Morreu Irene da Grécia, a irmã mais nova da rainha Sofia de Espanha, que tinha 83 anos. A notícia foi avançada pela casa real espanhola nesta quinta-feira, lamentando a morte da Tia Pecu, como lhe chamavam os sobrinhos. “Suas Majestades, o rei e a rainha, e sua majestade, a rainha Sofia, lamentam anunciar a morte de Sua Alteza Real a princesa Irene da Grécia às 11h40 de hoje, no Palácio da Zarzuela, em Madrid”, diz o comunicado, citado pelo El País.

A morte de Irene não é uma surpresa, depois de, nos últimos dias, a rainha emérita ter cancelado compromissos para estar ao lado da irmã, que sofria de um “declínio cognitivo acentuado”, descreve o mesmo jornal. A nota do departamento de comunicação da casa real informa que o velório será realizado em Espanha, antes de o caixão ser transladado para a Grécia, onde será sepultado no cemitério de Tatoi, a antiga propriedade real a 20 quilómetros de Atenas.

A história de Irene é “peculiar” — Pecu era a alcunha por que era conhecida entre os oito sobrinhos e sobrinhas —, sendo que a grega era uma das últimas sobreviventes com ascendência real de todos os costados — o casamento com plebeias (e plebeus) é hoje comum entre todas as monarquias. Ou seja, Irene era neta de reis, filha de reis, irmã de reis, tia de reis com ascendência em imperadores alemães, monarcas dinamarqueses e suecos além de czares russos.

Contudo, Irene não tinha uma “mesada” de realeza — até porque a monarquia foi abolida na Grécia em 1973. Mais: também não ostentava qualquer riqueza, sem exibir jóias ou roupa de luxo. Aliás, sem marido e filhos, gozava de uma liberdade considerada incomum na alta sociedade, que lhe permitiu experimentar várias carreiras, sem nunca escolher propriamente uma. Foi aprendiz de arqueologia, pianista, estudiosa de hinduísmo, activista pelos direitos dos animais e uma entusiasta do mundo do esoterismo, enumera a revista Hola.

Este desassossego talvez se deva à própria infância de Irene, que nasceu a 11 de Maio de 1942, na África do Sul. O pai, o príncipe grego Paulo, estava no Cairo, Egipto, onde a família real aguardava pela restauração da monarquia. A sua mãe, Frederica, neta do último imperador alemão, decidiu chamá-la de Irene por significar “paz” em grego.

Foi no exílio, na Cidade do Cabo, que passou os primeiros anos de vida, rodeada pelos irmãos, Sofia e Constantino, futuro rei da Grécia, antes de a família se mudar para Alexandria, para estar mais próxima da Grécia. Em 1946, um referendo aprovou a restauração da monarquia e os príncipes Paulo e Frederica regressaram a Atenas — onde passou a reinar Jorge II, tio de Irene e Sofia. “Naquela época, já sabíamos que ser da realeza não era algo a ser levado levianamente”, declarou Irene à sua biografa, Eva Celada, que publicou Irene da Grécia, a Princesa Rebelde, em 2005.

Seis meses depois do regresso do exílio, morreu o rei Jorge e Paulo subiu a trono. Constantino, Sofia e Irene passaram então a viver no Palácio Real em Atenas e no Palácio Tatoi, passando os Verões em Mon Repos, na ilha de Corfu, e os Invernos em Falken, na Áustria.

Uma vida ao lado da irmã

Irene e Sofia eram inseparáveis de tal forma que, quando a mais velha foi estudar no internato de Salem, na Alemanha, a mais nova acompanhou-a para estudar na mesma cidade, sob instruções do professor Kurt Hahn, que se baseava na doutrina filosófica de Platão. Ali foram “despidas” de títulos e tinham de acordar às 6h30, tomar banho de água fria e fazer tarefas comunitárias.

A vida tornou-se mais difícil para Irene, depois do casamento da irmã com Juan Carlos de Borbón, seguiu-se a morte do pai, o rei Paulo, e a queda da monarquia na Grécia. Em Abril de 1967, Constantino II, o seu irmão, liderou um contragolpe falhado e a família real teve de voltar a deixar o país.

Irene escolheu viver em Roma, onde “usou uma das suas paixões, a música, como uma fuga da situação de desenraizamento que vivenciava”, descreve Eva Celada. Mas também passava algum tempo na Índia, onde praticava meditação e estudava filosofia hindu ao lado da mãe, a rainha Frederica (1917-1981). “Quando é preciso salvar a alma, não importa muito o que os outros pensam”, dizia.

Depois da restauração da monarquia em Espanha, em 1975, Irene mudou-se para a ala direita do Palácio da Zarzuela, em Madrid, onde tinha um quarto e uma pequena sala de estar. Sabe-se que sempre teve uma relação muito próxima com o cunhado, Juan Carlos, que apelidava de “rebelde” e, talvez pelas traições que viu a irmã sofrer, nunca teve desejo de casar.

“Algumas pessoas têm a sorte de se casar, e outras têm a sorte de não se casar. Considero que ser solteira é a minha sorte e o meu destino. E não me queixo de não ter filhos. Sou revolucionária demais e sempre me interessei por muitas coisas”, declarou na mesma biografia.

O seu feito mais revolucionário reflectiu-se na Fundação Mundo em Harmonia, através da qual levava animais para a Índia. A ideia surgiu depois de ler que o Governo alemão abatia vacas devido ao excesso de leite e Irene convenceu o chanceler Helmut Kohl a doar os animais para comunidades indianas. A própria acompanhou as primeiras cem vacas num voo de 14 horas até Bangalore.

Desde 2002, abrandou o ritmo, depois de ter sido diagnosticada com cancro da mama, o que lhe deixou uma lição para os restantes 24 anos que havia de viver: “Aquele período ensinou-me que não devemos ter medo. As coisas acontecem mesmo quando estamos com medo, então o melhor é ser positivo, ter fé e aceitar que podemos morrer.”