Faltam cinco minutos. O grupo de apoiantes que o acompanhou durante a tarde, numa arruada pelas ruas da sua terra natal, aproxima-se de Luís Marques Mendes, que acaba de beber um café. Todos juntos, olham fixamente para o ecrã de televisão que daí a pouco mostrará os resultados da sondagem mais animadora de toda a campanha. Se Mendes estivesse num qualquer hotel lisboeta em vez de numa pastelaria em Fafe, o cenário pareceria em tudo o de uma noite eleitoral: quando os números aparecem na televisão, há uns momentos de silêncio e depois uma salva de palmas para o candidato. Mendes aproxima-se, sorridente, dos jornalistas para reagir.

A cena aconteceu esta quarta-feira, a meio da tarde, embora na caravana se soubesse pelo menos desde a manhã que uma sondagem traria, pela primeira vez, boas notícias, indicando a possibilidade de Mendes passar à segunda volta, atrás de André Ventura. Para Mendes, a “confirmação” do apoio que tem recebido na rua. Para elementos da equipa, um boost muito necessário para alimentar os ânimos da caravana nesta reta final, mesmo que as sondagens sejam contraditórias e que a conclusão mais otimista a tirar nesta altura seja mesmo que está “tudo em aberto”.

Neste caso, a sondagem atribui 15,3% das intenções de voto a Mendes, ainda muito abaixo da base eleitoral da AD, mas uma luz ao fundo do túnel para uma campanha que ia recebendo más notícias sucessivas. Além disso, a equipa continua focada em olhar para os 50% do eleitorado de Cotrim que admitem ainda mudar de voto para Mendes — e esta sondagem, cujo trabalho de campo foi feito já depois do dia horribilis de Cotrim, pode representar um bom indicador nesse sentido.

Ainda assim, o gelo é muito fino. E nesta altura é preciso jogar todos os trunfos possíveis. De resto, logo de manhã Mendes chegava ao primeiro momento de contacto de população do dia, em Arcos de Valdevez, com um anúncio na manga (que já estava preparado há dias) para responder ao apelo de Cotrim para que Montenegro lhe desse o seu apoio: o primeiro-ministro estaria com Mendes ao fim da tarde. O apoio da linha oficial da AD não esmoreceria, mesmo que o partido “real” esteja dividido e parte tenha mesmo migrado para as fileiras liberais.

Ora em Famalicão Montenegro lançou o argumentário, dirigido diretamente ao eleitorado da AD, que já se começava a estruturar na cabeça da campanha no dia anterior. “Pensem comigo”, pediu: se o Chega, que representa pouco mais de 20% da sociedade portuguesa, e Seguro (ou o candidato “da extrema-esquerda e do socialismo”) representa um espaço de 25 a 30%, que sentido fará deixar o espaço maior, da “moderação, social democracia, democracia-cristã e liberalismo menos radical”, com 35% a 40%, de fora da segunda volta?

“Vamos aceitar que no domingo esse espaço, o mais representativo do pensamento político do povo português, pode ficar fora da segunda volta? Não acham isso estranho, incogruente, um exercício quase de masoquismo político?”, disparou, sentenciando: “A forma de não arriscar que os dois extremos sejam os protagonistas porque o espaço central se divide em excesso só se resolve se houver concentração de votos”.

Seguro era assim reduzido a outro candidato, como Ventura, do “extremo”, numa altura em que a campanha de Mendes acredita que é preciso alertar os seus eleitores: com dispersão de votos, corre-se o risco de ter na segunda volta Ventura e “um socialista”. E Mendes é o único candidato de direita que pode corrigir esse cenário, unindo o centro.

O outro principal argumento de Montenegro também serviria para apelar ao eleitorado da AD: os outros candidatos, argumentou, querem levar para Belém “fins partidários” e “projetos de governação encapotados”; já Mendes quer “cooperar” com o projeto que o Governo da AD está a executar. E, admitindo que Mendes “viveu dificuldades, é verdade” nesta campanha, lançou o derradeiro apelo ao voto: a base eleitoral natural para o ex-líder do PSD tem mesmo de acordar.