Já foi alcançado um acordo para a criação de um comité tecnocrático destinado a governar a Faixa de Gaza, anunciou o ministro dos Negócios Estrangeiros do Egipto, Badr Abdelatty, citado pela agência de notícias turca Anadolu. O Comité Nacional para a Administração de Gaza (NCAG) estabelece uma administração palestiniana e “inicia a desmilitarização total e a reconstrução de Gaza, sobretudo o desarmamento de todo o pessoal não autorizado”,anunciou o enviado especial dos Estados Unidos, Steve Witkoff, alertando que o Presidente dos Estados Unidos espera que o Hamas cumpra integralmente as suas obrigações, e sublinhando que estas incluem a devolução do corpo do último refém israelita falecido.

O NCAG tem 15 membros e a maioria são profissionais independentes de Gaza, sem filiação no Hamas ou na Autoridade Palestiniana, embora alguns tenham ligações ao Fatah, a formação política associada, no contexto da guerra israelo-palestiniano, à ala moderada que defende a convivência dos dois povos no terreno da Palestina Histórica.

Segundo o jornalisraelita “Haaretz”, os 15 membros deverão deslocar-se em breve ao Cairo, para dar início aos trabalhos, mas há algumas incógnitas que pairam ainda sobre que tipo de trabalho vão desenvolver e que impacto em Gaza as deliberações deste grupo podem ter. Primeiro porque o comité terá de receber formalmente cartas de nomeação do chamado Conselho da Paz, entidade que deverá supervisionar a sua actuação. Uma fonte familiarizada com o processo disse ao jornal que a Casa Branca poderá anunciar em breve a criação desse conselho, no espaço de 24 horas. Um segundo problema é não haver informação sobre quem irá financiar o funcionamento do comité.

Apesar das incertezas, fontes locais encaram a criação do comité como uma transição para uma nova fase em Gaza, mas muito permanece incerto. As principais questões prendem-se com a liberdade real deste comité para implantar as suas decisões, através de que instituições o fará e com que fundos. Além disso, não é certo quando é que o comité poderá começar a funcionar nem se o Hamas irá cooperar. A legitimidade parece ser um problema menor em comparação com as questões mais “técnicas”, mas a recuperação da confiança pública após dois anos de guerra será um dos desafios.

“O principal problema, que na verdade atravessa todas as dimensões política é a ideia de que o Hamas tem de ser desarmado e desmantelado e de que a Faixa de Gaza tem de ser desmilitarizada”, afirmou Kobi Michael, investigador sénior do Instituto de Estudos de Segurança Nacional (INSS) de Israel ao “The Hill”. Se isto não estiver assegurado, “nada acontecerá”. Bassem Naim, membro da cúpula política do Hamas, sediado em Doha, disse à Associated Press no domingo que o Hamas está disposto a discutir o “congelamento ou armazenamento” das suas armas.

No entanto, numa entrevista ao jornal “al-Monitor”, publicada na segunda-feira, Naim apresentou duas opções: que o Hamas só entregaria as suas armas a um futuro Estado palestiniano, ou que o desmantelamento poderia começar no âmbito de uma trégua de cinco a dez anos que incluísse garantias de que Israel não retomaria a guerra.

Alguns dos nomes já se conhecem. A presidência do comité deverá caber a Nabil Ali Shaath, antigo vice-ministro dos Transportes da Autoridade Palestiniana, reconhecido pela sua experiência na gestão de sistemas públicos e de grandes projectos de infra-estruturas.A pasta das Finanças estará a cargo de Bashir al-Rais, engenheiro e consultor financeiro e para as áreas da Economia e Comércio foi indicado, Ayed Abu Ramadan, diretor-geral da Câmara de Comércio e Indústria de Gaza.

A Segurança e o Policiamento, diz ainda o Haaretz, serão geridos por Mohammed Tawfiq Helles, general da polícia, e Mohammed Nasman, que será responsável pelos aspetos administrativos. A principal missão destes dois homens é fazer da polícia de Gaza uma força independente, livre de influência de qualquer grupo armado. Outras pastas incluem Justiça, Saúde, Água, Agricultura, Educação, Comunicações e Tecnologia, bem como Assuntos Sociais e Direitos das Mulheres, esta última entregue à advogada Hana Tarazi, que deverá ser a única mulher no comité e representante da comunidade cristã remanescente de Gaza. Uma fonte sénior do Hamas disse ao canal catari Al-Araby que o movimento não se opôs aos nomes propostos.

Fontes palestinianas receiam que o processo fique no plano teórico, argumentando que Israel não tem interesse no seu sucesso, uma vez que isso implicaria discutir uma retirada de Gaza. Outra fonte indicou ao “Haaretz” que o diplomata búlgaro Nikolay Mladenov, antigo enviado da ONU para o Médio Oriente, deverá chefiar o braço executivo do conselho, com uma equipa dedicada à ligação direta com o comité tecnocrático.