Bruxelas estima que a remoção destas tarifas pode traduzir-se em poupanças superiores a 4 mil milhões de euros/ano em direitos aduaneiros para exportadores europeus. Veja aqui a análise da XTB.

O acordo UE–Mercosul voltou ao centro das atenções, mas o mercado continua a olhar para este acordo histórico como um cenário e não como um facto consumado, uma vez que a sua concretização depende do processo político, incluindo potenciais ratificações ao acordo.

Do ponto de vista financeiro, o “gatilho” mais direto é a redução de tarifas atualmente elevadas em bens industriais, como componentes de automóveis (35%), maquinaria (20%), químicos (18%) e farmacêuticos (14%), e a perspetiva de uma normalização gradual da previsibilidade comercial.

A Comissão Europeia estima que a remoção destas tarifas pode traduzir-se em poupanças superiores a €4 mil milhões/ano em direitos aduaneiros para exportadores europeus e destaca também o acesso a concursos públicos no Mercosul em condições equiparáveis às empresas locais.

No entanto, nem todas as empresas vão sair beneficiadas. Neste momento, importa perceber quais aquelas que estão mais bem posicionadas para beneficiar com este acordo.

“Top picks” (Europa)
Stellantis: a América do Sul já é relevante no perfil do grupo (~€15,9 mil milhões de receitas na região em 2024, cerca de 10% do total), pelo que qualquer melhoria no enquadramento das tarifas/cadeias de fornecimento tenderá a trazer melhoras para as contas da empresa quando comparada com outras da concorrência.
BASF: para lá do impacto potencial nas tarifas, a empresa também ganha tração dado o encaixe que se espera por parte do setor agroalimentar: no segmento de “Agricultural Solutions”, as vendas da BASF na “América do Sul, África, Médio Oriente” foram de €2,356 mil milhões em 2024, o que reforça o potencial de alavancagem da empresa se as barreiras comerciais perderem força e o comércio ganhar tração.
Siemens: aqui, o fator diferenciador pode estar na abertura de concursos públicos no Mercosul a empresas europeias, o que favorece grupos com oferta em infraestruturas, eletrificação, automação e transporte. A Siemens reportou €23,8 mil milhões de receitas nas Américas em 2024, sinalizando uma exposição relevante ao continente.

“Top picks” (Mercosul):
BRF: a empresa deverá beneficiar de quotas e acesso facilitado. A UE prevê, por exemplo, uma quota de 180 mil toneladas de aves “duty-free” e uma quota de 99 mil toneladas de carne bovina com tarifa reduzida. A BRF é frequentemente referida como grande exportadora de aves e já sinalizou a importância de mercados como a Europa.
Adecoagro: uma “proxy” interessante para o setor agro do Mercosul, com operações na região em culturas, laticínios, açúcar, etanol e energia, beneficiando do tema etanol/açúcar e do desbloqueio gradual de barreiras (a UE prevê quotas para etanol, incluindo 450 mil toneladas “duty-free” para uso químico e 200 mil toneladas com redução parcial de tarifa).
Cosan: exposição direta ao “coração” do tema etanol, com escala industrial relevante (capacidade de produção indicada de ~3 mil milhões de litros e grande capacidade de moagem), o que pode tornar o acordo um catalisador marginal se o acesso/quota for efetivamente absorvido.

Esta análise das “Stock Picking” torna-se ainda mais relevante quando observamos que a reação do mercado bolsista não tem sido uniforme face ao anúncio do acordo EU-Mercosul.

Nos últimos 3 meses, por exemplo, podemos observar comportamentos diferentes nas seguintes
ações:
• STLAP: +0,10%
• BAS: +4,81%
• SIE: +8,08%
• AGRO: +9%
• CSAN3: -12,29%
• MBRF3: +26,57%.

No entanto, a escala das subidas/descidas pode não estar inteiramente ligada a este acordo, devemos notar que a cotação das ações varia por imensas razões.