Resumo
Adultos LGBTQ+ enfrentam mais desemprego e barreiras no trabalho
Menor representação em sectores bem pagos e maior instabilidade laboral
Discriminação também afecta LGBTQ+ em Portugal, muitas vezes sem denúncia

Uma análise às respostas de mais de 14 mil pessoas na Austrália mostra que os adultos LGBTQ+ no país têm quase duas vezes mais probabilidade de estarem desempregados, quando comparados com adultos heterossexuais, e enfrentam barreiras no mercado de trabalho. O estudo com estas conclusões foi publicado esta quinta-feira na revista científica Plos One.

Os investigadores alertam que esta análise não mediu directamente as causas destas disparidades, mas os padrões que observaram “são consistentes com investigações anteriores que mostram que as pessoas LGBTQ+ sofrem discriminação, exclusão e stress no local de trabalho ao longo da vida”, diz ao P3 Dee Tomic, que é epidemiologista na Universidade Monash em Melbourne, na Austrália, e principal autora do estudo. Estes factores podem ter impacto na contratação, na retenção, na progressão de carreira e na vinculação a longo prazo no mercado de trabalho.

A investigadora indica ainda que os dados que analisaram revelam que a comunidade LGBTQ+ está menos representada em sectores que oferecem salários mais altos e maior segurança no emprego.


A autora sublinha que estas disparidades se mantiveram mesmo após terem em conta a idade, a educação e factores socioeconómicos, o que dá a entender que há mesmo “barreiras sistémicas envolvidas”. Entre estas barreiras podem estar práticas discriminatórias no recrutamento e promoções, exclusão por parte de indústrias mais conservadoras ou falta de medidas inclusivas no local de trabalho, indica a epidemiologista. Além de uma exclusão directa pode haver também uma “evitação antecipada”, em que os trabalhadores LGBT+ se afastam de ambientes que consideram hostis ou inseguros.

“Embora este estudo não tenha captado experiências subjectivas (como sentir-se inseguro ou sem apoio no trabalho), os padrões observados são consistentes com uma maior instabilidade e restrição no emprego”, refere Dee Tomic, em resposta ao P3 por email. No estudo, os autores recordam que o trabalho não se resume ao rendimento: “Dá também acesso a redes sociais, estrutura diária, identidade e um sentido de propósito.”

Os dados aqui analisados foram obtidos através de dados de uma sondagem nacional (HILDA, na sigla em inglês), que abrange cerca de 17 mil australianos e é feito anualmente desde 2001 para traçar um perfil dos australianos com mais de 15 anos. A partir deste inquérito nacional, foram recolhidos dados sobre identidade sexual de 14.302 pessoas, em 2020 – dos quais 12.264 foram acompanhados até 2023. Foram ainda recolhidos dados sobre identidade de género a partir das respostas de 13.981 pessoas, em 2023. Estas questões sobre identidade de género só foram incluídas nestes inquéritos em 2022; as questões sobre orientação sexual surgem desde 2012, aparecendo no inquérito a cada quatro anos.

Isto significa que, do total de respostas, cerca de 5,9% da amostra se identificava como lésbica, gay, bissexual ou outra orientação não heterossexual (o que corresponde a cerca de 854 participantes); havia ainda cerca de 1,2% dos participantes que se identificavam como transgénero ou como tendo uma identidade de género diversa (num total de 163 pessoas). Um outro inquérito feito pelo Serviço de Estatística da Austrália (ABS) indica que 3,6% dos australianos com 16 anos ou mais se identificavam como LGBTQ+, o que bate certo com os dados deste estudo.

Em comparação com os heterossexuais, as pessoas homossexuais tinham mais probabilidade de estarem desempregados ou de trabalharem em casa e era menos provável que trabalhassem em trabalhos físicos ou de construção. Os bissexuais eram menos propensos a integrarem a força de trabalho, estando mais frequentemente desempregados, em part-times ou licenças não remuneradas. O mesmo acontecia com as outras identidades sexuais, que também tinham mais probabilidade de terem horários menos convencionais.

Os autores acautelam que são necessários mais estudos para se conhecer melhor esta realidade e reconhecem algumas limitações do estudo, como a possibilidade de nem todos assumirem a sua verdadeira orientação sexual em inquéritos abertos e a necessidade de haver mais dados.

Estigma começa antes de entrarem no mercado de trabalho

Perante estes resultados, o que fazer? “É improvável que as iniciativas no local de trabalho sejam suficientes sem uma mudança cultural mais ampla”, refere a investigadora Dee Tomic. Até porque “o estigma na infância, os sistemas educativos e as atitudes sociais moldam as trajectórias profissionais muito antes de as pessoas entrarem no mercado de trabalho”.

Como é referido no estudo, as pessoas da comunidade LGBTQ+ “enfrentam disparidades significativas” em várias áreas, como a educação, o acesso a serviços de saúde, habitação ou segurança financeira. Os autores referem que nem toda a discriminação é homogénea nesta comunidade: há grupos, como as pessoas trans, que “muitas vezes se deparam com formas de discriminação e exclusão mais intensas e distintas.” Vários estudos mostram também que as pessoas LGBTQ+ são mais propensas a terem problemas de saúde mental, incluindo depressão e ansiedade, e é mais provável que sejam alvo de violência ou rejeição social.

Em Portugal, cerca de 11% das ocorrências de discriminação de pessoas desta comunidade acontecem no local de trabalho, segundo o relatório de 2020-2022 do Observatório da Discriminação contra pessoas LGBTI+ em Portugal. Já os dados de 2024 mostram que 18% da comunidade LGBTQ+ em Portugal se sentiu discriminada no local de trabalho ou enquanto procurava emprego, indica a Agência dos Direitos Fundamentais da União Europeia (FRA). Em Novembro de 2025, por exemplo, foi noticiado que quase metade dos profissionais de saúde LGBTQ+ em Portugal sofreu ou presenciou situações de discriminação no local de trabalho.

Nem sempre estes casos são denunciados. Em dois anos, chegaram às autoridades portuguesas 14 denúncias de assédio moral ou sexual no local de trabalho a pessoas LGBTQ+, um número que a Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG) diz ficar aquém da verdadeira dimensão da discriminação contra esta comunidade.Trabalhadores LGBTQ+ têm quase duas vezes mais probabilidade de estarem desempregados