O que acontece quando, numa quarta-feira, a quatro dias da eleição, temos três sondagens divulgadas? As probabilidades ficam um pouco mais claras. Mas é mesmo só isso. Vamos por partes.

Na prática, fica tudo na mesma. André Ventura e António José Seguro são os favoritos a passar a uma segunda volta. Mas é fácil confundir favoritismo com certezas absolutas — e nós, seres humanos, somos péssimos a lidar com incerteza estatística. Vamos, por isso, a factos: é muito provável que a história desta eleição seja “Ventura contra quem?”.

Na agregação de sondagens — isto é, tentando filtrar o barulho estatístico de subidas e descidas que poderão não significar nada — Ventura ultrapassou Marques Mendes no início de Dezembro e, desde então, nunca mais saiu do primeiro lugar. Tem, neste momento, quase 80% de probabilidades de passar a uma segunda volta.


Dissemos no início desta viagem que iríamos sempre tentar traduzir o significado das probabilidades, por isso aqui vai: imagine que a teoria dos mundos paralelos é verdade. Em quatro de cinco realidades alternativas, André Ventura está na segunda volta. A questão de muitos eleitores será, então, quem tem reais probabilidades de passar à segunda volta com Ventura. E a resposta fácil é: quase todos; mas uns mais do que os outros.

António José Seguro e Cotrim Figueiredo estão muito próximos: separam-nos 1,9 pontos percentuais no conjunto da agregação das sondagens. Não é muito, mas essa diferença, o facto de termos a tendência histórica de as sondagens mais perto da eleição estarem mais “próximas” do que efectivamente acontece, dá uma vantagem ao candidato do PS. Aqui a tradução de probabilidades é mais fácil. Atire uma moeda ao ar. Está convencido de que sairá cara? Eu não apostaria nada de valioso nessa certeza, mas também não descartava a ideia de que fosse acontecer. É assim com António José Seguro: o socialista tem 54% de probabilidade de ir à segunda volta.

Já Cotrim Figueiredo vai à segunda volta em três de dez cenários. E, dito desta forma, três em dez parece pouco. Mas lembre-se da última vez que jogou Monopólio: atirar os dois dados e sair um seis num deles, parece-lhe improvável? É que lançar dois dados e sair pelo menos um seis tem exactamente 30% de probabilidade de acontecer.

E Marques Mendes e Gouveia e Melo? Os dois têm vindo a cair e estão ambos na casa dos 15%. O que dá uma probabilidade de ir à segunda volta de 16% e 22%, respectivamente — e, portanto, cenários com menos probabilidade de acontecer, mas que, ainda assim, não deveriam surpreender ninguém se acontecessem. Lá porque uma coisa tem uma probabilidade mais baixa de acontecer, não quer dizer que não aconteça.

Os números essenciais

  • Não há praticamente margem para dúvidas de que teremos uma segunda volta;
  • Ventura vs. Seguro é agora a segunda volta mais provável — 44%.
  • Ventura vs. Cotrim acontece em 20% dos cenários
  • Seguro vs. Cotrim é muito improvável de acontecer; ou passa um ou outro, mas não os dois;

O que pode mudar

Veremos o que nos reserva esta quinta-feira, mas começam a não restar muitas mais sondagens para publicar. Seguro e Cotrim são agora os candidatos melhor posicionados para um frente-a-frente com Ventura. Gouveia e Melo e Mendes não são, no entanto, hipóteses de descartar. E os três candidatos à esquerda do PS somam, ao todo, cerca de 7%. Mas a campanha não acabou, e um dos problemas das sondagens é que são sempre uma fotografia do passado. As últimas duas “fotografias” acabaram de ser tiradas no dia 13 — e isso não nos dá certeza alguma que tenham capturado tudo o que acontece na campanha desde então.