Esta terça-feira, o Bandcamp revelou que, doravante, toda a música criada inteira ou substancialmente com recurso a inteligência artificial (IA) generativa deixará de poder existir no seu site. Uma decisão importante por parte desta que, mais do que um serviço de streaming propriamente dito, é uma loja online de música independente: torna-se, assim, “a primeira grande plataforma musical a banir conteúdo gerado por IA generativa”, como resume o site especializado em tecnologia The Verge.
No curto texto que anuncia a nova medida, o Bandcamp incentiva os seus visitantes a fazerem uso das ferramentas de denúncia ao seu dispor sempre que se cruzarem com música ou áudio que pareça ser o resultado de uma utilização total ou significativa de ferramentas de IA. A plataforma reserva-se o direito de eliminar qualquer conteúdo suspeito. E escreve: “A música é muito mais do que um produto (…) [e] os músicos são mais do que meros produtores de som: são membros vitais das nossas comunidades, da nossa cultura e do nosso tecido social. (…) Com esta política, estamos a pôr a criatividade humana em primeiro lugar.”
Numa era em que para a generalidade dos artistas independentes é extremamente difícil obter dos grandes serviços de streaming algum tipo de retorno financeiro que não seja irrisório, o Bandcamp tende a ser visto como a melhor opção, no mercado digital, para a sua sustentabilidade. “O artista ou a editora”, diz a plataforma, “ficam com uma média de 82% do dinheiro” feito com as vendas no site.
São também famosas as ditas Bandcamp Fridays, dias especiais (algumas primeiras sextas-feiras do mês) em que o Bandcamp renuncia às suas comissões. A política da plataforma proíbe os utilizadores de usarem os seus conteúdos para treinar modelos de inteligência artificial.
Enquanto o Bandcamp decide barrar o acesso a música gerada por IA, esta continua bem viva nos serviços de streaming. Há cerca de meio ano, fez correr muita tinta o caso dos infames Velvet Sundown, “banda” IA surgida do nada e que, do dia para a noite, começou a somar milhares de reproduções (streams) no Spotify e a aparecer nas playlists algorítmicas através das quais o tubarão do streaming faz recomendações aos utilizadores com base nas suas preferências (“Descobertas da Semana”). Os Velvet Sundown (em cujas redes sociais ainda se tentou argumentar, no início e em vão, que o projecto não tinha nada que ver com IA), já não têm, como em tempos tiveram, cerca de um milhão de ouvintes mensais na plataforma sueca, mas ainda por lá andam, tal como uma miríade de outros “projectos” criados inteira ou substancialmente com IA generativa.
O Deezer, concorrente francês do Spotify e dos demais serviços de streaming musical, ainda não tomou uma decisão como a do Bandcamp, mas identifica todas as canções inteiramente criadas com IA, ao contrário do Spotify, que não só não o faz como empresta aos perfis de várias “bandas” IA, como os próprios Velvet Sundown, o seu visto azul-claro de “artista verificado”, símbolo que supostamente deveria dizer ao ouvinte que aquele é um artista autêntico, devidamente reconhecido como legítimo pela plataforma.
Uma análise do Deezer em Junho passado revelou dois números interessantes. Por um lado, a escuta de música gerada por IA constitui apenas 0,5% do total de streams na plataforma francesa. Por outro, cerca de 70% desses streams serão fraudulentos. Ou seja: estas músicas são, na sua maioria, “ouvidas” por contas automatizadas (bots) e não por utilizadores humanos. No seu relatório global mais recente, a Federação Internacional da Indústria Fonográfica apontava claramente que o streaming fraudulento desvia dinheiro que “deveria estar a ir para artistas legítimos” — um problema “exacerbado significativamente” pela IA generativa.
Um inquérito mais recente, feito pelo Deezer em colaboração com o instituto de sondagens Ipsos, concluiu, preocupantemente, que a esmagadora maioria das pessoas (97%) não consegue distinguir música feita por humanos de música feita com recurso a inteligência artificial. Para fazer o estudo, foram entrevistadas 9000 pessoas, residentes em oito países distintos. Cada participante tinha de ouvir três canções, duas produzidas por IA e uma produzida artesanalmente, e de dizer se eram ou não fruto de IA.