A China anunciou na quarta-feira o seu maior excedente comercial da história: um saldo de 1,2 biliões de dólares (cerca de um bilião de euros) em 2025, um aumento de 20% face a 2024, com as exportações a subir 6,1% e as importações 0,5%. O New York Times coloca o recorde mundial perspectiva: supera cinco vezes o máximo japonês de 1993 e quatro vezes o valor alemão de 2017. A Reuters compara-o ao PIB da Arábia Saudita.
Pequim realça o crescimento das exportações tecnológicas, como robôs industriais (48,7%), turbinas eólicas (os mesmos 48,7%), semicondutores (26,8%), baterias de lítio (26,2%) e veículos (21,4%), dos quais 48,8% eléctricos. O país escapa aparentemente ileso à guerra comercial decretada pela Administração Trump, encontrando não só uma alternativa na União Europeia (aumento de 9%), América Latina (8%), África (26,5%) e Sudeste Asiático (14%), como também intermediários, sobretudo na Ásia, para escoar os seus produtos para os EUA e evitar taxas aduaneiras mais elevadas. Apesar da trégua de Outubro com Washington, vigoram tarifas médias de 47,5%.
“O ambiente externo permanece desafiante e complexo”, reconhece Wang Jun, vice-director das alfândegas chinesas. No entanto, “com uma maior diversidade de parceiros, a capacidade de enfrentar riscos foi aumentada”.
Desequilíbrios internos
O excedente foi auxiliado pelo renminbi fraco (mantém-se a política monetária pós-pandémica de Pequim) e a estagnação das importações. Ainda pesa a crise imobiliária no poder de compra. Pequim aponta contudo o dedo aos EUA. “Alguns países decidiram politizar assuntos económicos e comerciais e restringir a exportação de produtos tecnológicos para a China. De outra forma, teríamos importado muito mais”, declarou Wang Jun, referindo-se às proibições de venda de chips à China, agora aliviadas.
Os números de quarta-feira são por isso celebrados, mas cautelosamente. Em Novembro, o primeiro-ministro chinês, Li Qiang, alertou para a dependência das exportações. Para além de desequilíbrios internos, Pequim reconhece os riscos de um tsunami chinês em mercados-chave. Em Dezembro, o Presidente francês, Emmanuel Macron, declarou que o actual fluxo comercial é “insustentável”. Na semana passada, o Governo chinês anunciou o fim de incentivos à exportação de painéis solares, fortemente criticados na Europa, num de vários gestos que respondem à implementação de tarifas também na UE, Índia ou Indonésia.