca a opressão racista e a crítica à administração Trump no centro do discurso. Através de histórias engraçadas (e às vezes trágicas) centradas na comunidade afro-americana, Chappelle faz comentário social e não prima pela subtileza: de todos os sítios, escolheu a capital do país para gravar o especial, no que parece uma provocação ao presidente — apesar de ser também a terra natal do comediante.
Entre cigarros acesos e apagados, Chappelle reflete sobre vários acontecimentos da política americana e mundial e sobre a participação no Festival de Comédia de Riad, bastante contestado por organizações de direitos humanos. Numa parceria de longa data com a Netflix, este é o oitavo especial do humorista na plataforma.
Marcello Hernández
Outra sensação do SNL é Marcello Hernández, célebremente conhecido por Domingo, depois de um conjunto de sketches do programa que viralizaram, nos quais interpreta um mulherengo latino com esse nome. Fora de personagem, e apesar do aspeto de “capitão da equipa de lacrosse”, Hernandéz celebra a origem latina (a mãe é cubana e o pai dominicano) e nisso centra o seu primeiro especial de stand-up, intitulado, em jeito irónico, de American Boy.
A partir da infância passada em Miami, o comediante explora o que é crescer numa família imigrante, onde dançar salsa é uma obrigação familiar e ter problemas de saúde mental é proibido.
Luana do Bem
Crente é o nome do novo especial de Luana do Bem, já disponível no YouTube. Se o título sugere uma interpretação religiosa, a atitude da comediante não é propriamente cristã. E Luana está em paz com isso. Aliás, não tem qualquer problema em confessar os seus pecados. É lésbica, mentirosa compulsiva, irritável e viciada em Casa dos Segredos. Mas, pelo menos, deixou de fumar.
Num tom descontraído, a comediante discorre sobre episódios do seu quotidiano, encadeados de forma inteligente. O espetáculo foi gravado no Teatro Tivoli BBVA, em Lisboa, em janeiro de 2025, diante de uma sala esgotada. Apesar de Crente ser a estreia de Luana pelos palcos do país, já era conhecida pela participação no programa de entretenimento jovem Curto Circuito, que fez até 2022, e por pertencer ao painel de Irritações, ambos emitidos na SIC Radical.
Mário Falcão
A lista termina com outro nome português, o comediante natural de Massamá — facto a que alude com frequência e com orgulho — Mário Falcão, que disponibilizou o primeiro espetáculo a solo no YouTube dia 27 de dezembro. Menino de Ouro, gravado no Teatro Villaret em maio, dificilmente assinala a estreia de Falcão nos palcos de stand-up lisboetas, onde já atua desde 2021. Fora isso, foi guionista do programa 5 Para a Meia-Noite e tem um podcast, Correr de Chinelos, com dois colegas humoristas, Hélder Machado e Rodrigo Correia.
Menino de Ouro é uma reflexão abrangente, sobre política nacional, ser jovem nos anos 90, famílias disfuncionais e crescer na linha de Sintra. Num espetáculo profundamente português e com alguns momentos íntimos, que nunca se levam a sério, Mário Falcão descreve uma realidade familiar e interpela os “manos” e “malucos” da audiência, com quem fala como se fossem amigos.